EXTRA ECCLESIAM NULLA SALUS

sábado, 13 de novembro de 2010

O Rosário: Reflexões de São Luís Maria Grignion de Montfort


Hoje compartilho com todos estas reflexões de São Luís de Montfort acerca da oração do Rosário.

Ah se soubéssemos o quão valiosas são as preces do Rosário! Elas nos unem intimamente aos mistérios da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo. Além de ser uma esplêndida forma de meditação cristã que, na adoração a Deus, também nos acolhe e nos serve de refúgio para as vicissitudes dos dias.
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Para bem recitar vosso Rosário (I)

Para bem recitar o Rosário, após invocar o Espírito Santo, colocai-vos, por alguns instantes, diante da presença de Deus (...).

Antes de cada dezena, concentrai-vos por alguns momentos, segundo a vossa disponibilidade, para considerar o mistério que estais a celebrar naquela dezena e pedi, sempre, que, por esse mistério e pela intercessão da Virgem Santíssima, uma das virtudes que mais se destacam nesse mistério ou a virtude mais necessária para a vossa redenção.

Cuidai, principalmente, para não cairdes nos dois erros mais comuns cometidos por aqueles que rezam o Terço ou o Rosário. O primeiro é o de rezar sem pensar numa intenção, de maneira que, se perguntardes qual a intenção pela qual rezam o Terço, não saberão responder. Assim, deveis sempre ter em vista, ao recitar o Rosário, o pedido de uma graça, uma virtude à qual desejais vos assemelhar, ou algum pecado que desejais destruir em vosso coração.

O segundo erro que habitualmente cometemos, ao rezar o santo Rosário, é o de não ter qualquer intenção ao recitá-lo, a não ser a de terminá-lo rapidamente. Isso decorre do fato de olharmos o Rosário como algo oneroso, que pesa sobre nossos ombros, quando não o rezamos e, mormente, quando dele fazemos um princípio de consciência, ou quando o recebemos como penitência e sem vontade própria.


Para bem recitar vosso Rosário (II)

É de lastimar, quando vemos como a maioria das pessoas reza o Rosário. Elas o fazem com uma rapidez impressionante, chegando a engolir parte das palavras. Ninguém gostaria de cumprimentar, de saudar o último dos homens, desta forma ridícula e desrespeitosa; mas, apesar de rezarem assim, maquinalmente e sem qualquer devoção, acreditam que estão honrando Jesus e Maria!

A partir daí, será que temos que nos espantar se as mais santas orações da religião cristã não produzem quase frutos e se, após mil, e dez mil Rosários rezados, não conseguimos nos tornar mais santos?

Para bem recitar vosso Rosário (III)

O bem-aventurado Alain de la Roche e outros autores, entre os quais Bellarmin, contam que um bom Padre aconselhou a três de seus penitentes, na verdade, três irmãs, a recitar o Rosário com toda a devoção, durante um ano, sem deixar de fazê-lo nenhum dia, para assim tecer uma bela veste de glória para a Santa Virgem e que este teria sido um segredo que ele recebera do céu.

Como lhes fora recomendado, as três irmãs rezaram o Rosário durante um ano inteiro. No dia da Purificação, à noite, estando deitadas, receberam a visita da Virgem Santa, acompanhada de santa Catarina e de Santa Inês. Nossa Senhora portava vestimenta que irradiava luzes deslumbrantes, e nela se espalhava, em letras de ouro “Ave Maria gratia plena”, frase que se repetia em toda a roupa luminosa. A Rainha dos Céus aproximou-se do leito da primogênita das irmãs dizendo-lhe: “Eu te dirijo a minha saudação, minha filha, pois com tanta frequência e fervor me saudaste. Vim para agradecer as belas vestimentas que fizeste para mim.” As duas santas virgens, Catarina e Inês, que a acompanhavam, agradeceram, igualmente e, em seguida, as três desapareceram.

Uma hora mais tarde, a Virgem Maria, com as duas companheiras retornou ao quarto das irmãs. Estava vestida com uma roupa verde, mas sem ouro nem luz, e aproximando-se do leito da segunda jovem, agradeceu o vestido verde que ela lhe havia feito, através da oração do Rosário. Contudo, como esta segunda jovem havia visto a Virgem aparecer à irmã mais velha, com muito mais brilho, perguntou-lhe o motivo da diferença. Maria respondeu-lhe: “É porque sua irmã, rezando o Rosário com mais devoção que você, fez-me vestimentas muito mais belas do que as suas.”

Aproximadamente uma hora depois, a Virgem apareceu pela terceira vez à mais jovem das irmãs; desta vez, trajava um andrajo sujo e rasgado e disse-lhe: “Ó filha, assim você me vestiu, e eu lhe agradeço.” A mocinha, confusa, gritou: “Como? Minha Senhora e Mestra, eu vos vesti desta forma tão desprezível? Peço o vosso perdão. Peço que me concedais um pouco mais de tempo para que eu vos possa preparar uma bela vestimenta, recitando melhor o Rosário.”

São Luís Grignion de Monfort,
A eficácia maravilhosa do Santíssimo Rosário, nº128

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

São Tomás de Aquino - 1ª Parte



Publico hoje a primeira das três catequeses proferidas pelo Sumo Pontífice, o Papa Bento XVI, acerca de São Tomás de Aquino.

Todos os negritos são meus.

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Estimados irmãos e irmãs!

Depois de algumas catequeses a propósito do sacerdócio e das minhas últimas viagens, hoje voltemos ao nosso tema principal, ou seja, à meditação sobre alguns dos grandes pensadores da Idade Média. Ultimamente, tínhamos reflectido sobre a grande figura de São Boaventura, franciscano, e agora gostaria de falar daquele ao qual a Igreja chama o Doctor communis: isto é, São Tomás de Aquino. O meu venerado Predecessor, Papa João Paulo II, na sua Encíclica Fides et ratio recordava que São Tomás "foi sempre proposto pela Igreja como mestre de pensamento e modelo do modo reto de fazer teologia" (n. 43). Não surpreende que, depois de Santo Agostinho, entre os escritores eclesiásticos mencionados no Catecismo da Igreja Católica, São Tomás seja citado mais do que todos os outros, por sessenta e uma vezes! Ele foi denominado também o Doctor Angelicus, talvez pelas suas virtudes, de modo particular pela sublimidade do pensamento e pureza da vida.

Tomás nasceu entre os anos de 1224 e 1225, no castelo que a sua família, nobre e abastada, possuía em Roccasecca, nos arredores de Aquino, perto da célebre abadia de Montecassino, aonde tinha sido enviado pelos seus pais para receber os primeiros elementos da sua instrução. Alguns anos mais tarde transferiu-se para a capital do Reino da Sicília, Nápoles, onde Frederico II tinha fundado uma prestigiosa Universidade. Nela ensinava-se, sem os limites em vigor alhures, o pensamento do filósofo grego Aristóteles, no qual o jovem Tomás foi introduzido, e de quem intuiu imediatamente o grande valor. Mas sobretudo, nesses anos transcorridos em Nápoles, nasceu a sua vocação dominicana. Com efeito, Tomás sentiu-se atraído pelo ideal do Oriente, fundado não muitos anos antes de São Domingos. Todavia, quando vestiu o hábito dominicano, a sua família opôs-se a esta escolha, e ele foi obrigado a deixar o convento e a transcorrer um pouco de tempo com a família.

