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quinta-feira, 26 de abril de 2012

Disposta a ter 10 filhos, grávida coloca anúncio em busca de obstetra católico

Ângela Kempfer
Aparecida prefere não mostrar o rosto, porque sabe do preconceito. (Foto: João Garrigó).
“Gestante católica à procura de médica(o) obstetra católica(o) com a máxima urgência!!”, implora anúncio na internet.
A estratégia foi a última alternativa de uma grávida que leva a sério os ensinamentos da Igreja e só encontra pela frente médicos na trincheira do controle de natalidade.
No quinto mês de gestação, Aparecida Moreira só quer um profissional que não “tire sarro” ou desrespeite o modo de vida dela e do marido.
Os dois seguem à risca ensinamentos que aprenderam na Igreja Católica, como a proibição ao uso de anticoncepcionais, preservativos ou qualquer método “contraditório à vida”.
Aos 28 anos, ela já tem um filho de 3 anos e outro que acaba de completar um aninho. E ela não pretende parar por aí. “Vou ter quantos filhos Deus quiser dar. Se forem 10, vou adorar”, comenta. Mesmo assim ela prefere não mostrar o rosto porque tem medo que os médicos "fujam de vez".
Hoje, na recepção do consultório da quinta profissional procurada até agora, ela conta que nem sequer conseguiu saber ainda o sexo do bebê porque “nenhum médico deu certo até agora”.
Aparecida já passou por quatro obstetras, todos com opiniões bem diferentes das dela e nesta quarta-feira faz mais uma tentativa, sem muita esperança. “Eu mal começo a falar e eles já fazem gracinha, saem com sarrinho. Um deles chegou a me chamar de louca”.
A médica que a atendeu nas duas primeiras gestações não é conveniada ao plano de saúde que a família mantém hoje e Aparecida ficou sem assistência. O marido, professor de História, apóia a esposa e acha absurdo ter de convencer os profissionais sobre a fé. Mas a briga do casal vai além da religião.
Aparecida aproveita a indisposição com a classe para reclamar do trabalho em geral. “Nunca consegui fazer parto normal, por exemplo, porque não tem médico que goste de fazer parto normal. Vivem falando de incentivo, mas isso é mentira. Só querem fazer cesariana”, esbraveja.
A peregrinação pelos consultórios de Campo Grande durante esta gravidez deixa a jovem mãe a um passo de desistir da busca pelo médico católico. “Vai ser minha última tentativa. Se não der certo hoje, vou procurar o menos pior. Vou ter de aceitar”.
Aparecida lembra que já discutiu várias vezes durante as consultas, mas teme que a coisa piore depois do parto.
“Vão querer impor um anticoncepcional. Já ouvi tanta coisa do tipo: deixa de ser besta, isso é coisa do passado, da época das cavernas. Só quero que respeitem o que eu acredito. Não é pedir demais, mas não existe diálogo.“Será que é esse povo que vai pagar as fraldas dos meus filhos?”, ironiza.

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