EXTRA ECCLESIAM NULLA SALUS

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Da obra "Philosophiae Cursus" de Marino de Boylesve - §3

§3. A definição de lógica

LÓGICA (λογος) é o método pelo qual se conhece. Por uns é considerada uma arte, mas por outros, uma ciência. E disso pode ser definida quer como a arte de raciocinar, quer como a ciência da certeza: arte, na medida em que traz as regras para discernir o verdadeiro do falso; ciência, na medida em que expõe os princípios da certeza subjetiva.
Conhecer nada mais é do que representar mentalmente a si mesmo alguma coisa ou algum objeto. E que é representar, senão tornar o objeto como que novamente presente, quer de modo sensível, pelo qual se tem a imagem; quer de modo meramente inteligível, pelo qual se tem a ideia na mente?
A mente (do latim metiri, mensum, medir, pois como que medimos as coisas através da cognição) procede no conhecimento em três graus: 1º pela ideia, pela qual apresenta a coisa a si; 2º pelo juízo, pelo qual compara duas ideias entre si; 3º pelo raciocínio, pelo qual conclui dois juízos entre si; e finalmente 4º pelo método, pelo qual alcança o conhecimento certo da verdade. 

domingo, 13 de dezembro de 2015

Da obra "Philosophiae Cursus" de Marino de Boylesve - §2

§2. Divisão da Filosofia

Ao filósofo compete dar conta de três coisas:

Iº. Deve investigar se e como a razão humana pode conhecer a verdade; e isso se faz na lógica

IIº. A própria verdade deve ser não só investigada, como também demonstrada. Assim:

1º) Devem-se desenvolver os elementos universais e os primeiros princípios de toda verdade que se queira demonstrar; mas porque a primeira coisa que se manifesta ao intelecto é o ente, dele tratamos na ontologia, que também pode ser chamada de metafísica universal. A metafísica, porém, consideradas as coisas sob o aspecto pelo qual se apresentam - aspecto este que se encontra certamente acima dos sentidos, mas não acima da razão - se distingue simultaneamente da física e da teologia sobrenatural, uma vez que esta trata das verdades recebidas por revelação divina, ao passo que aquela, das coisas percebidas pela experiência dos sentidos. Portanto, o objeto da teologia é a verdade sobrenatural; o da física, a natureza meramente sensível; e o da metafísica, o ente meramente inteligível, sim, mas passível de ser conhecido pela razão natural.

2º) Mas as coisas que a razão humana pode conhecer por si mesma - pressupondo-se a experiência dos sentidos e confirmando-as a tradição humana - são: 1º o mundo sensível, inteligível pela razão; 2º a própria alma humana; 3º Deus. Assim, há três partes especiais nas quais se divide a metafísica: 1º cosmologia, que trata do mundo sensível; 2º psicologia, que trata da alma humana; 3º teologia, que discursa acerca de Deus. 

IIIº. Destarte, demonstradas essas coisas, resta investigar e determinar a razão pela qual todas as coisas se ordenam com o primeiro princípio e o fim último de todas elas, ou seja, Deus. Assim, porque nele se encontra a sabedoria para que as coisas sejam consideradas em sua causa mais elevada, é escopo da filosofia que se determine a relação pela qual o homem e o mundo - através dos costumes e de certos direitos naturais e essenciais - se religam a Deus. Isso nos é apresentado por aquela parte da filosofia que é chamada de ética ou moral, sem a qual todo o restante da filosofia deveria ser considerado como especulação ociosa e praticamente estéril. 

Assim, eis a divisão de toda a filosofia: Iº LÓGICA; IIº METAFÍSICA: 1º universal ou Ontologia. 2º especial ou (a) Cosmologia (à qual outrora pertencia a física), (b) Psicologia, (c) Teologia natural; IIIº ÉTICA ou MORAL. 