Em 1245, já de maior idade, pôde retomar o seu caminho de resposta ao chamamento de Deus. Foi enviado a Paris, para estudar teologia sob a guia de outro santo, Alberto Magno, sobre o qual falei recentemente. Alberto e Tomás estreitaram uma amizade verdadeira e profunda, e aprenderam a estimar-se e a respeitar-se um ao outro, a tal ponto que Alberto quis que o seu discípulo o seguisse também até Colónia, onde ele tinha sido convidado pelos Superiores da Ordem para fundar uma Casa de estudos teológicos. Então, Tomás entrou em contacto com todas as obras de Aristóteles e dos seus comentadores árabes, que Alberto ilustrava e explicava.

Naquele período, a cultura do mundo latino tinha sido profundamente estimulada pelo encontro com as obras de Aristóteles, que permaneceram desconhecidas por muito tempo. Tratava-se de escritos sobre a natureza do conhecimento, as ciências naturais, a metafísica, a alma e a ética, ricos de informações e de intuições que pareciam válidas e convincentes. Era toda uma visão completa do mundo, desenvolvida sem e antes de Cristo, com a mera razão, e parecia impor-se à razão como "a" própria visão; por conseguinte, ver e conhecer esta filosofia era para os jovens um fascínio incrível. Muitos acolheram com entusiasmo, aliás com entusiasmo acrítico, esta enorme bagagem do saber antigo, que parecia poder renovar vantajosamente a cultura, abrir horizontes totalmente novos. Porém, outros temiam que o pensamento pagão de Aristóteles estivesse em oposição à fé cristã e rejeitavam estudá-lo. Encontraram-se duas culturas: a cultura pré-cristã de Aristóteles, com a sua racionalidade radical, e a cultura clássica cristã. Determinados ambientes eram impelidos à rejeição de Aristóteles também pela apresentação que se fizera deste filósofo por parte dos comentadores árabes Avicena e Averroes. Com efeito, foram eles que transmitiram ao mundo latino a filosofia aristotélica. Por exemplo, estes comentadores tinham ensinado que os homens não dispõem de uma inteligência pessoal, mas que só existe um único intelecto universal, uma só substância espiritual, comum a todos, que age em todos como "única": portanto, uma despersonalização do homem. Outro ponto questionável, veiculado pelos comentadores árabes era aquele segundo o qual o mundo é eterno, como Deus. Compreensivelmente, desencadearam-se disputas infinitas nos mundos universitário e eclesiástico. A filosofia aristotélica ia-se difundindo até entre as pessoas simples.

Na escola de Alberto Magno, Tomás de Aquino desempenhou um trabalho de importância fundamental para a história da filosofia e da teologia, diria para a história da cultura: estudou profundamente Aristóteles e os seus intérpretes, encontrando novas traduções latinas dos textos originais em grego. Assim, não se apoiava mais unicamente nos comentadores árabes, mas podia ler pessoalmente os textos originais, e comentou uma boa parte das obras aristotélicas, distinguindo nelas aquilo que era válido daquilo que era duvidoso, ou que devia ser totalmente rejeitado, demonstrando a consonância com os dados da Revelação cristã e utilizando ampla e perspicazmente o pensamento aristotélico na exposição dos escritos teológicos que ele mesmo compôs. Em última análise, Tomás de Aquino mostrou que entre fé cristã e razão subsiste uma harmonia natural. E foi esta a grande obra de Tomás, que naquele momento de desencontro entre duas culturas – naquele momento em que parecia que a fé devia render-se perante a razão – demonstrou que elas caminham a par e passo, que quanto parecia ser razão não compatível com a fé não era razão; e aquilo que parecia ser fé não era tal, enquanto se opunha à verdadeira racionalidade; deste modo, ele criou uma nova síntese, que veio a formar a cultura dos séculos seguintes.

Em virtude das suas excelentes qualidades intelectuais, Tomás foi chamado novamente a Paris como professor de teologia na cátedra dominicana. Ali começou também a sua produção literária, que continuou até à morte, e que contém algo de prodigioso: comentários à Sagrada Escritura, porque o professor de teologia era sobretudo intérprete da Sagrada Escritura, comentários aos escritos de Aristóteles, obras sistemáticas imponentes, entre as quais sobressai a Summa Theologiae, tratados e discursos sobre vários argumentos. Na composição dos seus escritos, era coadjuvado por alguns secretários, entre os quais o irmão dominicano Reginaldo de Piperno, que o acompanhou fielmente e com o qual o ligava uma amizade fraterna e sincera, caracterizada por uma grande confidência e confiança. Trata-se de uma característica dos santos: cultivam a amizade, porque ela é uma das manifestações mais nobres do coração humano, e contém em si algo de divino, como o próprio Tomás explicou em algumas quaestiones da Summa Theologiae, onde escreve: "A caridade é principalmente a amizade do homem com Deus, e com os seres que Lhe pertencem" (II, q. 23, a.1).

Não permaneceu prolongada e estavelmente em Paris. Em 1259 participou no Capítulo Geral dos Dominicanos em Valenciennes, onde foi membro de uma comissão que estabeleceu o programa de estudos na Ordem. Depois, de 1261 a 1265, Tomás esteve em Orvieto. O Pontífice Urbano IV, que nutria uma grande estima por ele, comissionou-lhe a composição dos textos litúrgicos para a festa do Corpus Christi, que celebramos amanhã, instituída a seguir ao milagre eucarístico de Bolsena. Tomás tinha uma alma requintadamente eucarística. Os lindos hinos que a liturgia da Igreja entoa, para celebrar o mistério da presença real do Corpo e do Sangue do Senhor na Eucaristia são atribuídos à sua fé e à sua sabedoria teológica. De 1265 a 1268 Tomás residiu em Roma onde, provavelmente, dirigia um Studium, ou seja uma Casa de estudos da Ordem, e onde começou a escrever a sua Summa Theologiae (cf. Jean-Pierre Torrell, Tommaso d'Aquino. L'uomo e il teologo, Casale Monf., 1994, págs. 118-184).

Em 1269 foi chamado novamente a Paris, para um segundo ciclo de ensino. Os estudantes – pode-se compreender – entusiasmavam-se com as suas lições. Um dos seus ex-alunos declarou que uma enorme multidão de estudantes seguia os cursos de Tomás, a tal ponto que as salas tinham dificuldades em contê-los e, com um apontamento pessoal, acrescentava que "ouvi-lo era para ele uma profunda felicidade". A interpretação de Aristóteles formulada por Tomás não era aceita por todos, mas até os seus adversários no campo académico, como Gofredo de Fontaines, por exemplo, admitiam que a doutrina de frei Tomás era superior a outras pela sua utilidade e valor, e servia como corretivo para aquelas de todos os outros doutores. Talvez também para o subtrair dos intensos debates em curso, os Superiores enviaram-no novamente a Nápoles, para permanecer à disposição do rei Carlos I, que tencionava reorganizar os estudos universitários.

Além do estudo e do ensino, Tomás dedicou-se inclusive à pregação pública. E também o povo ia ouvi-lo de bom grado. Diria que é verdadeiramente uma grande graça, quando os teólogos sabem falar com simplicidade e fervor aos fiéis. Por outro lado, o ministério da pregação ajuda os próprios estudiosos de teologia a ter um sadio realismo pastoral, e enriquece a sua investigação com estímulos intensos.

