EXTRA ECCLESIAM NULLA SALUS

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Estamos prontos?

Beato Miguel Pro: Rogai por nós!


Mais um ano se vai...

É comum nesta época refletirmos acerca do que ficou para trás e planejarmos nosso ano vindouro.

As preocupações temporais são muitas.

Não que elas não sejam importantes. Não é isso. Apenas acontece que, embora devamos ser prudentes quanto às coisas do mundo, devemos ser ainda mais prudentes quanto às coisas divinas, às coisas eternas.

Neste momento, avaliamos nossa vida profissional e o quanto acumulamos (ou perdemos) em bens. Fazemos um balanço e planejamos o novo ano.

Mas, como foi a nossa vida de oração? Nos últimos trezentos e sessenta e cinco dias, quantas pedras preciosas coloquei no manto de Nossa Senhora através da oração do Rosário? Talvez a resposta possa nos chocar...

Entretanto, eis que Cristo tudo faz novo! Eis um grande momento para planejarmos o nosso acúmulo de tesouros no céu! Aproveitemo-lo! Planejemos nossa vida de oração.

Também avaliamos e planejamos nossa vida acadêmica. Quais cursos em quais universidades farei? O que estudei que "incrementou" meu curriculum? O que há ainda por estudar?

No entanto, ficamos sem respostas para perguntas como: que coisas estudei e planejo estudar que fundamentam a minha fé?

Com nossa boca declaramos o nosso amor a Cristo e à Santa Igreja. Mas, como amar o que não conhecemos?

Eis diante de nossos olhos uma grande oportunidade para planejarmos nossos estudos bíblicos, catequéticos, dos documentos da Igreja e das vidas dos santos. Estejamos sempre atentos, pois, como alerta São Pedro:
(...) o diabo, vosso adversário, anda em derredor, rugindo como leão, buscando a quem possa tragar. (I Pd 5, 8)
Ó Deus, ensinai-nos a ser sempre vigilantes e não permitais que caiamos nas mentiras das falsas religiões e das seitas! Fortalecei o nosso entendimento acerca da Vossa verdade!

Neste adormercer perpétuo do ano que passa, repensamos as viagens que fizemos e quais ainda queremos fazer. Dispomo-nos a gastar muito de nosso tempo e dinheiro para conhecermos diversos lugares.

Contudo, como foi e como será minha vida na Igreja? Quantas vezes murmurei enquanto me dirigia à Missa e fui apenas para "cumprir o preceito"? Será que nos esqueçemos, muitas vezes, que quando participamos do Santo Sacrifício, temos a sacratíssima oportunidade de sentirmos e vermos Nosso Salvador presente em corpo, sangue, alma e divindade na Hóstia?

Contudo, glória a Deus, pois Ele nos concedeu um ano a mais em nossa existência para nos redimirmos de nossos pecados e omissões! Planejemos uma vida eclesial mais ativa para este novo ano e cantemos com Davi, no salmo 121:
Que alegria quando ouvi que me disseram: “Vamos à casa do Senhor”
A imagem que abre este post é do beato Miguel Pro, martirizado pelo governo anticatólico do México no início do século XX. Em suas mãos, estendidas em forma de cruz, segurava um terço e um crucifixo: dois elementos essenciais para a nossa Fé.

Instantes depois desta foto, Pro foi alvejado pelas balas de seus algozes.

A coragem do mártir!

Que o Senhor sempre nos conceda esta coragem para darmos a vida pela Fé! Mas isso apenas é possível se tivermos plena convicção dela e se ela estiver firmemente alicerçada na Cruz e no Rosário, caso contrário, claudicaremos.

E para que nossa Fé seja inabalável, precisamos cultivá-la, não apenas no ano que está entrando, mas pelo resto de nossas vidas.

Será que, em nossos dias, ainda há perseguições e martírios? Sem dúvida! Mas, além do martírio físico, ainda há o martírio moral. Este martírio procura desacreditar o indivíduo que se recusa a abrir mão da Fé, que é eterna, para abraçar "modinhas", que são tão evanescentes quanto as nuvens. 

Sobre isso, disse o Papa Bento XVI, quando visitava a Inglaterra em setembro deste ano:
Na nossa época, o preço que deve ser pago pela fidelidade ao Evangelho já não é ser enforcado, afogado e esquartejado, mas muitas vezes significa ser indicado como irrelevante, ridicularizado ou ser motivo de paródia. E contudo a Igreja não se pode eximir do dever de proclamar Cristo e o seu Evangelho como verdade salvífica, fonte da nossa felicidade última como indivíduos, e como fundamento de uma sociedade justa e humana.
Será que estamos prontos a abrir mão de tudo o que for necessário para jamais negarmos o Evangelho?

Que cada um analise a própria consciência.

Peçamos a Deus que nos conceda a graça e a honra de tudo padecer pelo nome d'Ele e pela Igreja, sem jamais fraquejarmos!

Que os santos mártires intercedam por nós para que nossa coragem não seja abalada!

Sejamos soldados, cruzados, dispostos a tudo por Cristo e pela Igreja.

Planejemos, neste ano que está chegando, o fortalecimento de nossa Fé.

Feliz Ano Novo a todos vocês e estejam sempre prontos para combater por Cristo, pela Igreja e pelo Papa!

Pax Domini Sit Semper Vobiscum!

William

sábado, 25 de dezembro de 2010

FELIZ NATAL!

25 DE DEZEMBRO
8 DAS CALENDAS DE JANEIRO
DIA 19 DA LUA

No ano cinco mil e cento e noventa e nove,
desde a criação do mundo,
quando Deus no princípio criou o céu e a terra;
no ano dois mil e novecentos e cinqüenta e sete, desde o Dilúvio;
no ano dois mil e quinze, desde o nascimento de Abraão;
no ano mil e quinhentos e dez, desde Moisés
e a saída do povo de Israel do Egito;
no ano mil e trinta e dois, desde a unção de Davi como rei;
na semana sexagésima-quinta, segundo a profecia de Daniel;
na centésima-nonagésima quarta Olimpíada;
no ano setecentos e cinqüenta e dois, desde a fundação de Roma;
no quadragésimo-segundo ano do império de César Otaviano Augusto;
quando estava em paz o orbe universo;
na sexta idade do mundo:
Jesus Cristo, Eterno Deus e Filho do Eterno Pai,
querendo santificar o mundo, com a sua vinda piedosíssima,
foi concebido do Espírito Santo;
e, decorridos nove meses após a conceição,
nasce em Belém de Judá, de Maria Virgem, feito homem:
O NATAL DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, SEGUNDO A CARNE.

MISSA DA NOITE

Primeira leitura (Is 9,1-6)

Livro do profeta Isaías:
1O povo, que andava na escuridão, viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu.
2Fizeste crescer a alegria e aumentaste a felicidade; todos se regozijam em tua presença, como alegres ceifeiros na colheita, ou como exaltados guerreiros ao dividirem os despojos.
3Pois o jugo que oprimia o povo, — a carga sobre os ombros, o orgulho dos fiscais — tu os abateste como na jornada de Madiã.
4Botas de tropa de assalto, trajes manchados de sangue, tudo será queimado e devorado pelas chamas.
5Porque nasceu para nós um menino, foi-nos dado um filho; ele traz aos ombros a marca da realeza; o nome que lhe foi dado é: Conselheiro admirável, Deus forte, Pai dos tempos futuros, Príncipe da paz.
6Grande será o seu reino e a paz não há de ter fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reinado, que ele irá consolidar e confirmar em justiça e santidade, a partir de agora e para todo o sempre. O amor zeloso do Senhor dos exércitos há de realizar essas coisas.

— Palavra do Senhor.
— Graças a Deus!


Responsório (Sl 95)

— Hoje nasceu para nós o Salvador, que é Cristo, o Senhor.
— Hoje nasceu para nós o Salvador, que é Cristo, o Senhor.
— Cantai ao Senhor Deus um canto novo,/ cantai ao Senhor Deus, ó terra inteira!/ Cantai e bendizei seu santo nome!
— Dia após dia anunciai sua salvação,/ manifestai a sua glória entre as nações,/ e entre os povos do universo seus prodígios!
— O céu se rejubile e exulte a terra,/ aplauda o mar com o que vive em suas águas;/ os campos com seus frutos rejubilem/ e exultem as florestas e as matas
— na presença do Senhor, pois ele vem,/ porque vem para julgar a terra inteira./ Governará o mundo com justiça,/ e os povos julgará com lealdade.


Segunda Leitura (Tt 2,11-14)

Carta de São Paulo apóstolo a Tito.
Caríssimo: 11A graça de Deus se manifestou trazendo salvação para todos os homens. 12Ela nos ensina a abandonar a impiedade e as paixões mundanas e a viver neste mundo com equilíbrio, justiça e piedade, 13aguardando a feliz esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo.
14Ele se entregou por nós, para nos resgatar de toda maldade e purificar para si um povo que lhe pertença e que se dedique a praticar o bem.

— Palavra do Senhor.
— Graças a Deus!

Aclamação

— Aleluia, aleluia,/ Aleluia, aleluia!
— Eu vos trago a Boa nova/ De uma grande alegria:/ É que hoje vos nasceu/ O Salvador, Cristo o Senhor.


Evangelho (Lc 2,1-14)

— O Senhor esteja convosco!
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo, † segundo Lucas.
— Glória a vós, Senhor!
1Aconteceu que, naqueles dias, César Augusto publicou um decreto, ordenando o recenseamento de toda a terra.
2Este primeiro recenseamento foi feito quando Quirino era governador da Síria. 3Todos iam registrar-se cada um na sua cidade natal.
4Por ser da família e descendência de Davi, José subiu da cidade de Nazaré, na Galiléia, até a cidade de Davi, chamada Belém, na Judéia, 5para registrar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida.
6Enquanto estavam em Belém, completaram-se os dias para o parto, 7e Maria deu à luz o seu filho primogênito. Ela o enfaixou e o colocou na manjedoura, pois não havia lugar para eles na hospedaria.
8Naquela região havia pastores que passavam a noite nos campos, tomando conta do seu rebanho.
9Um anjo do Senhor apareceu aos pastores, a glória do Senhor os envolveu em luz, e eles ficaram com muito medo. 10O anjo, porém, disse aos pastores: "Não tenhais medo! Eu vos anuncio uma grande alegria, que o será para todo o povo: 11Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor. 12Isto vos servirá de sinal: Encontrareis um recém-nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura".
13E, de repente, juntou-se ao anjo uma multidão da coorte celeste. Cantavam louvores a Deus, dizendo: 14"Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens por ele amados".


— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor!

MISSA DO DIA

Primeira leitura (Is 52,7-10)

Livro do profeta Isaías.
7Como são belos, andando sobre os montes, os pés de quem anuncia e prega a paz, de quem anu¬ncia o bem e prega a salvação, e diz a Sião: "Reina teu Deus!"
8Ouve-se a voz de teus vigias, eles levantam a voz, estão exultantes de alegria, sabem que verão com os próprios olhos o Senhor voltar a Sião.
9Alegrai-vos e exultai ao mesmo tempo, ó ruínas de Jerusalém, o Senhor consolou seu povo e resgatou Jerusalém.
10O Senhor desnudou seu santo braço aos olhos de todas as nações; todos os confins da terra hão de ver a salvação que vem do nosso Deus.