sábado, 12 de dezembro de 2015

Da obra "Philosophiae Cursus" de Marino de Boylesve - §1


§1. Definição de Filosofia

FILOSOFIA (φιλεω, amo, acostumo-me, e σοφια, sabedoria, conhecimento) é o amor pela sabedoria. A sabedoria é a ciência das coisas pelas causas mais elevadas. Mas a mais elevada das causas é  o primeiro princípio de todas as coisas e o fim último de todas as coisas. Portanto, somente é verdadeiramente sábio (ou filósofo) aquele que, com o espírito elevado em direção ao alto, considerando todas as coisas em unidade, contempla, pela especulação contínua, a razão pela qual tudo é ordenado do primeiro princípio ao fim último; e pela ação, na medida do possível, a segue. 
A ciência, porém, é o conhecimento certo da verdade. A mente pode conhecer a verdade por dois caminhos, a saber, por si mesma ou por outrem. Mas a ciência que é ensinada por outrem o é ou por Deus ou pelo homem. Logo, são três os tipos de ciência: a história, a filosofia e a teologia, que se distinguem entre si pelo fato de ser a história o conhecimento da verdade pelo testemunho dos homens; a teologia o conhecimento da verdade pela revelação de Deus; a filosofia o conhecimento da verdade pela razão. Estritamente, portanto, pode-se definir filosofia como ciência das coisas que o homem pode conhecer por si mesmo somente com a razão
Pois as coisas ou verdades que o homem por si mesmo somente com a razão não consegue alcançar só podem ser conhecidas através da fé, seja humana seja divina, de modo que recaem na história ou na teologia sobrenatural. Ai daquele homem que, confiando somente em sua razão, desprezando a fé humana e sobretudo a divina, tivesse a presunção de solucionar aquelas poucas coisas que por si só é capaz de conhecer com o auxílio da razão! Com efeito, a experiência é testemunha de que todos os que assim procederam em pouco tempo se desviaram do caminho reto e certo da verdade e da própria razão; esses mesmos que, negligenciada a tradição dos antecessores e desprezada a revelação divina, como se fossem os primeiros a conhecerem das coisas, ousaram marchar sozinhos contra todos. 

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Mais polêmicas envolvendo a famigerada teoria da evolução...

Compartilho abaixo  o link do site UOL sobre uma recentíssima discussão acerca da teoria da evolução. Cada vez mais me convenço de que essa teoria não passa de uma série de dogmas com capa de ciência.

http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2015/09/1676679-no-afa-cientistas-tem-classificado-fosseis-de-simios-como-hominideos.shtml

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Versões da Summa Theologica

Eis os endereços para algumas versões da grande Summa Theologica de Santo Tomás de Aquino, leitura indispensável para o católico e para o homem de cultura.

Creio que uma boa tradução para o português seja a oferecida pela Permanência e que pode ser acessada pelo seguinte link: http://permanencia.org.br/drupal/node/8

Em inglês, há a versão oferecida pela New Advent que, até onde pude verificar, parece ser bastante razoável: http://www.newadvent.org/summa/

Em latim, há o texto difundido por Alarcón, texto este que serve de base para diversas traduções: http://www.corpusthomisticum.org/sth0000.html

Um dos textos que muito me agradam é o "Summa Theologica Minuta", um excelente resumo em latim da Summa: https://books.google.com.br/books?id=k0IxAQAAMAAJ...

A leitura da Summa deve ser feita de forma meditada, de modo que cada linha seja plenamente compreendida. Nesse sentido, um bom dicionário de termos tomistas pode ser de grande valia. Outra sugestão, sobretudo para os que estão estudando uma língua estrangeira, é o estudo comparado das traduções: lê-se um trecho em português e em seguida o mesmo trecho na língua que se estuda.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

O patriarca Cirilo de Moscou declara: “É pelo número de abortos que se pode julgar o estado moral de uma sociedade”.