Os últimos meses da vida terrena de Tomás permanecem circundados por uma atmosfera particular, diria misteriosa. Em Dezembro de 1273 ele chamou o seu amigo e secretário Reginaldo para lhe comunicar a decisão de interromper todos os trabalhos porque, durante a celebração da Missa, tinha compreendido, a seguir a uma revelação sobrenatural, que tudo aquilo que tinha escrito até então era apenas "um monte de palha". É um episódio misterioso, que nos ajuda a compreender não só a humildade pessoal de Tomás, mas também o facto de que tudo o que conseguimos pensar e dizer sobre a fé, por mais elevado e puro que seja, é infinitamente ultrapassado pela grandeza e pela beleza de Deus, que nos será revelada plenamente no Paraíso. Alguns meses depois, cada vez mais absorvido numa meditação reflexiva, Tomás faleceu enquanto viajava para Lião, aonde ia para participar no Concílio Ecuménico proclamado pelo Papa Gregório X. Veio a falecer na Abadia cisterciense de Fossanova, depois de ter recebido o Viático com sentimentos de grande piedade.

A vida e o ensinamento de São Tomás de Aquino poder-se-iam resumir num episódio transmitido pelos antigos biógrafos. Enquanto o Santo, como fazia habitualmente, estava em oração diante do Crucifixo, de manhã cedo na Capela de São Nicolau em Nápoles, Domingos de Caserta, o sacristão da igreja, ouviu um diálogo. Tomás perguntava, preocupado, se aquilo que tinha escrito sobre os mistérios da fé cristã era correcto. E o Crucificado respondeu-lhe:"Tu falaste bem de mim, Tomás. Qual será a tua recompensa?". E a resposta que Tomás deu é aquela que também nós, amigos e discípulos de Jesus, sempre gostaríamos de lhe dizer: "Nada mais do que Tu, Senhor!" (Ibid., pág. 320).

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A Revolução Francesa, a Igreja e a Mentira da Liberdade



Liberté, égalité, fraternité...

Liberdade, igualdade e fraternidade; eis o mote que agitou os sentimentos revolucionários dos franceses do século XVIII.

Doces palavras que encantam nossos ouvidos e que nos fazem desejar morrer por elas.

In cauda venenum, diz-se do escorpião. E se no escorpião o veneno está na cauda; nos homens ele se encontra escondido em palavras suaves e bajulações vazias.

Como é fácil deixar-se envenenar por elas!

"Lutemos pela liberdade, pela igualdade e pela fraternidade!"

Não é difícil encontrar o discurso acima escorrendo pelos lábios dos demagogos mais sanguinários que já passaram por essas paragens.

Não pretendo discorrer aqui acerca da doutrina iluminista que serviu de sustentáculo para o desenrolar dos acontecimentos revolucionários de fins do século XVIII; ater-me-ei tão somente a fatos históricos ocorridos na França revolucionária.

Basta-me dizer, entretanto, que o iluminismo estava apoiado em crenças perversas; mesmo não as conhecendo todas, isto podemos deduzir pelos seus frutos, pois, conforme disse Nosso Senhor:

Non potest arbor bona malos fructus facere: neque arbor mala bonos fructus facere. Omnis arbor, quæ non facit fructum bonum, excidetur, et in ignem mittetur. Igitur ex fructibus eorum cognoscetis eos. (Mt. 7, 18 - 20)
A árvore má não pode dar bons frutos...

Evidentemente há uma conjunção de diversos fatores políticos, econômicos e sociais que precipitaram as revoltas na França. A princípio nada de religião. Entretanto, fora o iluminismo que moldara o pensamento dos revolucionários, e como este era predominantemente anti-clerical, não demorou muito para que o aspecto anti-religioso do movimento viesse à tona de maneira brutal.

Em seu décimo artigo, assim se expressa a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão:
 Article 10 - Nul ne doit être inquiété pour ses opinions, mêmes religieuses (...) (Ninguém deve ser incomodado por suas opiniões, inclusive as religiosas (...) )
No artigo seguinte, a Declaração reza pelos direitos de expressão da opinião.

A seguir veremos o quão perigosas essas idéias, quando afastadas da Verdade, são para as mentes e vidas. Que nossa geração possa aprender com os erros do passado,  uma vez que
 Historia magistra vitae

A história é mestra da vida...

Em maio de 1789, o rei Luís XVI convocou os estados gerais, ou seja, a nobreza, o clero e o chamado terceiro estado para que se pudesse solucionar determinados problemas que afligiam os franceses.

No entanto, rapidamente o clima esquentou durante as deliberações e o terceiro estado tomou à frente na direção das discussões e pleiteou a criação de uma Assembléia Nacional; além da promulgação de uma nova constituição.

É interessante vermos que os ideais iluministas já haviam conquistado uma camada relevante da nobreza e do clero. Se soubessem quão caro isto lhes custaria...

Conforme bem lembra Fustel de Coulanges,

quando a autoridade deixa de parecer legítima aos súditos, demora ainda um tempo até que assim pareça aos senhores; mas por fim acontece, e então o senhor, que já não acredita na legitimidade de sua autoridade, defende-a mal ou acaba por renunciar a ela.

Em um curto espaço de tempo as propostas do terceiro estado dominaram as massas que se deixaram seduzir pelos discursos revolucionários que procuravam injetar-lhes o veneno do ódio contra as classes dominantes: a nobreza e o clero.

Havia-se, então, encontrado um pretexto para jogar a população contra a Igreja: as propriedades que esta possuía. Começou-se, assim, uma intensa propaganda contra a Igreja Católica que, de um início sutil, desenvolver-se-ia em inúmeras atrocidades. A liberté havia sido apenas um pretexto...

Contrariamente ao que se propusera no décimo artigo da Declaração, a liberdade da Igreja começou a sofrer um fortíssimo cerceamento.

Por proposta do bispo de Autun, Talleyrand, o patrimônio da Igreja foi colocado à disposição do Estado. Em 1790 a Assembléia Constituinte suprimiu as ordens religiosas. Para os revolucionários, a regra da liberdade religiosa admitia exceções, exceções estas que se tornaram as regras de um governo cada vez mais brutal.

Um dos pontos culminantes desta tendência anti-eclesiástica é a criação da Constituição Civil do Clero.

Por este documento tomaram-se diversas medidas para enfraquecer a Igreja cada vez mais e torná-la apenas uma ferramenta do Estado, uma ferramenta provisória que em breve deveria ser descartada. Reduziu-se o número dos bispados de 134 para 83; eliminaram-se diversos benefícios e ofícios eclesiásticos; decretou-se a eleição popular dos bispos e padres, sem a necessidade de qualquer confirmação papal. A tentativa de destruição da Igreja francesa dava passos cada vez mais largos.

E os defensores da liberté  obrigaram todos os eclesiásticos  a jurar fidelidade à constituição civil. É-nos fácil imaginar a confusão que tomou conta da Igreja francesa: criou-se uma dupla Igreja. Por um lado, havia aqueles que haviam jurado fidelidade à constituição civil (sendo Talleyrand um dos primeiros a fazê-lo); por outro lado, a imensa maioria do clero francês recusou-se a ceder às pressões da Assembléia Constituinte e não fez o juramento.

A fidelidade a Cristo e à Igreja estava mantida por uma imensa maioria de sacerdotes.

Em 1791, a Assembléia Nacional Legislativa, substituta da Constituinte, empreendeu uma perseguição violenta àqueles que se recusaram a fazer o juramento. Estes sacerdotes, filhos fiéis da Igreja, foram presos e/ou deportados. O uso de hábito eclesiástico tornou-se proibido. Tudo em nome da liberté. Mais de duzentos sacerdotes encarcerados foram sumariamente assassinados nas prisões.