— Palavra do Senhor.
— Graças a Deus!


Responsório (Sl 97)

— Os confins do universo contemplaram a salvação do nosso Deus.
— Os confins do universo contemplaram a salvação do nosso Deus.
— Cantai ao Senhor Deus um canto novo,/ porque ele fez prodígios!/ Sua mão e o seu braço forte e santo/ alcançaram-lhe a vitória.
— Os confins do universo contemplaram a salvação do nosso Deus.
— O Senhor fez conhecer a salvação,/ e às nações, sua justiça;/ recordou o seu amor sempre fiel/ pela casa de Israel.
— Os confins do universo contemplaram/ a salvação do nosso Deus./ Aclamai o Senhor Deus, ó terra inteira,/ alegrai-vos e exultai!
— Cantai salmos ao Senhor ao som da harpa/ e da cítara suave!/ Aclamai, com os clarins e as trombetas,/ ao Senhor, o nosso Rei!


Segunda Leitura
(Hb 1,1-6)

Carta aos Hebreus:
1Muitas vezes e de muitos modos falou Deus outrora aos nossos pais, pelos profetas; 2nestes dias, que são os últimos, ele nos falou por meio do Filho, a quem ele constituiu herdeiro de todas as coisas e pelo qual também ele criou o universo.
3Este é o esplendor da glória do Pai, a expressão do seu ser. Ele sustenta o universo com o poder de sua palavra. Tendo feito a purificação dos pecados, ele sentou-se à direita da majestade divina, nas alturas. 4Ele foi colocado tanto acima dos anjos quanto o nome que ele herdou supera o nome deles.
5De fato, a qual dos anjos Deus disse alguma vez: "Tu és o meu Filho, eu hoje te gerei?" Ou ainda: "Eu serei para ele um Pai e ele será para mim um Filho?"
6Mas, quando faz entrar o Primogênito no mundo, Deus diz: "Todos os anjos devem adorá-lo!"

— Palavra do Senhor.
— Graças a Deus!

Aclamação

— Aleluia, aleluia, Aleluia, aleluia!
— Eis que um santo dia resplandece,/ Nações, vinde adorar!


Evangelho (Jo 1,1-18)

— O Senhor esteja convosco!
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo, † segundo Lucas.
— Glória a vós, Senhor!

1No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus; e a Palavra era Deus. 2No princípio estava ela com Deus. 3Tudo foi feito por ela, e sem ela nada se fez de tudo que foi feito. 4Nela estava a vida, e a vida era a luz dos homens. 5E a luz brilha nas trevas, e as trevas não conseguiram dominá-la.
 6Surgiu um homem enviado por Deus; seu nome era João. 7Ele veio como testemunha, para dar testemunho da luz, para que todos chegassem à fé por meio dele. 8Ele não era a luz, mais veio para dar testemunho da luz: 9daquele que era a luz de verdade, que, vindo ao mundo, ilumina todo ser humano.
10A Palavra estava no mundo — e o mundo foi feito por meio dela — mas o mundo não quis conhecê-la. 11Veio para o que era seu, e os seus não a acolheram.
12Mas, a todos que a receberam, deu-lhes capacidade de se tornarem filhos de Deus, isto é, aos que acreditam em seu nome, 13pois estes não nasceram do sangue nem da vontade da carne nem da vontade do varão, mas de Deus mesmo.
14E a Palavra se fez carne e habitou entre nós. E nós contemplamos a sua glória, glória que recebe do Pai como Filho unigênito, cheio de graça e de verdade.
15Dele, João dá testemunho, clamando: "Este é aquele de quem eu disse: O que vem depois de mim passou à minha frente, porque ele existia antes de mim".
16De sua plenitude todos nós recebemos graça por graça. 17Pois por meio de Moisés foi dada a Lei, mas a graça e a verdade nos chegaram através de Jesus Cristo.
18A Deus ninguém jamais viu. Mas o Unigênito de Deus, que está na intimidade do Pai, ele no-lo deu a conhecer.


— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor!
HOMILIA

Dos Sermões De Santo Elredo de Rievaulx, abade.
Sermo 2, in Natali Domini (Patrologia Latina 195, 226-227)


Hoje, nasceu para nós o Salvador!
Hoje, na cidade de Davi, nasceu para nós o Salvador do mundo, que é o Cristo Senhor! (cf. Lc 2, 11). Esta cidade é Belém, para a qual devemos acorrer, como os pastores fizeram ao ouvir esta notícia. Por isso, costumais cantar (no hino da Virgem Maria): “Cantaram glória a Deus, acorreram a Belém”. E isto vos servirá de sinal: encontrareis um recém-nascido, envolto em faixas e deitado numa manjedoura (Lc 2, 12).
Eis porque vos disse que deveis amá-lo. Temei o Senhor dos anjos, mas amai o pequenino; temei o Senhor de majestade, mas amai o que está envolto em faixas; temei o que reina no céu, mas amai o que está deitado na manjedoura. Mas que sinal receberam os pastores? Encontrareis um recém-nascido, envolto em faixas e deitado numa manjedoura. Ele que é o Salvador, ele que é o Senhor. Mas que há de especial no fato de estar envolto em faixas e deitado numa manjedoura? Não são também as outras crianças envolvidas em faixas? Então, que tipo de sinal é este? Na verdade é um grande sinal, se o soubermos compreender. E havemos de compreender, se não nos limitarmos a ouvir esta mensagem de amor, mas também tivermos no coração a luz que brilhou com os anjos. Foi assim que um deles apareceu com luz, quando anunciou pela primeira vez esta notícia, para sabermos que só os que têm a luz espiritual no coração é que ouvem a verdade.
Muito se pode dizer deste sinal; mas, porque a hora vai adiantada, falarei pouco e brevemente. Belém, a “casa do pão”, é a santa Igreja, na qual se serve o corpo de Cristo, o pão verdadeiro. A manjedoura de Belém é o altar da Igreja, onde as ovelhas de Cristo se alimentam. Desta mesa está escrito: Diante de mim preparas uma mesa (Sl 22 [23], 5). Nesta manjedoura, Jesus está envolto em panos, e o invólucro de panos pode ser comparado aos véus do sacramento. Nesta manjedoura, sob as espécies do pão e do vinho, está o verdadeiro corpo e sangue de Cristo. Cremos que ali está o próprio Cristo, mas envolto em panos, isto é, oculto no sacramento. Não temos sinal maior e mais evidente do nascimento de Cristo do que o seu corpo e sangue que recebemos todos os dias no santo altar; daquele que, nascido da Virgem por nós uma vez, vemos por nós se imolar diariamente.
Portanto, irmãos, corramos à manjedoura do Senhor. Mas antes, preparemo-nos o melhor possível por sua graça para esse encontro, e associados aos anjos, de coração puro, consciência reta e fé sincera (cf. 2Cor 6, 6), cantemos ao Senhor em toda a nossa vida e conduta: Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens  por ele amados! (Lc 2, 14). Por nosso Senhor Jesus Cristo, a quem sejam dadas honra e glória, pelos séculos dos séculos. Amém.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Sobre a banalização da sexualidade


Trechos da entrevista do Papa Bento XVI concedida ao jornalista germânico Peter Seewald para o livro "Luz do Mundo" foram sistematicamente reproduzidos pela mídia dos mais diversos países. Tais trechos, retirados de seu contexto, davam a impressão de que a Igreja poderia estar enfrentando uma fase de aggiornamento, de atualização em relação à problemática da sexualidade. Muitos chegaram mesmo a bradar: "o Papa agora libera a camisinha!".

Este acontecimento evidencia mais uma das inesgotáveis contradições do século. O tempo todo tentam nos impor a ideia de um relativismo total, vivemos mesmo sobre a "ditadura do relativismo". Nada é verdadeiro, nada é falso. A religião é vista como um "mal menor". O que vale é ser "politicamente correto". O que se exige é neutralidade. Contudo, quando a mais alta autoridade da cristandade parece (sim, apenas "parece") pronunciar-se de modo favorável ao que ensina o mundo, este perde toda a imparcialidade e, com saltos e cambalhotas, exclama: o Papa concorda conosco! Vejam o que o Papa está ensinando!

Por um terrível paradoxo, chegam até mesmo a dizer: Atenção, todos! Obedeçam ao Papa! Ele é a voz que devemos seguir!

Este é o nosso estranho mundo estranho. Para ele, a obediência não se deve a um ato de amor, conforme ensina Nosso Senhor:
Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é que me ama (Jo 14, 21).
Para o mundo, a obediência está intrinsicamente relacionada à conveniência. E a fim de que tal conveniência seja atendida, vale obedecer até mesmo aos velhos adversários, como a Igreja.

Contudo, o mundo, sempre tão precipitado, mais uma vez "deu com os burros na água", como diria vovó.

É evidente que o Papa não alterou a posição da Igreja em relação aos métodos contraceptivos. E por qual motivo não o fez? Pelo simples fato de que ele não pode fazê-lo. As leis acerca da sexualdiade foram estabelecidas pelo próprio Deus. Portanto, cabe à Igreja zelar por elas, e não alterá-las. Enquanto o homem de nossos dias julga-se Deus, julga-se capaz de tudo poder (e o ateísmo é apenas um pretexto para se colocar no lugar de Deus), o cristão sabe que há um Deus, e que o amor a este Deus consiste exatamente em respeitar os Seus preciosíssimos mandamentos, estejam eles inscritos na natureza, estejam eles inscritos na Bíblia. E justamente por respeitar os mandamentos de Nosso Senhor e por amá-Lo é que a Igreja tem passado pelas mais diversas perseguições neste últimos dois mil anos de existência de nosso planeta.

Infelizmente o que se publicou daquilo que "pensaram que o Papa disse" causou confusão e estranheza entre muitos católicos. Para que se solucionasse definitivamente esta questão, a Igreja veio a público nos mostrar o que exatamente disse Sua Santidade, o Papa Bento XVI.

Todos os negritos são meus.

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Nota da Congregação para a Doutrina da Fé
Sobre a banalização da sexualidade
A propósito de algumas leituras de "Luz do mundo"

Por ocasião da publicação do livro-entrevista de Bento XVI, "Luz do Mundo", foram difundidas diversas interpretações não corretas, que geraram confusão sobre a posição da Igreja Católica quanto a algumas questões de moral sexual. Não raro, o pensamento do Papa foi instrumentalizado para fins e interesses alheios ao sentido das suas palavras, que aparece evidente se se lerem inteiramente os capítulos onde se alude à sexualidade humana. O interesse do Santo Padre é claro: reencontrar a grandeza do projecto de Deus sobre a sexualidade, evitando a banalização hoje generalizada da mesma.