O patriarca Cirilo de Moscou visitou no dia de Natal, em data comemorada segundo o calendário antigo, a maternidade de uma clínica de Moscou. “Quando, em uma maternidade, o médico pergunta: ‘Interromperemos a gravidez?’, ele leva a mulher, através desta pergunta, a proceder a um aborto. Estou convencido de que se trata de um crime”, disse o patriarca Cirilo, que se dirigia às pacientes e aos colaboradores da maternidade. “Não é apenas de um crime moral, mas acredito que se trata também de um crime contra o homem, contra a pessoa. Pois o Senhor predestinou a mulher a colocar uma criança no mundo. Esta é, pode-se dizer, sua finalidade principal, sem a qual não poderia existir o gênero humano. E se, pela nossa vontade perversa, intervimos, usurpamos o plano divino para a mulher; se nos esforçarmos para modificar este plano, cometeremos um erro imenso, destruindo a pessoa humana e as relações na sociedade (...). É pelo número de abortos que se pode julgar o estado moral de uma sociedade. Segundo estes indicadores, a Rússia, infelizmente, encontra-se à cabeça dessa situação em meio a outros países”, constatou o patriarca, agradecendo à equipe da maternidade, porque “nesta instituição, não se leva as futuras mamães a interromper a gravidez”. “Se em cada maternidade persuade-se a mamãe de que é necessário fazer com que a criança nasça; que, graças à ciência contemporânea, os médicos farão de tudo para que a criança venha ao mundo e ajudarão a mamãe a cuidar da criança, mesmo no caso de a saúde desta apresentar problemas, então, acredito que o clima moral em nossa sociedade mudará da mesma forma”, continuou o patriarca. Respondendo às perguntas dos jornalistas após sua visita, o patriarca Cirilo declarou que havia “aproximadamente 50 abrigos para mulheres na Federação da Rússia”. As ocupantes destes abrigos são, em parte, jovens mamães que conseguiram recusar-se a proceder ao aborto, mas que, ao fazê-lo, encontraram-se em condições difíceis de existência. Nestes abrigos, as mulheres “podem permanecer por alguns anos. Nestes locais são ajudadas a se inserirem na vida e recebem assistência financeira. Além disso, abriu-se uma série de centros de consultas para mulheres grávidas. Se a futura mãe emite desde cedo o desejo de interromper a gravidez, consultores pertencentes à Igreja começam a trabalhar com ela. Eles ajudam, na maior parte dos casos, a preservar a vida da criança. Colaboramos neste domínio com as instituições do Estado e com as forças sociais, pois consideramos que se trata de uma direção importante de trabalho. Faremos o nosso melhor para desenvolvê-la”, sublinhou o primado da igreja ortodoxa russa.

Tradução: William Bottazzini
Original em: http://www.orthodoxie.com/actualites/le-patriarche-cyrille-de-moscou-declare-cest-au-nombre-des-avortements-que-lon-peut-juger-de-letat-moral-de-la-societe/ 

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

O novo cura d’Ars da Marselha agnóstica multiplica os fiéis em um bairro islâmico



Revolucionou a igreja francesa: pegou uma paróquia do centro de Marselha que ia ser fechada e agora não para de batizar adultos.

Javier Lozano/ReL.

“Trazer tantas almas para Deus quanto seja possível”. O padre Michel Marie Zanotti Sorkine levou a sério esta frase que se tornou o seu principal objetivo como sacerdote.

Assim o faz depois de ter transformado uma igreja que estava para ser encerrada e demolida na paróquia com mais vida de Marselha. Seu mérito é ainda maior pelo fato de o templo estar situado em um bairro com uma enorme presença de muçulmanos em uma cidade onde menos de 1% da população é católica praticante.

Era músico de sucesso
A chave para este sacerdote que anteriormente fora músico de sucesso em diversos cabarés de Paris e Montecarlo é a “presença”; tornar Deus presente no mundo de hoje. As portas de sua igreja estão todos os dias totalmente abertas e ele se veste com batina, porque “todos, cristãos ou não, têm o direito de ver um sacerdote fora da igreja”.

De 50 paroquianos por Missa a 700
Seu balanço é impressionante. Quando chegou em 2004 à paróquia de São Vicente de Paulo do centro de Marselha a igreja permanecia fechada durante a semana e a única missa dominical era celebrada na cripta. A esta missa compareciam apenas 50 pessoas.

Como ele próprio conta, a primeira coisa que fez foi abrir o templo todos os dias e celebrar no altar-mor. Agora a igreja permanece aberta quase o dia todo e faltam cadeiras extras para acomodar os fiéis. Mais de 700 todos os domingos, e o número é ainda maior nas grandes festas. Quase 200 adultos foram batizados desde que chegou, 34 nesta última Páscoa. Tornou-se um fenômeno de massas não apenas em Marselha, mas também em toda França, com reportagens da mídia de todo o país, atraída pela quantidade de conversões.

O novo cura d’Ars da Marselha agnóstica
Uma das principais iniciativas do padre Zanotti Sorkine para revitalizar a fé da paróquia e conseguir tal afluência de pessoas de todas as idades e condições é a confissão. Antes da abertura do templo, às 8 da manhã, já há pessoas esperando na porta para poder receber este sacramento ou para pedir conselhos a este sacerdote francês.

Como relatam seus paroquianos, o padre Michel Marie está boa parte do dia no confessionário, muitas vezes até depois das onze da noite. E se não estiver lá, pode ser encontrado vagando por seus corredores ou na sacristia, pois sabe da necessidade de que os sacerdotes estejam sempre visíveis e próximos para sair em socorro de todo aquele que necessitar.