Finalmente chegou o tempo da apoteose da liberdade e da fraternidade: a guilhotina. Ela fez vítimas em todas as camadas sociais, espalhando o terror por toda a França. Qualquer ato que parecesse aos revolucionários como subversivo era suficiente para fazer sangue jorrar. A atenção dos revolucionários voltara-se então para os sacerdotes e religiosos que não haviam jurado ou que de certa forma representassem uma ameaça à Revolução.

Assim aconteceu às dezesseis carmelitas de Compiègne que diante da guilhotina renovaram uma a uma a profissão de fé nas mãos da priora. Enquanto esperava no cárcere, uma delas escrevia bravamente a sua vitória com as próprias palavras da revolução:

Allons...l’heure de la gloire est arrivée (Vamos...chegou a hora da glória).

Quantos foram os fuzilamentos e os afogamentos em massa!

Este regime revolucionário sabia que para acabar com a religião deveria acabar com os princípios morais e com a família. Facilitou-se o divórcio e revogou-se a lei do celibato eclesiástico.

A França estava afogando-se em seu próprio sangue...o sonho de liberdade, igualdade e fraternidade transformou-se no pesadelo da opressão e do caos.

O próximo passo dos arautos da liberté, égalité, fraternité fora dar início ao tão sonhado projeto iluminista de descristianização. Buscava-se abolir todo o passado cristão. Não mais se falava em “era cristã”, utilizava-se um calendário republicano. O domingo, principal dia de culto para os cristãos, foi abolido. O mês agora teria trinta dias subdividido em três semanas de dez dias. Ademais, para se substituir os dias santos, passou-se a denonimar cada dia do ano com o nome de um animal, planta ou árvore. Em 1793, o cristianismo foi oficialmente abolido da França.

Profanaram-se as Catedrais e demais igrejas com cultos à “deusa da razão”, muitas igrejas foram transformadas em armazéns ou estrebarias.

Duros momentos de uma época onde tudo é permitido...e apenas a Verdade é proibida.

Contradições humanas que preferem um doce veneno a um remédio amargo, mas salutar. Negar-se a si mesmo e aceitar a autoridade que vem de Deus mexe com nosso orgulho, é amargo para a nossa natureza inclinada para o pecado, mas é o que mais pode haver de mais salutar para a nossa alma.

Os verdadeiros cristãos deste período eram obrigados a amotinar-se em lugares escondidos para a celebração da missa. Os padres não jurados arriscavam-se a ser presos; os fiéis, por sua vez, temiam pelo que lhes pudesse acontecer se fossem pegos ouvindo a estes “traidores”.

Passada esta era conturbada, a Igreja na França começaria a reflorescer.

Este pequeno texto não tinha por objetivo fazer uma análise exaustiva de todos os pontos que envolvem a Revolução Francesa, mas tão somente relatar de forma sucinta algumas das peseguições sofridas pela Igreja durante este periodo sombrio da História.

Nenhuma força humana poderá contra a Santa Igreja Católica, ideologias e governos passam, são efêmeros. A Igreja jamais passará, pois Nosso Senhor lhe prometeu

et ecce ego vobiscum sum omnibus diebus, usque ad consummationem sæculi (Mt 28, 20).


Que os acontecimentos da Revolução fortaleçam a nossa fé, que Nossa Senhora dê-nos força para tudo suportar por amor a Cristo e à Sua Igreja e para jamais renunciar à Verdade.

Apenas pode haver liberdade de fato se esta estiver respaldada pela Verdade, caso contrário, trata-se de uma mera ilusão.

Pax Domini Sit Semper Vobiscum

William Bottazzini

domingo, 7 de novembro de 2010

Catecismo II - Prólogo (II - Transmitir a fé - a catequese)



Vamos, então, dar continuidade ao nosso estudo sobre o Catecismo da Igreja Católica.

Analisemos então a segunda parte do Prólogo do Catecismo.

Neste ponto, o Catecismo faz uma explanação da importância, ou melhor, da necessidade que o cristão tem de estudar para melhor compreender a sua própria fé e, com isso, não incorrer em erros doutrinários.

Conforme disse Santo Anselmo, a nossa é a
                                   fides quaerens intellectum
Ou seja, é a fé que procura compreender.

Mas, será que os cristãos primitivos preocupavam-se em ensinar, de maneira sistemática, as verdades reveladas? Assim começa o catecismo:
"Bem cedo se chamou catequese ao conjunto de esforços empreendidos na Igreja para fazer discípulos, para ajudar os homens a acreditar que Jesus é o Filho de Deus, a fim de, pela fé, terem a vida em seu nome, e para os educar e instruir nessa vida, construindo assim o Corpo de Cristo".
Portanto, o catecismo nos informa que desde os primórdios os cristãos dedicavam-se a ensinar a fé através da catequese, termo este que já era usado na antiguidade, aos que davam os primeiros passos no caminho para Cristo. Desta maneira faziam-se discípulos.

A este respeito, escreveu o papa João Paulo II na Exortação Apostólica Catechesi Tradendae:
"A catequese foi sempre considerada pela Igreja como uma das suas tarefas primordiais, porque Cristo ressuscitado, antes de voltar para o Pai, deu aos Apóstolos uma última ordem: fazer discípulos de todas as nações e ensinar-lhes a observar tudo aquilo que lhes tinha mandado (Mt 28, 19). Deste modo lhes confiava Cristo a missão e o poder de anunciar aos homens aquilo que eles próprios tinham ouvido do Verbo da Vida, visto com os seus olhos, contemplado e tocado com as suas mãos (1 Jo 1, 1). Ao mesmo tempo, confiava-lhes ainda a missão e o poder de explicar com autoridade aquilo que Ele lhes tinha ensinado, as suas palavras e os seus atos, os seus sinais e os seus mandamentos. E dava-lhes o Espírito Santo, para realizar tal missão" (destaques meus).
Vemos, pois, que fora o próprio Cristo que dera o ímpeto inicial à catequese cristã. Nosso Senhor ordena que os apóstolos façam discípulos e que ensine a estes as verdades da fé. E para assistir os apóstolos nesta missão, Cristo envia-lhes o Espírito Santo. Os apóstolos, por sua vez, faziam passar fielmente aos convertidos à fé tudo o que tinham vivido e aprendido com Nosso Senhor, conforme atesta o apóstolo João no primeiro verso de sua primeira carta. Assim, através da catequese, perpetuava-se a doutrina da Igreja, a qual jamais pode sofrer qualquer alteração, pois quem a deu foi o próprio Deus, e a sua palavra jamais passará ( Mt 24,35).

Por isso, o dever do catequista é ser um mero repetidor daquilo que ensinam Cristo e a Igreja. Não é função do catequista inventar novos ensinamentos; ser engraçado; ser carismático; entre outros. Basta ensinar o que ensina a Igreja e mostrar os documentos que sustentam suas afirmações. O catequista não necessita "achar" nada. Tudo o que é fundamental para a nossa salvação já fora revelado pelo próprio Deus aos apóstolos, ou seja, à Igreja. É claro que muitas coisas não foram entendidas imediatamente; muitas a Igreja apenas foi compreendendo ao longos dos anos, e isto se deve à perene assitência que lhe dá o Santo Espírito.

Contudo, se quiséssemos definir a palavra catecismo, como o faríamos?