Algumas interpretações apresentaram as palavras do Papa como afirmações em contraste com a tradição moral da Igreja; hipótese esta, que alguns saudaram como uma viragem positiva, e outros receberam com preocupação, como se se tratasse de uma ruptura com a doutrina sobre a contracepção e com a atitude eclesial na luta contra o HIV-SIDA. Na realidade, as palavras do Papa, que aludem de modo particular a um comportamento gravemente desordenado como é a prostituição (cf. «Luce del mondo», 1.ª reimpressão, Novembro de 2010, p. 170-171), não constituem uma alteração da doutrina moral nem da praxis pastoral da Igreja.

Como resulta da leitura da página em questão, o Santo Padre não fala da moral conjugal, nem sequer da norma moral sobre a contracepção. Esta norma, tradicional na Igreja, foi retomada em termos bem precisos por Paulo VI no n.º 14 da Encíclica Humanae vitae, quando escreveu que "se exclui qualquer ação que, quer em previsão do acto conjugal, quer durante a sua realização, quer no desenrolar das suas consequências naturais, se proponha, como fim ou como meio, tornar impossível a procriação". A ideia de que se possa deduzir das palavras de Bento XVI que seja lícito, em alguns casos, recorrer ao uso do preservativo para evitar uma gravidez não desejada é totalmente arbitrária e não corresponde às suas palavras nem ao seu pensamento. Pelo contrário, a este respeito, o Papa propõe caminhos que se podem, humana e eticamente, percorrer e em favor dos quais os pastores são chamados a fazer "mais e melhor" ("Luce del mondo", p. 206), ou seja, aqueles que respeitam integralmente o nexo indivisível dos dois significados – união e procriação – inerentes a cada ato conjugal, por meio do eventual recurso aos métodos de regulação natural da fecundidade tendo em vista uma procriação responsável.

Passando à página em questão, nela o Santo Padre refere-se ao caso completamente diverso da prostituição, comportamento que a moral cristã desde sempre considerou gravemente imoral (cf. Concílio Vaticano II, Constituição pastoral Gaudium et spes, n.º 27; Catecismo da Igreja Católica, n.º 2355). A recomendação de toda a tradição cristã – e não só dela – relativamente à prostituição pode resumir-se nas palavras de São Paulo: "Fugi da imoralidade" (1 Cor 6, 18). Por isso a prostituição há-de ser combatida, e os entes assistenciais da Igreja, da sociedade civil e do Estado devem trabalhar por libertar as pessoas envolvidas.

A este respeito, é preciso assinalar que a situação que se criou por causa da atual difusão do HIV-SIDA em muitas áreas do mundo tornou o problema da prostituição ainda mais dramático. Quem sabe que está infectado pelo HIV e, por conseguinte, pode transmitir a infecção, para além do pecado grave contra o sexto mandamento comete um também contra o quinto, porque conscientemente põe em sério risco a vida de outra pessoa, com repercussões ainda na saúde pública. A propósito, o Santo Padre afirma claramente que os preservativos não constituem "a solução autêntica e moral" do problema do HIV-SIDA e afirma também que "concentrar-se só no preservativo significa banalizar a sexualidade", porque não se quer enfrentar o desregramento humano que está na base da transmissão da pandemia. Além disso é inegável que quem recorre ao preservativo para diminuir o risco na vida de outra pessoa pretende reduzir o mal inerente ao seu agir errado. Neste sentido, o Santo Padre assinala que o recurso ao preservativo, "com a intenção de diminuir o perigo de contágio, pode entretanto representar um primeiro passo na estrada que leva a uma sexualidade vivida diversamente, uma sexualidade mais humana". Trata-se de uma observação totalmente compatível com a outra afirmação do Papa: "Este não é o modo verdadeiro e próprio de enfrentar o mal do HIV".

Alguns interpretaram as palavras de Bento XVI, recorrendo à teoria do chamado "mal menor". Todavia esta teoria é susceptível de interpretações desorientadoras de matriz proporcionalista (cf. João Paulo II, Encíclica Veritatis splendor, nn.os 75-77). Toda a ação que pelo seu objecto seja um mal, ainda que um mal menor, não pode ser licitamente querida. O Santo Padre não disse que a prostituição valendo-se do preservativo pode ser licitamente escolhida como mal menor, como alguém sustentou. A Igreja ensina que a prostituição é imoral e deve ser combatida. Se alguém, apesar disso, pratica a prostituição mas, porque se encontra também infectado pelo HIV, esforça-se por diminuir o perigo de contágio inclusive mediante o recurso ao preservativo, isto pode constituir um primeiro passo no respeito pela vida dos outros, embora a malícia da prostituição permaneça em toda a sua gravidade. Estas ponderações estão na linha de quanto a tradição teológico-moral da Igreja defendeu mesmo no passado.

Em conclusão, na luta contra o HIV-SIDA, os membros e as instituições da Igreja Católica saibam que é preciso acompanhar as pessoas, curando os doentes e formando a todos para que possam viver a abstinência antes do matrimônio e a fidelidade dentro do pacto conjugal. A este respeito, é preciso também denunciar os comportamentos que banalizam a sexualidade, porque – como diz o Papa – são eles precisamente que representam a perigosa razão pela qual muitas pessoas deixaram de ver na sexualidade a expressão do seu amor. "Por isso, também a luta contra a banalização da sexualidade é parte do grande esforço a fazer para que a sexualidade seja avaliada positivamente e possa exercer o seu efeito positivo sobre o ser humano na sua totalidad" ("Luce del mondo", p. 170).
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Foi isso, então, o que disse o Santo Padre.

Não deveremos nos espantar, pois, se o mundo retirar (apressadamente, claro!)  todos os seus apressados aplausos.

Pax Domini Sit Semper Vobiscum

William

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A Escada de Jacó

Compartilho com todos este trecho dos escritos de Rupert de Deutz acerca da genealogia de Nosso Senhor.

Todos os sublinhados são meus.

Pax Domini Sit Semper Vobiscum.

William
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Dos escritos de Rupert de Deutz (c. 1075-1130), monge beneditino.
De Divinis Officiis, 3, 18 (trad. de Lubac, Catholicisme, p. 333)

"Na tua posteridade serão abençoadas todas as nações da Terra" (Gn 28,14)

Em São Mateus lemos a genealogia de Cristo. Este costume tradicional da Santa Igreja tem bons e misteriosos motivos. Verdadeiramente este texto apresenta-nos a escada que Jacob viu de noite, durante o seu sono (Gn 28,11s). Apoiado no alto dessa escada, que tocava os céus, o Senhor apareceu a Jacob e prometeu-lhe a herança da terra. [...] Ora, sabemos que «a sua vinda é-nos apresentada de forma simbólica» (1Co 10,11). Então o que prefigura essa escada, senão a linhagem da qual Jesus deveria nascer, linhagem que o santo evangelista, com um sopro divino, faz subir, de maneira que chegasse a Jesus passando por José? E a este José o Senhor confiou o Menino. Pela «Porta do Céu» (Gn 28,17)[...], quer dizer, pela bem-aventurada Virgem, sai Nosso senhor a chorar, feito criança por nós. [...] No seu sono, Jacob ouviu que o Senhor lhe dizia: «Na tua posteridade serão abençoadas todas as nações da terra» e este fato realizou-se com o nascimento de Cristo.

Era o que o evangelista tinha em vista quando, na genealogia de Jesus, inseriu Rahab, a prostituta, e Rute, a moabita; porque efetivamente viu que Cristo não encarnou apenas para os judeus, mas também para os pagãos, Ele que Se dignou receber os anciãos consagrados entre os pagãos. Por conseguinte,  vindos dos dois povos, judeus e pagãos, como os dois lados da escada, os anciãos colocados em diferentes degraus recebem Cristo Senhor que desce do alto dos céus. E todos os santos anjos descem e sobem por esta escada, por onde os eleitos são descidos, para receberem humildemente a fé na encarnação do Senhor, sendo depois elevados a fim de contemplarem a glória da Sua divindade.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A questão das imagens


Introdução

Parece-me praticamente impossível encontrar um católico que jamais tenha sido chamado, direta ou indiretamente, de idólatra. O católico caminha pelas ruas e alamedas de sua cidade e, de forma repentina, surge alguém diante dele com uma Bíblia na mão citando Êxodo, Salmos ou Isaías em suas respectivas passagens onde há uma condenação explícita do culto de imagens. Aliás, diga-se en passant, este católico que é interpelado ao caminhar pelas vias de seu município pode se considerar um verdadeiro afortunado, pois os menos felizes são molestados em suas próprias casas em dias nos quais tudo o que desejam é ter um momento de paz com a família.

Um pouco mais adiante retornaremos aos textos bíblicos mencionados e aí teremos a oportunidade de explicá-los um pouco melhor.

Pois bem, ao ser interpelado, o católico pouco acostumado às Sagradas Letras e desconhecedor da Tradição e dos ensinamentos da Igreja é facilmente induzido a crer que durante toda sua vida fora enganado e, o que é bem pior, a Igreja tem conduzido ao erro não apenas ele, mas todas as gerações de cristãos que existiram nestes últimos vinte séculos. Percebe-se que aqui o "deus" em que os protestantes dizem acreditar se torna o "deus sonolento", semelhante ao falso deus dos profetas de Baal quando do confronto com o profeta Elias (cf. 1 Reis 18, 20ss), uma vez que este deus permitiu que a raça humana ficasse séculos e séculos imersa no erro até que surgisse “o” profeta, “o” ungido, “o” pastor.

Porém, nós católicos estamos cientes que servimos a um Deus vivo e que não dorme e nem tira cochilinhos multisseculares. Sabemos que Nosso Senhor está com a Sua Igreja desde sempre e estará ao seu lado até o fim dos tempos (cf. Mt 28, 20). Ele jamais a abandonou e sempre está presente, conduzindo-a para a pátria gloriosa que Ele tem preparado para ela. Assim, Ele não permitiria que a Sua puríssima noiva, a Igreja, caísse no mais abominável pecado que é a idolatria. Logo, é evidente que o culto das imagens nada tem que ver com idolatria (palavra, aliás, que muitos protestantes nem sabem o que significa), pois isso seria trair o próprio Deus, que por nós fora imolado no madeiro.

Devo acrescentar que acusar os católicos de idolatria é uma calúnia infame e covarde. Com isso, os protestantes alegam que nós adoramos outros “deuses” e que apenas eles, os protestantes, conhecem o Deus verdadeiro. Ora, meus caros amigos protestantes, saibam vocês que muito antes de qualquer seita protestante existir, a Igreja Católica, em seu trabalho missionário de séculos, já anunciava que há apenas um único Deus, que fez o céu e a terra, e que além d’Ele não há outro. Aliás, é isso que declaramos quando rezamos no Credo:

Credo in unum Deum, Patrem omnipoténtem, Factórem cæli et terræ, Visibílium ómnium et invisibílium.

Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis.

Assim, caro amigo católico, jamais aceite ser chamado de idólatra, pois com isso, os adversários da verdadeira fé querem insinuar que adoramos e servimos a demônios. É este o grande “respeito” que os inimigos da Igreja têm para com ela e para com seus filhos.

Feitas tais considerações, passemos a questão principal.

A importância e a utilidade das imagens

Mas então, qual seria o papel das imagens na vida cristã?