A igreja sempre aberta
Outra característica sua bastante destacada é a de ter o templo permanentemente aberto. Isto gerou críticas por parte de sacerdotes de sua diocese, mas ele afirma que a missão da paróquia é “permitir e facilitar o encontro do homem com Deus” e o padre não pode ser um impedimento.

O templo deve favorecer o nexo com Deus
Em uma entrevista televisiva afirmava resolutamente que “se hoje em dia a igreja não está aberta é porque de certa maneira não temos nada a propor; que tudo que oferecemos acabou. Ao passo que enquanto a igreja está o dia inteiro aberta, as pessoas vêm. Praticamente nunca tivemos problemas com roubos. Há pessoas que rezam e garanto que esta igreja se transforma em um instrumento extraordinário que favorece o encontro entre a alma e Deus”.

Era a última oportunidade para salvar a paróquia
O bispo enviou-o a esta paróquia como última oportunidade para salvá-la e o padre levou bastante a sério a recomendação de abrir as portas. “Há cinco portas sempre abertas e assim todo mundo poder ver a beleza da casa de Deus”. 90.000 carros e milhares de transeuntes e turistas encontram a igreja aberta e com os sacerdotes às vistas. Este é o seu método: a presença de Deus e de seu povo no mundo secularizado.

A importância da liturgia e da limpeza
E aqui chegamos a outro ponto-chave para este sacerdote. Tendo acabado de chegar e com a ajuda de um grupo de leigos, renovou a paróquia, limpou-a e deixou-a resplandecente. Para ele este é outro motivo pelo qual as pessoas optam por voltar à igreja. “Como querer que alguém creia que Cristo vive em um lugar se não estiver tudo impecável? É impossível”.

Por isso, as toalhas do altar e do Sacrário têm um branco imaculado. “O detalhe é que faz a diferença. Com o trabalho bem feito, damo-nos conta do amor que manifestamos aos seres e às coisas”. E assegura de modo taxativo: “Creio que quando se penetra em uma igreja onde não está tudo impecável é impossível crer na Presença gloriosa de Jesus”.

A liturgia torna-se o ponto central de seu ministério e muitas pessoas foram atraídas a esta igreja pela riqueza da Eucarística. “Esta é a beleza que conduz a Deus”, afirma.

As missas estão sempre cheias e nelas há procissões solenes, incenso, cânticos cuidados... Tudo feito detalhadamente. “Tenho um cuidado especial na celebração da Missa para mostrar o significado do sacrifício eucarístico e a realidade da Presença”. “Não se concebe a vida espiritual sem a adoração do Santíssimo Sacramento e sem um ardente amor por Maria”, razão pela qual introduziu a adoração e a récita diária do Rosário dirigida por estudantes e jovens.

Seus sermões são também bastante esperados. Aliás, seus paroquianos têm acesso a eles através da internet. Neles o padre sempre chama à conversão, pela salvação do homem. Em sua opinião, a falta desta mensagem na Igreja de hoje “é talvez uma das principais causas da indiferença religiosa que vivemos no mundo contemporâneo”. Antes de tudo deve-se ter clareza na mensagem evangélica. Por isso adverte-nos contra a frase tão batida que diz “todos vamos para o Céu”. Esta é para ele “outra canção que pode nos enganar”, pois se deve lutar, começando pelo sacerdote, para se chegar ao Paraíso.

O cura de batina
Se existe algo que distingue este alto sacerdote em um bairro de maioria muçulmana, é a sua batina, que sempre veste, e o rosário entre as mãos. Para ele é essencial que o padre possa ser distinguido entre as pessoas. “Todos os homens, começando por aquele que cruza o umbral da igreja, têm o direito de se reunir com um sacerdote. O serviço que oferecemos é tão essencial para a salvação que nossa visão deve tornar-se tangível e eficaz para permitir esta reunião”.

Deste modo, para o padre Michel, o sacerdote o é 24 horas por dia. “O serviço deve ser permanente. Que pensaria você de um marido que, em seu caminho para o escritório pela manhã, tirasse sua aliança?”.

Neste aspecto é muito insistente: “quanto àqueles que dizem que o hábito cria distância, deve-se dizer que não conhecem o coração dos pobres, para os quais, o que se vê diz mais que o que se diz”.