Responde-nos o Catecismo da Igreja Católica no parágrafo seguinte:
A catequese é uma educação da fé das crianças, dos jovens e dos adultos, que compreende especialmente o ensino da doutrina cristã, ministrado em geral dum modo orgânico e sistemático, em ordem à iniciação na plenitude da vida cristã
Vejamos, assim, que catequese é educação da fé. O termo educação significa conduzir para fora, ou, mais amplamente, conduzir para o mundo. Logo, a educação da fé, ou a catequese, nada mais é que a condução para a fé; é levar o indivíduo ao conhecimento da verdadeira fé e à compreensão da mesma.

Notamos ainda, neste parágrafo, que a catequese não é privilégio de uma determinada faixa etária. Todos são chamados a aprender mais da vida cristã. Na verdade, mesmo os que já se encontram na Igreja de Cristo, leigos ou não, devem estar constantemente em contato com os ensinamentos multisseculares  da Igreja. Afinal, nos diz o apóstolo Pedro:
Estai sempre prontos a responder para vossa defesa a todo aquele que vos pedir a razão de vossa esperança (1 Pd 3, 15).
Precisamos todos ser constantemente catequisados.

No parágrafo seguinte, o Catecismo da Igreja Católica nos orienta:
Sem se confundir com eles, a catequese articula-se com um certo número de elementos da missão pastoral da Igreja que têm um aspecto catequético, preparam para a catequese ou dela derivam: o primeiro anúncio do Evangelho ou pregação missionária, para suscitar a fé; a busca das razões de acreditar; a experiência da vida cristã; a celebração dos sacramentos; a integração na comunidade eclesial; o testemunho apostólico e missionário
O Catecismo destaca, neste parágrafo, alguns elementos da missão pastoral da Igreja. Estes elementos estão articulados com a catequese, pois ou preparam para a catequese ou derivam dela.

Por exemplo, o primeiro anúncio do Evangelho será para preparar o terreno do coração para a fé; uma vez despertada a fé, o indivíduo deverá compreendê-la, e aqui começa a catequese, que lhe fornecerá alimentos espirituais mais sólidos. Assim, neste quadro, o anúncio do Evangelho preparou o indivíduo para a catequese.

Depois de ter aprendido sobre a importância dos sacramentos e ter aderido livremente aos ensimanentos da Igreja, a pessoa poderá, então, celebrar de maneira correta toda a vida sacramental da Igreja. Nesta situação, a catequese preparou a pessoa para a recepção dos sacramentos.

É isso que o catecismo quer dizer quando fala da articulação da catequese com os outros elementos da vida pastoral. A catequese não pode ser um fim em si, mas o meio para se ter uma vida cristã gozada em sua plenitude. Destarte, a catequese não pode ser separada da vida da Igreja, segundo o próprio Catecismo no parágrafo subsequente:
A catequese está intimamente ligada a toda a vida da Igreja. Dependem essencialmente dela não só a expansão geográfica e o crescimento numérico, mas também, e muito mais ainda, o crescimento interior da Igreja e a sua conformidade com o desígnio de Deus.
Não se pode falar de doutrina cristã, de catequese, e se recusar a caminhar com a Igreja.

Por este parágrafo depreende-se que a catequese não tem por escopo apenas o aumento numérico dos cristãos, mas também fazer com aqueles que já estão no seio da Igreja possam viver cada vez mais segundo o desejo de Nosso Deus e Senhor. Daí a importância de uma catequese perene, a importância de sempre termos diante de nossos olhos aquilo que o Senhor nos ensina através de Sua Igreja. Devemos desejar ardentemente ter todas as instruções de Nosso Deus gravadas em nosso coração.

Continuemos com o Catecismo.
Os períodos de renovação da Igreja são também tempos fortes de catequese. Assim, na grande época dos Padres da Igreja, vemos santos bispos consagrarem parte importante do seu ministério à catequese, como por exemplo São Cirilo de Jerusalém, São João Crisóstomo, Santo Ambrósio, Santo Agostinho e tantos outros Padres, cujas obras catequéticas continuam a ser modelo.
Entenda-se renovação como a adequação da mensagem evangélica aos tempos e aos costumes. A mensagem é a mesma; a doutrina, também. Contudo, a linguagem e os meios utilizados para se propagar a mensagem de Cristo variam conforme as necessidades do tempo. Ademais, conforme os anos avançam, surgem falsas doutrinas que tendem a induzir cada vez mais pessoas ao erro, e, para combatê-las, a Igreja, através da Sagrada Tradição e das Escrituras, estabelece os pontos doutrinários que se tornaram controversos devido à desobediência à Sagrada Hierarquia. É neste sentido que a Igreja se renova.

Como exemplo podemos citar a questão da divindade de Jesus. Nos primórdios do cristianismo esta questão era clara, daí não surgirem controvérsias, daí muitos anos sem este assunto ser causa de disputas. Quando, contudo, surgiram os hereges negando a divindade de Nosso Senhor, a Igreja foi obrigada a estabelecer a doutrina definitiva a este respeito e a posicionar-se de uma vez por todas do ponto de vista dogmático. Reconheceu-se solenemente o dogma para que os cristãos não mais se perdessem em divagações que poderiam induzí-los ao erro.

Os Padres mencionados tiveram que combater, cada qual em seu tempo, as mais diversas heresias e, para impedir que os cristãos se perdessem no erro, escreveram diversas obras para instruí-los segundo a reta doutrina, aquela que fora recebida dos apóstolos.

Todos os Padres citados neste parágrafo do Catecismo devem ser minunciosamente estudados por aqueles que queiram fazer um trabalho catequético sólido e profundo.

Além dos Padres, outro ponto de referência fundamental para a catequese são os Concílios. Leiamos o Catecismo:
O ministério da catequese vai buscar energias sempre novas aos concílios. O Concílio de Trento constitui, a este respeito, um exemplo a sublinhar: nas suas constituições e decretos, deu prioridade à catequese; está na origem do Catecismo Romano que tem o seu nome e que constitui um trabalho de primeira ordem como compêndio da doutrina cristã; fez nascer na Igreja uma organização notável da catequese; e, graças a santos bispos e teólogos, como São Pedro Canísio, São Carlos Borromeo, São Toríbio de Mogrovejo e São Roberto Belarmino, levou à publicação de numerosos catecismos.
Este Catecismo do Concílio de Trento, o Catecismo Romano, será constantemente citado neste nosso estudo.

Logo, prezado leitor, é nosso dever de cristãos estar atentos a tudo o que a Igreja nos ensina em seus Concílios e outros documentos que publica.

Não foi diferente durante o Concílio Vaticano II, conforme atesta o próprio Catecismo da Igreja Católica:
Não admira, pois, que, na sequência do II Concílio do Vaticano (que o Papa Paulo VI considerava como o grande catecismo dos tempos modernos), a catequese da Igreja tenha de novo chamado a atenção. O Diretório catequético geral, de 1971; as sessões do Sínodo dos Bispos consagradas à evangelização (1974) e à catequese (1977): e as exortações apostólicas correspondentes — Evangelii nuntiandi (1975) e Catechesi tradendae (1979) — são disso bom testemunho. A assembleia extraordinária do Sínodo dos Bispos de 1985 pediu: "que seja redigido um catecismo ou compêndio de toda a doutrina católica, tanto no tocante à fé como no que respeita à moral". O Santo Padre João Paulo II fez seu este voto do Sínodo dos Bispos. Reconheceu que "tal desejo corresponde inteiramente a uma verdadeira necessidade da Igreja universal e das Igrejas particulares". E pôs todo o seu empenho em que se concretizasse este desejo dos Padres sinodais.
E assim nasceu o Catecismo da Igreja Católica que estamos estudando parágrafo por parágrafo.