Lúcio Navarro, nos parágrafos 380 e 381 de sua obra "Legítima Interpretação da Bíblia", nos lembra, antes de qualquer coisa, que
(...) o culto das imagens NÃO É OBRIGATÓRIO neste sentido de que alguém, para salvar-se, tenha que possuir imagens ou prestar-lhes culto, nem também no sentido de que sem elas nós não nos pudéssemos nos dirigir aos seus protótipos. A Igreja poderia, até, proibir o uso das imagens em alguma região onde êste [sic] culto estivesse sendo mal interpretado e não houvesse possibilidade de ser bem compreendido (destaques do autor).
Ou seja, nada obriga que um católico tenha alguma imagem em sua casa. Ademais, a salvação não depende do culto das imagens, como muitos dos nossos irmãos separados pensam. É bem lembrado ainda, que a Igreja pode vetar a utilização de imagens caso esteja havendo algum tipo de abuso por parte dos membros de determinada comunidade. No entanto, prossegue Navarro:
O que é obrigatório, sim, é reconhecerem os católicos a legitimidade do culto das sagradas imagens e que elas são dignas de todo o nosso respeito e veneração.
Devemos, pois, ter a obrigação de reconhecermos que as imagens são legítimas, já que elas falam, por si só, verdades que necessitariam de muitas e muitas linhas para serem expressas. Para o homem iletrado (o qual, segundo muitos protestantes, já está condenado porque não pode ler a Bíblia), as imagens contam aquilo que ele não é capaz de ler. Ao entrar em uma Igreja Católica, a pessoa poderá visualizar rapidamente toda a história da salvação. Contemplará Nosso Senhor crucificado por nossos pecados; fitará cenas importantes da vida de Cristo e de seus apóstolos, como a gloriosa Ressurreição e Pentecostes; verá as imagens que representam tantos cristãos que viveram uma vida virtuosa e de verdadeiro amor a Nosso Senhor, amor este muitas vezes expresso através do sangue derramado; entre outras cenas. Tudo isso servirá de inspiração para uma vida mais santa para aquele que contempla as imagens sacras. Contempla-se a imagem, mas enxerga-se o modelo que ela representa. Por isso são as imagens dignas de respeito e veneração. Elas não são dignas de tal respeito por elas mesmas, devido a alguma propriedade mágica que elas possuam. Elas são dignas deste respeito devido às pessoas e aos acontecimentos que elas representam. Assim, complementa Lúcio Navarro:
É o que acontece com as imagens de Nosso Senhor Jesus Cristo, de Maria SS.ª e dos santos nas nossas igrejas. Sem que ninguém precise fazer um sermão, elas estão continuamente RELEMBRANDO seus protótipos, EVOCANDO A RECORDÃÇÃO daqueles que não devemos jamais esquecer, para copiarmos a santidade de suas vidas (destaques do autor).
Eu particularmente me divirto muito quando vejo um protestante atacar violentamente as imagens sacras, mas verter lágrimas ao assistir a filmes que retratam a Paixão de Nosso Senhor. Acaso não seria um filme também uma imagem? Aliás, um filme é uma sucessão gigantesca de imagens! Será que alguém quando chora ao assistir, por exemplo, ao filme "A Paixão de Cristo", chora por causa do rolo do filme, ou por causa daquilo que o filme está mostrando? E ali no filme não estão representados Jesus, Maria, e os apóstolos? Da mesma forma fazemos nós católicos há séculos, veneramos o que a imagem representa e não a imagem pela imagem.Vejam que bela exposição faz Lúcio Navarro nesta passagem acerca do uso de imagens na Igreja primitiva:
Já S. Gregório Nazianzeno (do século IV) falava de ua [sic] mulher pecadora que se converteu ao contemplar a imagem do mártir S. Polemon (Carmen de vita sua L Iª secção IIª v. 800 segs.) e S. Gregório de Nissa (também do século IV) declarava que jamais viu o quadro do sacrifício de Isaque, sem que as lágrimas lhe viessem aos olhos, de modo que Basílio, bispo de Ancira, presente ao 2ª Concílio de Nicéia, comentava: "Muitas vêzes êste Padre tinha lido a história e não tinha chorado, mas, quando viu a pintura, chorou". E outro Padre presente ao mesmo Concílio acrescentava: "Se a pintura produz um tal efeito em seu mestre, como não será útil aos ignorantes e aos simples!"
Compreende-se, portanto, muito bem, que quando Sereno, bispo de Marselha, temendo que se interpretasse mal o culto das imagens, quis proibi-las, o Papa S. Gregório Magno (do século VI) que foi notável também pela sua grande cultura, o tenha repreendido, dizendo: "Aquilo que para os letrados é a escrita, é a pintura a ser vista pelos rudes, porque nela, mesmo os ignorantes vêem o que devem imitar; nela lêem os que não conhecem as letras" (Epístolas LIX, 105).

Daí muitos dizerem que as imagens nada mais representam do que a "Bíblia dos pobres". No mais, devemos convir que é muito mais marcante "ver" uma cena do que apenas lê-la ou ouvir falar sobre ela. Na verdade, uma coisa complementa a outra e ambas servem para a solidificação de nossa Fé.

As imagens e a Bíblia

E aquelas passagens na Bíblia que condenam com veemência o culto das imagens?

Vamos a elas!

(Todos os destaques nas citações bíblicas são meus)

Primeiro a mais famosa:

Diz o Senhor em Êxodo 20, 4 – 5a:
Não farás para ti imagem esculpida de nada que se assemelhe ao que existe lá em cima nos céus, ou embaixo na terra, ou nas águas que estão debaixo da terra. Não te prostrarás diante desses deuses e não os servirás, porque eu, o Senhor teu Deus, sou um Deus ciumento (...)
É importante termos em mente que, neste contexto, o povo judeu tinha acabado de sair do Egito, onde a idolatria grassava livremente. Caso se fizesse uma imagem de qualquer coisa, o prolongado contato cultural entre hebreus e egípcios poderia fazer com aqueles adotassem as práticas pagãs destes. Por isso a proibição de Deus naquele momento foi tão resoluta. Obviamente, conforme os anos iam passando e o povo judeu fosse consolidando a sua fé, esta proibição tornar-se-ia cada vez mais despropositada.

Observemos, ainda, que neste trecho do livro do Êxodo, Deus proíbe a manufatura de qualquer tipo de imagem que represente alguma divindade. Tanto que o próprio Deus adverte: “Não te prostrarás diante desses deuses”. Assim, o que fica vetado explicitamente é a fabricação e o culto de imagens que representem divindades inventadas pelos homens e que roubam a glória do único Deus.

Ora, qualquer católico, por mais inculto que possa ser, sabe muito bem que as imagens não representam “deuses”, mas sim cenas da vida do próprio Cristo ou de pessoas que foram fiéis ao Senhor e que são dignas de nossa mais sincera devoção, mas não de nossa adoração.

Sabemos que antes da chegada de Nosso Senhor, praticamente todos os homens da face da terra haviam se esquecido do Deus verdadeiro e passaram a criar falsos deuses e a se prostrar diante deles, rendendo-lhes um culto de adoração, de latria (adoração) que só se deve a Deus. Por isso, tornaram-se tais homens cegos, surdos e mudos para a verdade revelada.

A este respeito, a Sagrada Escritura exorta no Salmo 115 (113 B), do verso 3 ao 8:

O nosso Deus está no céu
e faz tudo o que deseja.
Os ídolos deles são prata e ouro,
obra de mãos humanas:

têm boca, mas não falam;
têm olhos, mas não vêem;
têm ouvidos, mas não ouvem;
têm nariz, mas não cheiram

têm mãos, mas não tocam;
têm pés, mas não andam;
não há um murmúrio em sua garganta.
Os que os fazem ficam como eles,
todos aqueles que neles confiam.

Aqui, novamente, a Bíblia faz menção a ídolos, isto é, a outros deuses. A Bíblia não está dizendo que não se pode fazer nenhuma imagem de nada.

Diz ainda o profeta Isaias em 44, 9 – 20:
Os fabricantes de ídolos nada são e suas preciosas obras nada valem; para confusão deles, suas testemunhas não sabem ver nem compreender. Aquele que quer modelar um deus, funde uma estátua que não servirá para nada. Seus fiéis ficarão decepcionados e seus operários são apenas homens. Que todos se congreguem e compareçam. Ficarão assustados e decepcionados. O ferreiro manipula o formão e trabalha no forno; talha o ídolo com golpes de martelo; modela-o com mão vigorosa; mas tem fome, sente-se esgotado, tem sede, está extenuado. O escultor em madeira estica o cordel, traça o esquema a lápis, desbasta a imagem com o cinzel, mede-a com o compasso; dá-lhe forma humana, fá-la um belo tipo de homem, para colocá-la numa casa. Vai cortar madeira, apanha um roble ou um carvalho que tinham deixado crescer entre as árvores da floresta que o Senhor havia plantado, e que a chuva havia feito crescer. Depois faz com a madeira um fogo, e leva-o para se aquecer; queima-a também para cozer o pão; enfim serve-se dela para fabricar um ídolo diante do qual se prosterna. Queima a metade de sua madeira, sobre a brasa assa a carne, come esse assado até fartar-se. Então aquece-se e diz: Como é bom sentir o calor e admirar a chama! Com a sobra faz um deus, um ídolo diante do qual se prostra para adorá-lo e orar dizendo: Salva-me, tu és meu deus. Falta bom senso e juízo a essa gente; têm os olhos tão fechados que não vêem, seus corações não podem compreender. Ninguém reflete nem tem bom senso e inteligência para se dizer: Queimei metade, cozi pão sobre a brasa, aí assei a carne que comi e iria eu fazer do resto um ídolo miserável? Prostrar-me-ia diante de um pedaço de madeira? Este homem se nutre de cinzas, seu coração desabusado o desencaminha, ele não consegue salvar-se nem dizer: Não será um logro o que tenho nas mãos?

Novamente, a Sagrada Escritura condena os ídolos, os deuses falsos que os homens adoravam antes da chegada de Nosso Senhor.

Mas será que Deus proíbe a manufatura de qualquer imagem que seja?

Nossos irmãos separados concordam conosco em pelo menos um ponto: Deus não pode mentir e em Sua Palavra não pode haver contradição. Então, vamos continuar a ler a Bíblia. Vamos abri-la em Êxodo 25, 17 – 19, assim diz o Senhor:
Farás também um propiciatório de ouro puro, com dois côvados e meio de comprimento e um côvado e meio de largura. Farás dois querubins de ouro, de ouro batido os farás, nas duas extremidades do propiciatório; faze-me um dos querubins numa extremidade e o outro na outra: farás os querubins formando um só corpo com o propiciatório, nas duas extremidades.
Mas, o que é isso? O mesmo Deus que no capítulo 20 do mesmo livro do Êxodo tinha proibido que se fizessem imagens, agora exige que se construam dois querubins para serem colocados sobre a Arca da Aliança! Será que poderíamos chamar os judeus de idólatras caso se prostrassem diante dos querubins? É evidente que não. Neste caso, os judeus não estariam adorando os anjos, mas sim rendendo glória ao Senhor através da imagem daqueles anjos. 