Entretanto, o que pensa o Papa Bento XVI acerca do Catecismo da Igreja Católica?

Recentemente o Papa constituiu o Pontifício Conselho para a Pomoção da Nova Evangelização através do Motu Proprio Ubicumque et Semper.

E dentre as tarefas deste conselho se encontra:
promover o uso do Catecismo da Igreja Católica, como formulação essencial e completa do conteúdo da fé para os homens do nosso tempo
Que este catecismo seja um dos nossos grandes aliados na fortificação de nossa fé enquanto peregrinarmos por este mundo.

Pax Domini Sit Semper Vobiscum

William Bottazzini

Todos os Santos: um sermão de São Bernardo



Hoje, sete de novembro, a Igreja comemora a solenidade de Todos os Santos! Hoje celebramos cada um de nossos amados irmãos e irmãs, anônimos ou não, que receberam a gloriosíssima recompensa de ver o Pai face a face, recompensa esta que devemos buscar a cada segundo, como o fim máximo de nossa existência.

Demonstramos o nosso amor ao nosso Criador ao obedecermos os Seus preciosíssimos mandamentos, e nosso galardão será o próprio Deus, estar com Ele para sempre. Ao obedecermos aos Santos Mandamentos de Nosso Senhor, dizemos expressamente que tudo o que queremos é passar o resto da eternidade ao Seu lado.

Prezados leitores, como sugestão de D. Bento Albertin, OSB, publico hoje este belo sermão de São Bernardo.

Pax Domini Sit Semper Vobiscum!

Todos os destaques são meus.

________________

Dos Sermões de São Bernardo, abade.
(Sermo 2: Opera omnia, Ed. Cisterc. 5[1968], 364-368 (Sec. XII)

Corramos para os irmãos que nos esperam

Que aproveitam aos Santos o nosso louvor, a nossa glorificação e até esta mesma solenidade? Para quê tributar honras terrenas a quem o Pai celeste glorifica, segundo a promessa verdadeira do Filho? De que lhes servem os nossos panegíricos? Os Santos não precisam das nossas honras e nada podemos oferecer-lhes com a nossa devoção.

Realmente, venerar a sua memória interessa-nos a nós e não a eles.

Por mim, confesso, com esta evocação sinto-me inflamado por um anelo veemente.

O primeiro desejo que a recordação dos Santos excita ou aumenta em nós é o de gozar da sua amável companhia, de merecermos ser concidadãos e comensais dos espíritos bem-aventurados, de sermos integrados na assembléia dos Patriarcas, na falange dos Profetas, no senado dos Apóstolos, no inumerável exército dos Mártires, na comunidade dos Confessores, nos coros das Virgens; enfim, de nos reunirmos e nos alegrarmos na comunhão de todos os Santos.

Aguarda-nos aquela Igreja dos primogênitos e nós ficamos insensíveis; desejam os Santos a nossa companhia e nós pouco nos importamos; esperam-nos os justos e nós parecemos indiferentes.

Despertemos, finalmente, irmãos. Ressuscitemos com Cristo, procuremos as coisas do alto, saboreemos as coisas do alto. Desejemos os que nos desejam, corramos para os que nos aguardam, preparemo-nos com as aspirações da nossa alma para entrar na presença daqueles que nos esperam. Não devemos apenas desejar a companhia dos Santos, mas também a sua felicidade, ambicionando com fervorosa diligência a glória daqueles por cuja presença suspiramos. Na verdade, esta ambição não é perniciosa, nem o desejo de tal glória é de modo algum perigoso.

Ao comemorarmos os Santos, um segundo desejo se inflama em nós: que, tal como a eles, Cristo, nossa vida, Se nos manifeste também e que nos manifestemos também nós com Ele revestidos de glória. É que de momento a nossa Cabeça revela-Se-nos não como é, mas como encarnou por nós, não coroada de glória, mas rodeada dos espinhos dos nossos pecados. Envergonhemo-nos de sermos membros tão requintados sob uma Cabeça coroada de espinhos, à qual por agora a púrpura não proporciona honras mas afronta. Chegará o momento da vinda de Cristo; e já não se anunciará a sua morte, para sabermos que também nós estamos mortos e que a nossa vida está escondida com Ele.

Aparecerá a Cabeça gloriosa e com ela resplandecerão os membros glorificados, quando Ele transformar o nosso corpo mortal e o tornar semelhante ao corpo glorioso da Cabeça que é Ele mesmo.

Desejemos pois esta glória com total e segura ambição. Mas para podermos esperar tal glória e aspirar a tamanha felicidade, devemos desejar também ardentemente a intercessão dos Santos, a fim de nos ser concedido pelo seu patrocínio o que as nossas possibilidades não alcançam.

São Pio X


Hoje publico uma catequese do Santo Padre, o Papa Bento XVI, acerca de seu predecessor São Pio X.

Esta catequese fora dada no dia 28 de agosto de 2010.

Todos os negritos são meus.

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Prezados irmãos e irmãs

Hoje, gostaria de meditar acerca da figura do meu Predecessor São Pio X, cuja memória litúrgica será celebrada no próximo sábado, salientando algumas das suas características que podem ser úteis também para os Pastores e os fiéis da nossa época.

Giuseppe Sarto, este é o seu nome, nasceu em Riese (Treviso) em 1835 de uma família de camponeses e depois dos estudos no Seminário de Pádua foi ordenado sacerdote com 23 anos de idade. Primeiro foi vice-pároco em Tombolo, depois pároco em Salzano, em seguida cônego da catedral de Treviso, com o encargo de chanceler episcopal e diretor espiritual do Seminário diocesano. Nestes anos de rica e generosa experiência pastoral, o futuro Pontífice demonstrou aquele profundo amor a Cristo e à Igreja, a humildade e simplicidade e a grande caridade para com os mais necessitados, que constituíram características de toda a sua vida. Em 1884 foi nomeado Bispo de Mântua e em 1893 Patriarca de Veneza. No dia 4 de Agosto de 1903 foi eleito Papa, ministério que aceitou com hesitação, porque não se considerava à altura de uma tarefa tão importante.

O Pontificado de São Pio X deixou um sinal indelével na história da Igreja e caracterizou-se por uma notável esforço de reforma, resumida no mote Instaurare omnia in Christo, "Renovar tudo em Cristo". Com efeito as suas intervenções envolveram os vários âmbitos eclesiais. Desde o começo, dedicou-se à reorganização da Cúria romana; depois, deu início aos trabalhos para a redação do Código de Direito Canónico, promulgado pelo seu Sucessor Bento XV. Sucessivamente, promoveu a revisão dos estudos e do percurso de formação dos futuros sacerdotes, fundando também vários seminários regionais, dotados de boas bibliotecas e professores preparados. Outro ramo importante foi o da formação doutrinal do Povo de Deus. Desde os anos em que era pároco, tinha redigido pessoalmente um catecismo e, durante o Episcopado em Mântua, trabalhara a fim de que se chegasse a um catecismo único, se não universal, pelo menos italiano. Como autêntico Pastor, compreendera que a situação nessa época, também devido ao fenômeno da emigração, tornava necessário um catecismo ao qual cada fiel pudesse fazer referência, independentemente do lugar e das circunstâncias de vida. Como pontífice, preparou um texto de doutrina cristã para a Diocese de Roma, depois se difundiu em toda a Itália e no mundo. Este Catecismo, chamado "de Pio X" foi para muitas pessoas uma guia segura na aprendizagem das verdades relativas à fé pela sua linguagem simples, clara e específica, e pela eficácia da sua exposição.

Ele dedicou uma atenção notável à reforma da Liturgia, de modo particular da música sacra, para levar os fiéis a uma vida de oração mais profunda e a uma participação mais completa nos Sacramentos. No Motu Proprio Tra le sollecitudini, de 1903, primeiro ano do seu Pontificado, ele afirma que o verdadeiro espírito cristão tem a sua fonte primária e indispensável na participação concreta nos mistérios sacrossantos e na oração pública e solene da Igreja (cf. AAS 36 [1903], 531). Por isso, recomendava a aproximação frequente dos Sacramentos, favorecendo a recepção diária da Sagrada Comunhão, bem preparados, e antecipando oportunamente a Primeira Comunhão das crianças mais ou menos aos sete anos de idade, "quando a criança começa a raciocinar" (cf. S. Congr. de Sacramentis, Decretum Quam singulari:  AAS 2 [1910], 582).

Fiel à tarefa de confirmar os irmãos na fé, São Pio X, diante de algumas tendências que se manifestaram no âmbito teológico, no final do século XIX e no início do século XX, interveio com determinação, condenando o "Modernismo", para defender os fiéis de concepções errôneas e promover um aprofundamento científico da Revelação, em harmonia com a Tradição da Igreja. Em 7 de Maio de 1909, com a Carta Apostólica Vinea electa, fundou o Pontifício Instituto Bíblico. Os últimos meses da sua vida foram funestados pelos indícios da guerra. O apelo aos católicos do mundo, lançado a 2 de Agosto de 1914, para manifestar "a dor acerba" da hora presente, era o clamor de sofrimento do pai que vê os filhos pôr-se uns contra os outros. Faleceu pouco tempo depois, no dia 20 de Agosto, e a sua fama de santidade começou a difundir-se imediatamente no meio do povo cristão.

Caros irmãos e irmãs, São Pio X ensina-nos a todos que na base da nossa obra apostólica, nos vários campos em que trabalhamos, deve haver sempre uma íntima união pessoal com Cristo, que se há-de cultivar e aumentar dia após dia. Eis o cerne de todo o seu ensinamento, de todo o seu compromisso apostólico. Somente se formos apaixonados pelo Senhor, seremos capazes de conduzir os homens a Deus, de os abrir ao seu Amor misericordioso e, deste modo, de abrir o mundo à misericórdia de Deus.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A Terra Plana e Colombo



Imaginem a seguinte situação:

Há um grupo de aproximadamente trinta alunos fitando atentamente o professor. Este, por sua vez, olha para um ponto vazio da sala; o que vai dizer poderá ser chocante para muitos, mas tem que ser dito. Alguém deve fazê-lo! Afinal, não é para instruir que está ali? Sem mais, começa o mestre a enunciar as primeiras palavras da aula:

- Às vezes, queridos alunos, devemos contrariar o senso comum e a palavra das autoridades se quisermos encontrar a verdade e o caminho para o desenvolvimento. E talvez esta seja uma das coisas mais importantes que o navegador genovês Cristovão Colombo tenha nos ensinado.

- Mas, professor, interpela um aluno, não foi ele quem descobriu a América?

- Precisamente. Mas ele impôs-se uma missão que ia além do desejo de encontrar uma rota alternativa para as Índias (o que acabou levando acidentalemente à descoberta de um novo continente). Jamais imaginaremos por quantas dificuldades teve que passar para que pudesse atingir seus objetivos. Colombo precisou combater diversos mitos que permeavam a imaginação de seus contemporâneos. Estes mitos restringiam a ação dos homens e os deixavam estáticos diante do mundo que os cercava. Colombo precisou enfrentar não apenas os perigos reais que pairavam sobre o mundo das navegações, mas também teve que combater seus próprios medos e crenças.

- Certo, professor. E quais eram estes "medos e crenças" e qual era o outro objetivo de Colombo?

- Os navegadores do século XV (século de Colombo) acreditavam que o Atlântico, o oceano temido por todos por ser-lhes desconhecido, estava infestado de toda sorte de animais grotescos e terríveis, como dragões e outras bestas gigantes. Ademais, era crença corrente de que a Terra era plana, como um disco, e que ao se afastar muito da costa, poder-se-ia precipitar-se no abismo, no fim do mundo. Colombo, porém, após ter feito algumas observações, chegara a conclusão de que a Terra era esférica e estava disposto a prová-lo. Para tanto, precisaria combater diversas autoridades civis e eclesiásticas que insistiam em apoiar-se em antigos escritos para sustentar a tese de que a Terra era plana...

Vamos interromper nossa história por aqui antes que sentimentos nostálgicos comecem a brotar em nossos leitores. Estou quase certo que alguém aí já participou de uma ou mais aulas nos moldes acima, seja na escola, no cursinho ou até mesmo na faculdade.

Os homens da Idade Média acreditavam na Terra plana...Eis a tese que está em pauta.

Contudo, é interessante darmos uma olhada no que a historiografia mais recente tem a nos dizer a este respeito. Não que os livros antigos de história não sejam bons! Não é isso! Eles podem conter sim informações muito preciosas, mas em alguns aspectos talvez devessem passar por uma ligeira atualização...

Ná década de noventa foi publicado nos Estados Unidos um livro chamado Inventing the Flat Earth (Inventando a Terra Plana) de autoria de Jeffrey Burton Russell. Este livro trouxe uma nova luz a este capítulo da história e nos permite uma leitura bem mais coerente dos acontecimentos do século XV, o século das navegações.

E qual é a tese principal de Russell em seu livro (tese esta que ganhou adeptos de peso, como por exemplo o professor Thomas Woods, David Lindberg e Cecil Jane)?

A história que diz que antes de Colombo acreditava-se que a Terra era plana é um mito criado por historiadores do século XIX; eis a tese de Russell.

Vejamos no que se sustentam as afirmações de Russell.

Primeiramente o autor nos lembra que já na Antiguidade o homem sabia que a Terra era uma esfera. O grego Eratóstenes, que viveu cerca de duzentos anos antes de Cristo, havia medido, com cálculos trigonométricos, a circunferência da Terra. Para tal, ele partiu do pressuposto de que a Terra era uma esfera. Ademais, eram comuns na antiguidade o uso de um globo para a representação de nosso planeta, assim como o fizera em Roma Crates de Malos no segundo século antes da era cristã. Ptolomeu, que viveu no segundo século depois de Cristo, também concebeu uma Terra esférica em seu modelo de universo. Afora estes, a esfericidade era o ponto de vista mantido por autores como Aristóteles, Platão e Parmênides, os quais exerceram grande influência na história do pensamento.