Continuemos com a Bíblia, agora em 1 Reis 6, 23 – 29:
Fez no santuário dois querubins de pau de oliveira, que tinham dez côvados de altura. Cada uma das asas dos querubins tinha cinco côvados, o que fazia dez côvados da extremidade de uma asa à extremidade da outra. O segundo querubim tinha também dez côvados; os dois tinham a mesma forma e as mesmas dimensões. Um e outro tinham dez côvados de altura. Salomão pô-los no fundo do templo, no santuário. Tinham as asas estendidas, de sorte que uma asa do primeiro tocava uma das paredes e uma asa do segundo tocava a outra parede, enquanto as outras duas asas se encontravam no meio do santuário. Revestiu também de ouro os querubins. Mandou esculpir em relevo em todas as paredes da casa, ao redor, no santuário como no templo, querubins, palmas e flores abertas.

No trecho acima, que descreve algumas características do Templo de Salomão, vemos o próprio Salomão fazer duas imagens enormes de dois querubins e ainda por cima colocá-las no santuário do templo e as cobrir de ouro! Seria isso um indício de idolatria aos anjos? É óbvio que não! O próprio Deus se encarregou de determinar como deveria ser o seu templo, e Ele não faria absolutamente nada para induzir as pessoas ao erro. Contudo, através da imagem dos anjos, às quais se devia a mais profunda veneração, dava-se glória a Deus e proclamava-se a Sua majestade.

Ainda ao descrever o templo, o primeiro livro dos Reis em 7, 23 – 51 nos informa que:

Hirão fez também o mar de bronze, que tinha dez côvados de uma borda à outra, perfeitamente redondo, e com altura de cinco côvados; sua circunferência media-se com um fio de trinta côvados. Por baixo de sua borda havia coloquíntidas em número de dez por côvado; elas rodeavam o mar, dispostas em duas ordens, formando com o mar uma só peça. Este apoiava-se sobre doze bois, dos quais três olhavam para o norte, três para o ocidente, três para o sul e três para o oriente. O mar repousava sobre eles, e suas ancas estavam para o lado de dentro.  A espessura do mar era de um palmo; sua borda assemelhava-se à de um copo em forma de lírio; sua capacidade era de dois mil batos. Fez também duas bases de bronze, tendo cada uma quatro côvados de comprimento, quatro de largura e três de altura. Eis como eram feitas essas bases: eram formadas de painéis e enquadradas de molduras. Nos painéis enquadrados de molduras, havia leões, bois e querubins, assim como nas travessas igualmente. Por cima e por baixo dos leões e dos bois pendiam grinaldas em forma de festões. Cada base tinha quatro rodas de bronze, com seus eixos de bronze, e nos quatro cantos havia suportes fundidos que sustinham a bacia, os quais estavam por baixo das grinaldas. A abertura para a bacia era no interior dos suportes, e os ultrapassava de um côvado de altura; era cilíndrica e seu diâmetro era de um côvado e meio; e era também ornada de esculturas. Os painéis eram quadrados e não redondos. Debaixo destes estavam as quatro rodas, cujos eixos eram fixados à base. Cada roda tinha um côvado e meio de altura, e era feita como as de um carro. Eixos, cambas, raios e cubos, tudo era fundido. Nos quatro ângulos de cada base encontravam-se quatro suportes que faziam parte da mesma base. A parte superior da base era de forma circular, tendo meio côvado de altura; seus esteios formavam com os painéis uma só peça. Nas placas dos seus esteios e dos painéis assim como no espaço livre entre estas, esculpiu querubins, leões, palmas e grinaldas circulares. Desse modo fez as dez bases, todas do mesmo molde, da mesma dimensão e modelo. Fez também dez bacias de bronze, contendo cada uma quarenta batos. Cada uma tinha quatro côvados e repousava sobre um dos dez pedestais. Pôs cinco pedestais do lado direito do templo e cinco do lado esquerdo. O mar foi colocado do lado direito do edifício, para o sudoeste. Hirão fez também caldeirões, pás e bacias. Hirão concluiu, pois, toda a obra que o rei Salomão lhe mandara fazer para o templo do Senhor: duas colunas, dois capitéis esféricos para o alto das colunas, duas redes para cobrir os capitéis esféricos que estão sobre as colunas; quatrocentas romãs para as redes, duas fileiras de romãs para cada rede, para cobrir os dois capitéis esféricos que estão no alto das colunas; dez pedestais e dez bacias sobre os pedestais; o mar, único, com os doze bois por baixo do mar; os caldeirões, pás e bacias. Todos esses objetos que Hirão fez por ordem do rei Salomão para o templo do Senhor, eram de bronze polido. O rei mandou-os fundir na planície do Jordão, numa terra argilosa, entre Socot e Sartã. Era tão grande o número desses objetos, que Salomão não pesou o bronze. Salomão mandou ainda fabricar todos os utensílios que estariam no templo do Senhor: o altar de ouro, a mesa de ouro sobre a qual se colocavam os pães de proposição; os candelabros de ouro fino, cinco à direita e cinco à esquerda, diante do santuário, com as flores, as lâmpadas e as espevitadeiras de ouro, os copos, as facas, as bacias, as colheres e os cinzeiros de ouro fino, e os gonzos de ouro para os batentes da porta do santuário, o Santo dos Santos, e da porta do templo, o Santo. Assim foram concluídos todos os trabalhos empreendidos pelo rei Salomão para o templo do Senhor. E Salomão mandou então que se trouxesse tudo o que Davi, seu pai, tinha consagrado: a prata, o ouro e os utensílios, e colocou-os nas reservas do templo do Senhor.
Vejam que maravilha que não devia ser o Templo de Salomão dedicado ao Senhor! Tudo ali falava de Deus e proclamava a Sua glória! Daí o belo uso que se fazia das imagens, as quais eram tão veneradas a ponto de entrarem na constituição do Templo. Vejam, elas não eram veneradas por elas mesmas ou porque representavam algum deus estranho, mas devido ao fato de que todas elas, de uma forma ou de outra, apontavam para a grandeza infinita do Senhor.

Outra passagem bíblica sobre as imagens podemos encontrar em Números 21, 4 – 9:
Partiram do monte Hor na direção do mar Vermelho, para contornar a terra de Edom. Mas o povo perdeu a coragem no caminho, e começou a murmurar contra Deus e contra Moisés: “Por que, diziam eles, nos tirastes do Egito, para morrermos no deserto onde não há pão nem água? Estamos enfastiados deste miserável alimento.” Então o Senhor enviou contra o povo serpentes ardentes, que morderam e mataram muitos.  O povo veio a Moisés e disse-lhe: “Pecamos, murmurando contra o Senhor e contra ti. Roga ao Senhor que afaste de nós essas serpentes.” Moisés intercedeu pelo povo, e o Senhor disse a Moisés: “Faze para ti uma serpente ardente e mete-a sobre um poste. Todo o que for mordido, olhando para ela, será salvo.” Moisés fez, pois, uma serpente de bronze, e fixou-a sobre um poste. Se alguém era mordido por uma serpente e olhava para a serpente de bronze, conservava a vida.
O mesmo Deus que havia impugnado a fabricação de imagens, agora manda fazer a imagem de uma serpente! E ainda tem mais! Para que se fosse curado das mordidas viperinas, fazia-se mister olhar para a imagem da serpente! É claro que também neste caso, como em todos os outros encontrados na Bíblia, não se trata da imagem de um “deus”, mas sim de uma imagem que nos remete imediatamente ao Criador. Este tipo de imagem é permitida por Deus.

D. Estevão Bettencourt, em seu livro “Católicos Perguntam”, bem lembra, na página 8, que os próprios judeus não se furtaram à fabricação de imagens, dado que bem compreenderam que a proibição do Senhor estava relacionada à idolatria, ao culto de falsos deuses, e não às imagens em geral. Comenta D. Estevão:
Vide o caso, por exemplo, da famosa sinagoga de Dura-Êuropos, na Babilônia, na qual estavam representados Moisés diante da sarça ardente, o sacrifício de Abraão, a saída do Egito e a visão de Ezequiel.
Aqui está uma imagem das paredes do interior da sinagoga citada por D. Estevão:

Paredes da Sinagoga de Dura-Êuropos repletas de imagens com temas bíblicos

Se por acaso houvesse uma proibição generalizada de se fazer qualquer tipo imagem, seríamos impedidos de fazer qualquer coisa. Vejamos: todos temos imaginação, correto? Percebam que as quatro primeiras letras da palavra imaginação são imag. Ou seja, esta palavra está estreitamente atrelada ao vocábulo imagem. Na verdade, as ações humanas pautam-se em imaginação, em idéias. O carpinteiro forma em sua mente a imagem da cadeira. A seguir, partindo daquela imagem que carrega em sua imaginação, ele constrói a cadeira de acordo com a imagem da cadeira que possuía em sua mente. Deste modo, se Deus proibisse qualquer tipo de imagem, deveria proibir também que usássemos nossa imaginação, que é uma grande geradora de imagens. Mas isso é absurdo! Pois foi o próprio Deus quem nos deu a capacidade intelectiva.

Vemos, pois, o quanto é disparatado alegar que Deus proíbe o uso de todas as imagens.

Caso assim fosse, a proibição de imagens deveria estender-se não apenas à estatuária, mas também à fotografia, à pintura, ao desenho e ao cinema, pois estes nada mais são do que imagens sob modalidades distintas. Percebemos, pois, que muitos de nossos irmãos separados iniciariam uma grande guerra contra todos os artistas do mundo e de todos os tempos, em especial, claro, contra aqueles que trabalham com a Arte Sacra.

Mas o que é idolatria, afinal?

Tenhamos, pois, em mente uma clara distinção teológica (e não uma baseada em dicionários escolares) entre idolatria e veneração.

Idolatria: Culto de latria devido apenas a Deus.
Veneração: Culto de doulia que devemos a tudo o que é sagrado, a tudo que nos remete a Deus. Poderíamos dizer que se trata de um profundo respeito a tudo que contribui para a nossa salvação.

Para negar esta distinção, os protestantes fazem as observações mais esdrúxulas. Afirmam eles: “Na prática não é o que acontece. Quando um católico está fazendo suas ‘rezas’ para um santo, ele não sabe a distinção entre doulia e latria. Logo, esta distinção é artificial e faz com que muitos prestem um culto idolátrico (conscientemente ou não) a uma certa imagem disfarçado de um culto de veneração”. Portanto, para alguns protestantes, se alguém está fazendo mal uso de algo, este algo deve ser sumariamente extirpado.

Vejamos que, com este raciocínio, eles põem em xeque a credibilidade da própria Bíblia. A Bíblia tem sido alvo de terríveis interpretações distorcidas que tem causado uma série de conflitos e divisões. Logo, a Bíblia não é algo bom, assim, que se arranquem as Bíblias dos cristãos e do mundo! E não me venha mostrar diferenças entre esta ou aquela maneira de se fazer exegese bíblica, no final ninguém vai saber a diferença mesmo e a Bíblia continuará causando confusão. Estas distinções seriam, pois, artificiais.

Fica, pois, evidente o quão contraditório torna-se o raciocínio protestante. E se outrora o feitiço virava-se contra o feiticeiro, agora o protestantismo volta-se contra o protestante.

Contudo, o que a própria Igreja nos ensina acerca da idolatria? Leiamos os parágrafos 2112 - 2114 do Catecismo da Igreja Católica (todos os sublinhados e negritos são meus):
O primeiro mandamento condena o politeísmo. Exige que o homem não acredite em outros deuses afora Deus, que não venere outras divindades afora a única. A escritura lembra constantemente esta rejeição de “ídolos, ouro e prata, obras das mãos dos homens”, os quais “têm boca e não falam, têm olhos e não vêem...”. Esses ídolos vão tornar as pessoas vãs: “Como eles serão os que o fabricaram e quem quer que ponha neles a sua fé” (Sl 115, 4 - 5.8). Deus, pelo contrário, é o “Deus vivo” (Jo 3, 10) que faz viver e intervém na história.
A idolatria não diz respeito somente aos falsos cultos do paganismo. Ela é uma tentação constante da fé. Consiste em divinizar o que não é Deus. Existe idolatria quando o homem presta honra e veneração a uma criatura em lugar de Deus, quer se trate de deuses ou de demônios (por exemplo, o satanismo), do poder, do prazer, da raça, dos antepassados, do Estado, do dinheiro etc. “Não podeis servir ao Deus e ao dinheiro”, diz Jesus (Mt 6, 24). Numerosos mártires morreram por não adorar “a Besta”, recusando-se até a simular seu culto. A idolatria nega o senhorio exclusivo de Deus; é, portanto, incompatível com a comunhão divina
.A vida humana unifica-se na adoração ao Único. O mandamento de adorar o único Senhor simplifica o homem e o livra de uma dispersão infinita. A idolatria é uma perversão do sentimento religiosos inato do homem. O idólatra é aquele que “refere a qualquer coisa que não seja Deus a sua indestrutível noção de Deus”.
Portanto, existem várias modalidades de idolatria. Não se necessita de uma imagem para se tornar um idólatra. Muitos têm como seus deuses e salvadores coisas como o dinheiro, o sexo, a família, o emprego, os estudos e outros. Para se tornar um idólatra, basta colocar qualquer coisa no lugar de Deus. Pasmem vocês, meus caros, muitos hoje idolatram nada mais nada menos que a Bíblia! Colocaram um livro no lugar de Deus e acham que a salvação só é possível através da Bíblia.

Logo, pelo simples fato de que muitos fazem mal uso da Bíblia, devemos tirá-la de nosso meio? É certo que isso não faz sentido. O abuso não tolhe o uso.

As imagens entre protestantes

Dado que o lema “a união faz a força” não se aplica aos protestantes, cabe lembrar que felizmente alguns ramos do protestantismo, como o luteranismo e o anglicanismo, compreendem o uso salutar das imagens sacras e as utilizam em suas igrejas e rituais. E vejam vocês que estamos falando dos ramos mais tradicionais do protestantismo...

Observem as fotos abaixo, todas retiradas de igrejas ou personagens protestantes:

 
Igreja Luterana


Estátua do líder protestante Billy Graham

Estátuas dos protestantes (da esquerda para a direita) Farel, Calvino, Beze e Knox em Genebra
Estátua de Lutero


Igreja Presbiteriana


Igreja Anglicana


Estes são apenas alguns exemplos. É possível encontrar imagens feitas pelas mais diversas denominações: batistas, congregacionalistas, adventistas, quadrangulares, etc. Vemos que também neste aspecto os protestantes não se entendem...

As imagens nas catacumbas dos cristãos primitivos

A imagem que abre este post é uma representação da Virgem Maria e do Menino Jesus e estampa uma das catacumbas onde os cristãos primitivos se escondiam para fugir das autoridades romanas. Vemos que desde o princípio a Igreja tem profunda veneração pelas passagens bíblicas e por aqueles que tanto amaram a Nosso Senhor.

Vejamos como, desde o princípio, os cristãos ornamentavam seus lugares de culto com imagens de santos e/ou de temas bíblicos. As imagens possuem indiscutíveis valores pedagógicos e estéticos para a casa do Senhor.

Seguem-se algumas imagens que se encontram nas catacumbas dos cristãos primitivos:

Interior da Catacuma de São Marcelino e Pedro


Representação da Eucaristia na Catacumba de São Calixto


São Paulo


Nossa Senhora e o Menino Jesus

Bom Pastor


Batismo


Epifania do Senhor

Para quem quiser saber mais acerca das práticas cristãs nas catacumbas,  basta acessar:


O dever cívico, a família e as imagens e símbolos

Devemos ter em mente que a vida do homem, de todas as épocas, sempre esteve (e continua a estar) permeada de símbolos e de imagens que o remetem a valores, a momentos e a personagens que transcendem à própria imagem ou símbolo: eles remetem, por exemplo, diretamente à pátria ou à família de um indivíduo.

A bandeira de um país, no fundo, é só um pedaço de pano colorido. Mas o valor da bandeira não se encontra nela mesma, mas naquilo que ela representa e naquilo que ela evoca: é uma imagem de nossa pátria. Ainda me lembro que na escola tínhamos que cantar o Hino Nacional com a mão no coração e olhando para a bandeira, tudo em um clima de mais profundo respeito. Quer uma dica para ficar impopular? Tente rasgar uma bandeira do Brasil durante um desfile de Sete de Setembro sob a alegação: “Gente isso aqui não é o Brasil nada! É só um pedaço de pano! Parem de prestar homenagem a isto!”...(caso não dê certo, cogite fazer a mesma coisa em um quartel bem no Dia da Bandeira!).

Ao andar pelas cidades de nosso país, sempre nos deparamos com estátuas e bustos de personagens da nossa história ou da história local. E por qual motivo estas imagens estão lá? Porque aquelas pessoas deram uma grande contribuição ao país ou a uma determinada região. Daí elas receberem uma imagem em sua homenagem; daí elas serem dignas de uma espécie de veneração cívica.

Creio ser quase impossível encontrar uma família que não possua um álbum de família, ou pelo menos algumas fotos de momentos especiais que são guardadas com todo o carinho. Às vezes, quando sentimos saudades das pessoas ali representadas, choramos ao ver a foto e até mesmo “conversamos” com a foto. Imagine alguém chegando perto de você e, arrancando a foto de sua mão, dizer: “Isto aqui não é o seu familiar coisa nenhuma! É só um pedaço de papel!”. Duvido que você ficasse feliz com uma atitude dessas. Porém, todos sabemos que o valor da foto não está na foto em si, mas no que ela representa para nós.

E se devemos ter veneração pelos símbolos e imagens que fazem referência à pátria e à família, que são coisas passageiras, quanto mais não deveríamos zelar pelos símbolos e imagens que nos remetem à nossa fé, que é eterna e da qual depende a nossa salvação! Por isso que, como católicos, temos que zelar pelos objetos que fazem alusão ao que cremos, pois todos eles falam de Deus. Aliás, os símbolos e as imagens não são nenhuma novidade para o cristão, sempre os cultivamos desde os primórdios (ex: a cruz, símbolo da salvação; o peixe, símbolo de Cristo; a estrela de Belém etc.).

Quando olhar para uma imagem, veja que a pessoa ali representada apenas foi capaz de viver em santidade devido à graça de Deus. A pessoa nada mais fez do que devolver para Deus dons que o próprio Deus lhe tinha concedido. Logo, aquela pessoa representada naquela imagem não apenas falou de Deus, mas viveu em Deus. Ela fez de sua vida uma oferta para Nosso Senhor. Ela falava de Deus com sua vida (e não apenas com a boca) enquanto peregrinava neste mundo; agora, na glória eterna prometida aos que amam a Deus, é a sua imagem que vemos, e, através desta, devemos nos lembrar que aquela imagem representa alguém que viveu, a partir de algum momento de sua vida, intensamente para Deus. Por isso, sua vida deve nos servir de modelo. De qualquer forma, nosso pensamento, ao olharmos para uma determinada imagem sacra, se converge invariavelmente para o Criador. 

Conclusão

Encerro este artigo com uma singela sugestão. Quando alguém vier importunar você acerca das imagens, simplesmente diga: “Prezado, observe atentamente esta imagem, estude sobre a vida da pessoa que aí está representada e, assim como eu, com a graça que vem de Deus, procure imitá-la. Tenho certeza que deste modo você acumulará cada vez mais tesouros diante do Senhor”.

Pax Domini Sit Semper Vobiscum

William Bottazzini

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

A resposta cristã ao secularismo



Compartilho hoje com todos vocês uma pregação realizada pelo pelo Pe. Raniero Cantalamessa OFM cap, pregador da Casa Pontifícia, diante de Bento XVI e da Cúria Romana, na Capela Redemptoris Mater do Palácio Apostólico Vaticano, acerca da resposta cristã ao secularismo.

Que este texto nos faça refletir acerca de nosso papel como verdadeiros cristãos.

Todos os sublinhados são meus.

O texto original pode ser acessado em:


Boa leitura!

Pax Domini Sit Semper Vobiscum

William Bottazzini
__________

P. Raniero Cantalamessa, ofmcap.
Segunda Pregação de Advento

“A VIDA ETERNA QUE A VÓS ANUNCIAMOS” (1 Jo 1,2)

A resposta cristã ao secularismo

1. Secularização e secularismo

Nesta meditação, veremos o segundo obstáculo que a evangelização no mundo ocidental moderno encontra: a secularização. No Motu Proprio com o qual o Papa criou o Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização, é dito que este “está a serviço das Igrejas particulares, especialmente naqueles territórios de antiga tradição cristã onde se manifesta mais claramente o fenômeno da secularização”.

A secularização é um fenômeno complexo e ambivalente. Pode significar a autonomia das realidades terrenas e a separação entre o reino de Deus e o reino de César e, neste sentido, não só não é contra o Evangelho, mas encontra nele uma de suas raízes profundas. Pode, no entanto, indicar também todo um conjunto de atitudes contrárias à religião e à fé, pelo qual é preferível usar o termo secularismo. O secularismo está para secularização assim como o cientificismo para a ciência e o racionalismo à racionalidade.

Cuidando dos obstáculos ou desafios que a fé encontra no mundo moderno, referimo-nos exclusivamente a este sentido negativo da secularização. Mesmo assim delimitada, no entanto, a secularização tem muitas faces, dependendo dos campos em que se manifesta: a teologia, ciência, ética, a hermenêutica bíblica, a cultura em geral, a vida cotidiana. Nesta meditação, tomo o termo em seu primordial. A secularização, como o secularismo, na verdade, derivam da palavra saeculum, que no uso comum termina por indicar o tempo presente (aeon atual, segundo a Bíblia), por oposição à eternidade (aeon futuro,  “séculos dos séculos”, da Bíblia. NT: um período de tempo extremamente longo e indefinido). Nesse sentido, o secularismo é sinônimo de temporalidade, de redução do real somente à dimensão terrena.