Durante o período denominado de Alta Idade Média, muitos dos Pais da Igreja, escritores que possuíam (e possuem) uma grande influência no mundo cristão, simplesmente ignoraram quaisquer divagações geográficas. Não obstante, em contraponto com muitos cristãos de nossos dias, os Pais da Igreja sempre procuravam entender a Bíblia à luz dos conhecimentos desenvolvidos até então. Quando um ensinamento literal da Bíblia era colocado em xeque diante de uma evidência da razão, os Pais da Igreja tratavam de interpretar as Escrituras de forma alegórica, retendo as verdades morais ali contidas. Assim, é infundada a tese de que o apego fanático dos cristãos medievais a determinadas partes da Bíblia que parecem sugerir uma terra plana teria obstruído o avanço científico na geografia. Lembremos que séculos antes o homem já sabia da esfericidade da Terra... Contudo, muitos autores medievais amplamente lidos na cristandade, como Beda, Isidoro de Sevilha e Rabano Mauro, sustentaram a esfericidade da Terra.

Quando chegamos ao período chamado de Baixa Idade Média, ou seja, cada vez mais às vésperas das Grandes Navegações, vemos que diversas autoridades do período, eclesiásticas ou não, sustentavam veementemente a esfericidade da Terra, como, por exemplo, Tomás de Aquino, um dos autores mais lidos e recomendados de toda a Idada Média. Deste período, poderíamos citar ainda como defensores da Terra esférica Roger Bacon, Nicole Oresme e Jean Buridan. Um livro bastante popular deste período chamado Image du Monde também declara explicitamente a esfericidade da Terra. Isso para não mencionarmos Dante Alighieri que, em seu magnum opus Divina Comédia, também havia pensado em uma Terra esférica.

Abaixo, compartilho uma imagem retirada do livro de um dos maiores medievalistas brasileiros, Hilário Franco Júnior, chamado Idade Média: o nascimento do Ocidente. Aqui há uma representação de Cristo geômetra, o Criador do mundo. Podemos ver que Cristo cria uma Terra esférica. Percebam que a data desta ilustração corresponde exatamente ao período da Baixa Idade Média que estamos avaliando.



Esta imagem se encontra na página 165 do livro supracitado.

Vemos, pois, que antes de Colombo a esfericidade da Terra não era nenhuma novidade. Era esta, pois, a crença geral. Crença esta já difundida até mesmo entre os marinheiros portugueses que já singravam pelos mares "nunca d'antes navegados" antes de Colombo. À época de Colombo, nenhuma pessoa minimamente instruída na Europa concebia um modelo da Terra plana.

Para evitar ser chamado de "desonesto" vou dar exemplo de dois autores que viveram no período medieval e que sugeriram um modelo de Terra plana: Lactâncio e Cosme Indicopleustes. O primeiro viveu entre os séculos terceiro e quarto; o segundo, no século sexto. Antes que alguém apressadamente salte da cadeira e exclame: "Ahá! Está vendo, dois cristãos que acreditavam na Terra plana! Será que eles não exerciam nenhuma influência sobre a cristandade e no pensamento científico?" A resposta é um sonoro não. A leitura de Lactâncio era desaconselhada pela Igreja, o que o deixava à margem do mundo cristão, sem muita expressão. Ademais, Lactâncio escrevia de forma alegórica. Quanto a Cosme, ele apenas escreveu em grego (língua praticamente desconhecida entre os cristãos ocidentais) e somente foi traduzido para o latim no século XVIII. Destarte, vemos que os dois principais arautos da Terra plana não possuíam qualquer influência no Ocidente medieval.

Embora devamos reconhecer que Colombo fora um grande navegador e bastante audacioso, não podemos tributar-lhe o mérito de ter provado a esfericidade da Terra. E por que não? Porque, conforme vimos, todo mundo já sabia que a Terra era esférica...

Mas, então qual o motivo de as autoridades serem tão reticentes em patrocinar a empreitada marítima de Colombo?

Grosso modo podemos dizer que Colombo havia subestimado o tamanho da esfera que ele estava disposto a circum-navegar. Para ele, a Terra não era "tão grande" assim. Neste sentido, muitos o advertiam dizendo que a Terra era, de fato, muito maior do que ele supunha, e que ele poderia navegar indefinidamente sem encontrar qualquer lugar para reabastecer a sua tripulação com mantimentos. O risco de eles padecerem de sede e de fome parecia extremamente alto até mesmo para o investidor mais arrojado do período. Felizmente, Colombo encontrou patrocinadores para a sua empresa marítima e um pedaço de terra "brotou" no Atlântico no meio de seu caminho para as Índias.

Outrossim, ainda resta uma pergunta no ar: quem, afinal, estabeleceu este "erro" da Terra plana e com qual objetivo?

Primeiramente cabe lembrar que durante as disputas entre ciência (aliás, havia bem pouco de ciência, como veremos em um próximo trabalho) e religião da Renascença  a questão da Terra plana jamais fora levantada pelos opositores da Igreja. Imaginemos como isso teria sido uma "carta na manga" para os rivais da Igreja: "Ah vocês sempre ensinaram que a Terra era plana até Colombo provar o contrário!". No entanto,  a este respeito, o que temos é apenas silêncio. O mesmo com os iluministas do século XVIII. Embora os iluministas odiassem a Igreja Católica e tenham inventado uma série de coisas acerca do período em que a Igreja mais teve influência, a Idade Média, eles jamais levantaram a hipótese de que a Igreja defendera alguma dia a teoria de que a Terra fosse plana. E vejam que eles teriam tido o maior prazer em fazê-lo, já que eram os guardiães da razão...

A idéia da Terra plana medieval aparece pela primeira vez em escritos de história do século XIX (quase quatrocentos anos após Colombo!). Foram os escritores Irving e Latronne os responsáveis pela disseminação do mito nos meios acadêmicos. O que acontece é que o século XIX, principalmente nos Estados Unidos, fora bastante conturbado no que se refere às disputas entre o dueto ciência/filosofia e o cristianismo. É este o século da teoria darwinista da evolução e das idéias libertárias de Marx. Os secularistas, ao serem criticados em alguns pontos de suas teorias por autoridades cristãs, trataram de "investigar" o período onde o cristianismo mais havia tido influência no cotidiano das pessoas. Ora, este período é justamente a Idade Média. Assim, os secularistas tinham que criar a idéia de uma Idade Média atrasada, fanática e irracional como antítese do período em que viviam; este sim, avançado e racional, livre das amarras da religião. Então, pura e simplesmente criaram uma Igreja medieval que deveria ter sido tão irracional a ponto de sugerir (e até defender como verdade de fé, e fé ortodoxa!) que a Terra fosse plana. Estes secularistas não tinham qualquer evidência para tal. O grande objetivo era encontrar um pressuposto histórico que desmoralizasse a Igreja caso esta se pronunciasse em assuntos relativos à ciência; como não encontraram, tiveram que criá-lo.

E assim, paulatinamente, este mito de que na Idade Média acreditava-se em uma Terra plana foi sendo incorporado em nossas escolas e livros didáticos, fomentando cada vez mais uma pretensa guerra entre ciência e religião, sempre tendo a ciência como a mocinha e a religião (principalmente a Igreja Católica) como a vilã.

Infelizmente a mentira agarra-se a nossa mente e não a solta, a menos que estejamos dispostos a nos desvencilhar dela. Por isso, muitos hoje ainda insistem em ensinar que na Idade Média acreditava-se que a Terra era plana, mesmo sem haver qualquer prova para isso.

É preciso coragem para admitir a verdade.

Espero que este modestíssimo trabalho tenha despertado em vocês a curiosidade de se aprofundarem mais neste assunto e que vocês possam contribuir para que a aula de história que abre nosso texto tenha um tom diferente. Aí sim vamos estar contribuindo, e muito, para a ciência e para a história.

William Bottazzini Rezende