A queda do horizonte da eternidade ou da vida eterna tem, sobre a fé cristã, o mesmo efeito que a areia jogada sobre uma chama: a sufoca, a apaga. A crença na vida eterna é uma das condições de possibilidade da evangelização. “Se é só para esta vida que pusemos a nossa esperança em Cristo, somos, dentre todos os homens, os mais dignos de compaixão”. (1 Coríntios 15,19).

2. A ascensão e a queda da idéia de eternidade

Recordemos brevemente a história da crença na vida após a morte, vai nos ajudar a medir a novidade trazida pelo Evangelho neste campo. Na religião hebraica do Antigo Testamento, essa crença se afirma tardiamente. Somente depois do exílio, diante do fracasso das expectativas temporais, nasce a ideia da ressurreição da carne e de uma recompensa após a morte para os justos, e ainda assim não todos a adotam (os saduceus, como sabemos, não partilham tal crença).  

Isso desmente clamorosamente a tese daqueles (Feuerbach, Marx, Freud) que explicam a crença em Deus com o desejo de uma recompensa eterna, como projeção no além de expectativas temporais frustradas. Israel acreditou em Deus, muitos séculos antes do que em uma recompensa eterna no além!  Não é, portanto, o desejo de uma recompensa eterna que produziu a fé em Deus, mas é a fé que produziu a crença em uma recompensa pós morte.

No mundo bíblico, temos a plena revelação da vida eterna com a vinda de Cristo. Jesus não estabelece a certeza da vida eterna sobre a natureza do homem, a imortalidade da alma, mas sobre “o poder de Deus”, que é um "Deus não de mortos, mas de vivos" (Lc 20, 38). Depois da Páscoa, a este fundamento teológico, os apóstolos acrescentarão o cristológico: a ressurreição de Cristo dentre os mortos. Nela, o Apóstolo fundou a fé na ressurreição da carne e na vida eterna: “Ora, se se prega que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como podem alguns dentre vós dizer que não há ressurreição dos mortos? Mas, na realidade, Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram” (1 Cor 15, 12.20).

Também no mundo greco-romano assiste-se a uma evolução na concepção de vida após a morte. A mais antiga ideia é a de que a verdadeira vida termina com a morte; depois dessa existe somente um simulacro de vida, num mundo de sombras. Uma novidade se registra com o aparecimento [da] religião órfico-pitagórica. De acordo com ela, o verdadeiro eu do homem é a alma, que, libertada da prisão (sema) do corpo (soma), pode finalmente viver sua verdadeira vida. Platão dará uma dignidade filosófica a esta descoberta, baseando-a na natureza espiritual e, portanto, imortal, da alma [1]. 

Essa crença permanecerá, no entanto, sendo minoritária, reservada aos iniciados nos mistérios e aos seguidores de escolas filosóficas especiais. Para a massa, persistirá a antiga crença de que a vida real termina com a morte. São conhecidas as palavras que o imperador Adriano dirigi a si próprio próximo de morrer:

“Pequena alma, alma terna e inconstante, 
companheira do meu corpo, de que foste hóspede,
vais descer àqueles lugares pálidos,
duros e nus, onde deverás renunciar aos jogos de outrora.
Por um momento, contemplemos juntos ainda os lugares familiares,
os objetos que certamente nunca mais veremos...” [2].

Entende-se neste contexto o impacto que devia ter a mensagem cristã de vida após a morte infinitamente mais plena e mais alegre do que a da terra; também podemos entender por que a ideia e os símbolos da vida eterna são tão comuns nas sepultura cristãs das catacumbas romanas.

Mas o que aconteceu à ideia cristã de uma vida eterna para a alma e para o corpo depois de ter triunfado sobre a ideia pagã de “escuridão além da morte”? Ao contrário do momento atual, no qual o ateísmo é primariamente expresso na negação da existência de um Criador, no século XIX, ele se expressava na negação da vida após a morte. Acolhendo a afirmação de Hegel, segundo a qual “os cristãos desperdiçam no céu a energia destinada à terra”, Feuerbach e principalmente Marx combateram a crença na vida após a morte, sob o pretexto de que aliena o compromisso terreno. À ideia de uma sobrevivência pessoal em Deus, se substitui uma ideia de sobrevivência na espécie e na sociedade do futuro.

Pouco a pouco, recaiu sobre a palavra eternidade a suspeita e o silêncio. O materialismo e o consumismo completaram a obra nas sociedades opulentas, fazendo parecer inconveniente que se fale ainda de eternidade entre pessoas cultas e em sintonia com os tempos. Tudo isso provocou claramente um retrocesso na fé dos crentes que, com o tempo, fez-se tímida e reticente sobre este ponto. Quando ouvimos o último sermão sobre a vida eterna? Continuamos a rezar o Credo: “Et expecto resurrectionem mortuorum et vitam venturi saeculi” (“E Espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir”),  mas sem dar muito peso a estas palavras. Kierkegaard tinha razão quando escreveu: "A vida após a morte tornou-se uma piada, uma necessidade tão incerta que não só ninguém respeita, mas nem mesmo se cogita que exista, ao ponto que se divertem com o pensamento de que houve um tempo em que esta ideia transformava a toda a existência” [3].

Qual é o efeito prático desse eclipse da ideia de eternidade? São Paulo refere-se à intenção daqueles que não acreditam na ressurreição dos mortos: “Comamos e bebamos, pois amanhã morreremos” (1 Cor. 15,32). O desejo natural de viver sempre, distorcido, torna-se um desejo ou frenesi de viver bem, ou seja, agradavelmente, mesmo que às custas dos outros, se necessário. Toda a terra se torna o que Dante disse da Itália da sua época: "o canteiro que tão nos faz ferozes". Perdido o horizonte da eternidade, o sofrimento humano parece dupla e irremediavelmente absurdo.

3. A eternidade: uma esperança e uma presença

Ainda a propósito do secularismo, como para o cientificismo, a resposta mais eficaz não é combater o erro contrário, mas fazer brilhar novamente diante dos homens a certeza da vida eterna, confiando na força intrínseca que possui a verdade quando é acompanhada pelo testemunho de vida. "Sempre se poderá negar uma ideia com outra – escreve um antigo Padre – e uma opinião pode ser oposta à outra; mas o que poderá se opor a uma vida?”

Devemos também aproveitar a correspondência de tal verdade ao desejo mais profundo, ainda que reprimido, do coração humano. A um amigo que o repreendeu, quase como se seu desejo de eternidade fosse uma forma de orgulho e arrogância, Miguel de Unamuno, que não era um apologista da fé, disse em uma carta:

“Eu não estou dizendo que merecemos uma vida depois da morte, nem que a lógica nos mostre isso; estou dizendo que a necessito, mereça ou não, e nada mais. Estou dizendo que o que é passageiro não me satisfaz, que tenho sede de eternidade, e que, sem ela, tudo dá no mesmo para mim. Eu necessito disso, necessito! E, sem isso, nem a alegria de viver quer dizer coisa alguma. É muito cômodo dizer ‘temos de viver, temos de estar contentes com a vida!’ E os que não nos contentamos com ela?” [4].

Não é que desejasse a eternidade - acrescentava na mesma ocasião - desprezando o mundo e a vida aqui embaixo: “Eu amo tanto a vida que, perdê-la, parece-me o pior dos males. Não amam realmente a vida aqueles que vivem o dia a dia, sem preocupar-se por saber se vão perdê-la totalmente ou não”. Santo Agostinho dizia a mesma coisa: Cui non datur semper vivere, quid prodest bene vivere?, “De que serve viver bem, se não nos é dado viver para sempre?” [5]. “Tudo, exceto o eterno, é vão ao mundo”, cantou um dos nossos poetas [6].

Aos homens do nosso tempo, que cultivam no fundo do coração esta necessidade de eternidade, sem talvez ter a coragem de confessar a outros e nem para si mesmo, podemos repetir o que Paulo disse aos atenienses: “Pois bem, aquilo que adorais sem conhecer, eu vos anuncio” (cf. At 17,23).

A resposta cristã ao secularismo, no sentido que entendemos aqui, não se baseia, como para Platão, em uma ideia filosófica - imortalidade da alma - mas em um evento. O Iluminismo tinha colocado a famosa pergunta de como é possível atingir a eternidade, enquanto você estiver no tempo, e como dar um ponto de partida histórico para uma consciência eterna [7]. Em outras palavras: como se pode justificar a alegação da fé cristã de prometer uma vida eterna e de ameaçar com uma pena igualmente eterna por atos realizados no tempo.

A única resposta válida para este problema é aquela baseada na fé na encarnação de Deus. Em Cristo, o eterno entrou no tempo, manifestado na carne; diante dele é possível tomar uma decisão para a eternidade. É assim que o evangelista João fala da vida eterna: “Vida eterna que a vós anunciamos, que estava junto do Pai e que se tornou visível para nós” (1 Jo 1, 2).

Para o crente, a eternidade não é, como se vê, somente uma esperança, é também uma presença. Realizamos a experiência cada vez que fazemos um verdadeiro ato de fé em Cristo, porque todo aquele que nele crê “já possui a vida eterna” (cf. 1 Jo 5,13), e toda vez que recebemos a comunhão, onde nos é dado “o penhor da glória futura” (futurae gloriae nobis pignus datur); toda vez que escutamos as palavras do Evangelho são “palavras de vida eterna "(Jo 6,68). São Tomás de Aquino também afirma que “a graça é o início da glória” [8].

Esta presença da eternidade no tempo é chamada Espírito Santo. Ele é descrito como “garantia da nossa herança” (Ef 1,14; 2 Coríntios 5,5), e foi dada a nós porque, tendo recebido as primícias, nós ansiamos pela plenitude. “Cristo - escreve Santo Agostinho - nos deu o penhor do Espírito Santo com o qual ele, que não poderia enganar-nos, quis ter certeza do cumprimento de sua promessa. O que ele prometeu? Ele prometeu a vida eterna, cuja garantia é o Espírito Santo que nos foi dado ” [9]. 

4. Quem somos nós? De onde viemos? Para onde vamos?

Entre a vida de fé no tempo e a vida eterna no tempo há uma relação semelhante à que existe entre a vida do embrião no seio materno e a do bebê, uma vez nascido. Cabasilas escreve:

“Este mundo traz, em gestação, o homem interior, novo, criado segundo Deus, para que ele, formado, moldado e tornado perfeito, não seja gerado àquele mundo perfeito que não envelhece. Como o embrião que, enquanto está na existência escura e líquida, a natureza prepara à vida na luz, é assim com os santos [...]. Para o embrião, no entanto, a vida futura é absolutamente futura: não chega a ele nenhum raio de luz, nada do que é desta vida. Não é assim para nós, do momento que o século futuro foi como derramado e misturado ao presente [...] Então, agora já é concedido aos santos não só dispor-se e preparar-se à vida, mas viver e atuar” [10].

Há uma história que ilustra essa comparação. Havia dois gêmeos, um menino e uma menina, tão inteligentes e precoces que, mesmo no útero materno, já conversavam entre si. A menina perguntava ao irmão: “Pra você, haverá vida após o nascimento?”. Ele respondia: “Não seja ridícula. O que faz você pensar que exista algo fora desse espaço estreito e escuro em que nos encontramos? A menina, criando coragem, insistia: “Talvez haja uma mãe, alguém que nos colocou aqui e que vai cuidar de nós.” Ele disse: “Você vê alguma mãe em algum lugar? O que você vê é tudo que existe”. Ela de novo: “Mas você não sente, às vezes, uma pressão no peito que aumenta dia a dia e nos impele para frente?”. “Pensando bem, ele respondeu, é verdade, sinto isso o tempo todo”. “Veja, concluiu, triunfante, a irmã mais nova, essa dor não pode ser para nada. Eu acho que está nos preparando para algo maior do que este pequeno espaço”.

Podemos usar esta simpática história quando tivermos de anunciar a vida eterna para as pessoas que perderam a fé nela, mas conservaram a nostalgia e talvez esperam que a Igreja, como aquela menina, as ajude a acreditar.

Há perguntas que os homens não deixam de fazer desde que o mundo é mundo e os homens de hoje não são exceção: “Quem somos nós? De onde viemos? Para onde vamos”. Na sua “História Eclesiástica do Povo Inglês”, Beda, o Venerável, relata como a fé cristã entrou no norte da Inglaterra. Quando os missionários, vindos de Roma, chegaram a Northumberland, o rei Edwin convocou um conselho de notáveis para decidir se permitiam a eles ou não, pelo menos, divulgar a nova mensagem. Um deles se levantou e disse:

“Suponha, ó rei, esta cena. Você se senta para jantar com seus ministros e líderes: é inverno, o fogo arde no meio e aquece a sala, enquanto lá fora, a tempestade grita e a neve cai. Um passarinho entra pela abertura de uma parede e sai imediatamente do outro lado. Enquanto está dentro, está protegido da tempestade de inverno mas, depois de desfrutar o calor rapidamente, apenas desaparece de vista, perdendo-se no inverno escuro de onde veio. Assim parece ser a vida do homem na terra: ignoramos tudo o que a segue e que a precedeu. Se esta nova doutrina nos traz algo mais seguro sobre isso, acho que deve ser acolhida” [11].

Quem sabe se a fé cristã não pode voltar à Inglaterra e ao continente europeu pela mesma razão pela que fez sua entrada: como a única que tem uma resposta definitiva a dar às grandes interrogações da vida terrena. A melhor oportunidade de transmitir esta mensagem são os funerais. Neles, as pessoas estão menos distraídas que nos outros ritos de passagem (Batismo, Casamento); eles questionam o seu próprio destino. Quando se chora por um ente querido, se chora também por si mesmo.

Certa vez ouvi um interessante programa da BBC inglesa sobre os chamados “funerais seculares”, com a gravação ao vivo de um deles. Em certo momento o mestre de cerimônias dizia aos presentes: “Nós não devemos ficar tristes. Viver uma vida boa, satisfatória, por 70 anos (a idade da falecida), é algo pelo qual se deveria ser grato”. “Grato a quem?, me perguntava. Tais funerais não fazem mais que deixar evidente a derrota total do homem frente à morte.

Os sociólogos e estudiosos da cultura, chamado a explicar o fenômeno dos funerais seculares ou “humanistas”, viam a causa da propagação desta prática em alguns países do norte da Europa no fato de que estes funerais religiosos envolvem os presentes numa fé que não se sentem à vontade para compartilhar. A proposta sugerida era: a Igreja, nos funerais, deveria evitar qualquer menção a Deus, à vida eterna, a Jesus Cristo morto e ressuscitado, e limitar  seu papel ao de “organizadora natural e experiente dos ritos de passagem”! Em outras palavras, resignar-se à secularização inclusive da morte!

5. Vamos à casa do Senhor! 

Não precisamos de uma fé renovada na eternidade somente para evangelizar, isto é, para o anúncio aos outros, precisamos dela, mesmo antes, para dar um novo impulso à nossa caminhada rumo à santidade. O enfraquecimento da ideia de eternidade atinge também os crentes, diminuindo neles a capacidade de enfrentar com coragem o sofrimento e as provas da vida.

Pensemos em um homem com uma balança na mão: uma daquelas balanças se equilibram com uma mão e tem de um lado um prato onde se colocam as coisas para pesar e do outro uma barra que marca o peso ou a medida. Se cai no chão ou perde a medida, tudo o que e colocado no prato levanta a barra e inclina a balança. Até um punhado de penas.

Assim somos nós quando perdemos o peso, a medida de tudo que é a eternidade: as coisas e os sofrimentos terrenos levam facilmente nossa alma ao chão. Tudo parece muito pesado, excessivo. Jesus dizia: “Se tua mão ou teu pé te leva à queda, corta e joga fora. É melhor entrares na vida tendo só uma das mãos ou dos pés do que, com duas mãos ou dois pés, seres lançado ao fogo eterno. Se teu olho te leva à queda, arranca-o e joga fora. É melhor entrares na vida tendo um olho só do que, com os dois, seres lançado ao fogo do inferno”. (cf. Mt 18,8-9). Mas nós, tendo perdido de vista a eternidade, achamos já excessivo que se nos peça fechar os olhos a um espetáculo imoral.

São Paulo se atreve a escrever: “Com efeito, a insignificância de uma tribulação momentânea acarreta para nós um volume incomensurável e eterno de glória. Isto acontece porque miramos às coisas invisíveis e não às visíveis. Pois o que é visível é passageiro, mas o que é invisível é eterno” (2 Cor 4,17-18). O peso da tribulação é “leve, porque provisório, o da glória é enorme exatamente por ser eterno”.  Por esta razão, o mesmo Apóstolo pode dizer: “Eu penso que os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória que há de ser revelada em nós.” (Rm 8:18).

O cardeal Newman, que foi escolhido como mestre especial neste Advento, obriga-nos a adicionar uma verdade que falta na reflexão realizada até agora sobre a eternidade. Ele faz isso com o poema "O Sonho de Gerôncio", com música do grande compositor inglês Edgar Elgar. Uma verdadeira obra-prima pela profundidade de pensamento, pela inspiração e dramaticidade lírica.

Descreve o sonho de um ancião (o que significa o nome Gerontius-Gerôncio) que se sente perto do fim. A seus pensamentos sobre o sentido da vida, a morte, o abismo do nada no qual se precipita, se sobrepõem os comentários dos espectadores, a voz orante da Igreja: "Parte desse mundo, alma cristã” (proficiscere, alma christiana ), as vozes de contestação de anjos e demônios que pesam sua vida e reclamam sua alma. É particularmente bela e profunda a descrição do momento da morte e do despertar no outro mundo:

“Fui dormir, e agora estou renovado.
Um refresco estranho: por que eu sinto em mim
Uma leveza indescritível, e um sentido
De liberdade, como se eu finalmente fosse
E nunca tinha sido antes. Que paz!
Já não ouço mais que a incessante batida do tempo,
Não, nem me falta a minha respiração, ou o pulso;
Não é um momento diferente do outro” [12].

As últimas palavras que a alma pronuncia no poema são aquelas com as quais chega serena e até ansiosa ao Purgatório:

Lá cantarei o meu Senhor e amor ausente:
Leve-me embora,
Que, mais cedo eu possa subir, e ir acima,
E vê-Lo na verdade do dia eterno.” [13].

Para o imperador Adriano, a morte era a passagem da realidade às sombras, para o cristão John Newman ela é a passagem das sombras à realidade ex umbris et imaginibus in veritatem como quis que fosse escrito sobre seu túmulo.

Qual é, então, a verdade que Newman nos obriga a não manter em silêncio? Que a passagem do tempo à eternidade não é retilínea e igual para todos. Há um juízo para enfrentar, um juízo que pode ter dois resultados muito diferentes, o inferno ou o paraíso. A espiritualidade de Newman é austera, inclusive rigorosa, como a do Dies irae, mas que salutar nessa época inclinada a tomar tudo como brincadeira, como dizia  Kierkegaard, com o pensamento da eternidade!

Elevemos o nosso pensamento à eternidade com renovado ímpeto. Repitamos a nós mesmos as palavras do poeta: “Tudo, exceto o eterno, o mundo é em vão.” No saltério hebraico há um grupo de salmos, chamados de “salmos de ascensão” ou “cânticos de Sião”. Eram os salmos que os peregrinos israelitas cantavam quando saíam em peregrinação à cidade santa, Jerusalém. Um deles começa assim: “Fiquei alegre, quando me disseram: Vamos à casa do Senhor!”. Estes salmos de ascensão  tornaram-se os salmos de quem, na Igreja, segue a caminho da Jerusalém celeste; são os nossos salmos. Comentando sobre as palavras iniciais do salmo, Santo Agostinho dizia a seus seguidores: 

“Corremos porque vamos para a casa do Senhor, corremos porque uma corrida como essa não cansa; porque chegaremos a uma meta onde não existe cansaço. Corramos à casa do Senhor e nossa alma se alegra por aqueles que repetem essas palavras. Estes viram primeiro que nós a pátria, os apóstolos a viram e nos disseram: “Corram, apressem-se, venham atrás! Vamos para a casa do Senhor!” [14].

Temos diante de nós, nesta capela, uma esplêndida representação em mosaico da Jerusalém celeste, com Maria, os apóstolos e uma longa procissão de santos orientais e ocidentais. Eles repetem silenciosamente este convite. Aceitemo-lo e levemo-lo conosco nesta jornada e ao longo da vida.
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Notas
[1] Cf. M. Pohlenz, L’uomo greco, Florença 1967, p. 173ss.
[2] Animula vagula, blandula,  In ‘Memórias de Adriano’, p. 251, Editora Circulo do Livro, 1974
[3] S. Kierkegaard, Postilla conclusiva, 4, in Opere, a cura di C. Fabro, Firenze 1972, p. 458.
[4] Miguel de Unamuno, “Cartas inéditas de Miguel de Unamuno e Pedro Jiménez Ilundain,” ed. Hernán Benítez, Revista de la Universidad de Buenos Aires, vol. 3, no. 9 (Gennaio-Marzo 1949), pp. 135. 150.
[5] S. Agostinho, Tratado sobre o Evangelho de João, 45, 2 (PL,  35, 1720).
[6] Antonio Fogazzaro, “A Sera,” in Le poesie, Milano, Mondadori, 1935, pp. 194–197.
[7] G.E. Lessing, Über den Beweis des Geistes und der Kraft, ed. Lachmann, X, p.36.
[8] S. Tomás deAquino, Somma teologica, II-IIae, q. 24, art.3, ad 2.
[9] S. Agostinho, Sermo 378,1 (PL, 39, 1673).
[10] N. Cabasilas, Vida em Cristo, I,1-2, UTET, 1971, pp.65-67.,
[11] Beda, o Venerável, Historia ecclesiastica Anglorum, II, 13.
[12] O sonho de Gerôncio, in Newman Poeta, a cura di L. Obertello, Jaka Book, Milano 2010, p.124
[13] O sonho de Gerôncio, in Newman Poeta, a cura di L. Obertello, Jaka Book, Milano 2010, p.124
[14] S. Agostino, Enarrationes in Psalmos 121,2 (CCL, 40, p. 1802).