Por último recorda um detalhe importante. A primeira coisa que os regimes comunistas faziam era eliminar o hábito eclesiástico, sabendo da importância da comunicação da fé. “Isto merece a atenção da igreja da França”, afirma.

No entanto, sua missão não é desenvolvida unicamente no interior do templo, pois ele também é um personagem conhecido em todo o bairro, até mesmo pelos muçulmanos. Toma café da manhã nos cafés do bairro; ali fala e se reúne com os fiéis e com as pessoas não praticantes. Chama-o de sua pequena capela. Assim conseguiu que muitos vizinhos sejam agora assíduos da paróquia e transformaram esta igreja de São Vicente de Paulo em uma paróquia totalmente ressuscitada.

Uma vida peculiar: cantor de cabarés
A vida do padre Michel Marie sempre esteve em movimento. Nasceu em 1959 e tem raízes russas, italianas e corsas. Aos 13 anos perdeu sua mãe, o que lhe causou uma “ruptura devastadora” e o fez unir-se ainda mais à Virgem Maria.

Por ter um grande talento musical, compensou a perda de sua mãe com a música. Em 1977, após ser convidado a tocar no café Paris de Montecarlo, mudou para a capital onde começou sua carreira de compositor e músico de cabarés. Todavia a chamada de Deus era mais forte e em 1988 entrou para a ordem dominicana por causa de sua devoção a São Domingos. Esteve com eles por quatro anos, quando, diante do fascínio por São Maximiliano Kolbe, passou para a ordem franciscana, onde também permaneceu por quatro anos.

Foi em 1999 que foi ordenado sacerdote para a diocese de Marselha com quase quarenta anos. Além de músico, agora dedicado a Deus, também é escritor de sucesso, com seis livros publicados, e poeta.

Tradução: William Bottazzini

*Todos os negritos são do texto original.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Nota sobre a gravação das aulas

Gostaria de informar que não abandonei o projeto de gravar um curso completo de história da Igreja, apenas o interrompi por um momento porque precisava cuidar de outras coisas. Retomá-lo-ei assim que possível.

Contando com a oração de todos,

William

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

A vida no “Reino do Tanto-Faz”



Por Arcebispo Charles J. Chaput

A Reforma, mesmo sem querer, desfez a síntese medieval entre a fé e a razão. Atualmente nós, de modo romântico, buscamos uma vida espiritual livre de qualquer autoridade e tradição, ou então, de modo racionalista, buscamos a verdade como se os seres humanos fossem autônomos e auto-suficientes.

Virá o dia em que os católicos não poderão apoiar nenhum dos principais partidos políticos americanos. Alguns acham mesmo que este dia já chegou. Alasdair MacIntyre, o filósofo de Notre Dame, argumentou-o nestas linhas há alguns anos, explicando o porquê de não se poder votar nem em um democrata nem em um republicano.
Desconheço o que o Prof. Macintyre fará este ano. De minha parte, bem como da parte de meus irmãos no episcopado na Pennsylvania, acredito ser importante votar hoje em cada dia de eleição. Uma consciência católica bem formada pode escolher sabiamente entre os candidatos. Este ano estão em jogo assuntos de grande importância.  
Não obstante, as eleições são tempos difíceis para os católicos sérios. Se nós acreditamos na tradição encíclica – da Rerum Novarum a Evangelium Vitae; da Humanae Vitae a Caritas in Veritate – então não podemos nos sentir confortáveis em nenhum partido político. Os católicos dão prioridade ao direito à vida e à integridade da família como pedras angulares da sociedade. Mas também temos muito que dizer a respeito da economia e da imigração, da dívida desenfreada, do desemprego, da guerra e da paz. Por isso que os bispos norte-americanos notaram recentemente que “no ambiente atual, os católicos podem sentir-se politicamente cassados, com a sensação de que nenhum partido e poucos candidatos compartilham plenamente nosso compromisso exaustivo para com a vida humana e a dignidade”.
Qualquer cristão pode ser tentado a entrar em desespero. Mas a verdade é que sempre as coisas foram como são. Como escrevera o autor da Epístola aos Hebreus, “não temos aqui cidade permanente” (Heb 13:14). Agostinho admirava certas virtudes pagãs, mas foi ele quem escreveu a Cidade de Deus para nos lembrar que em primeiro lugar somos cristãos e depois cidadãos do mundo. Precisamos aprender – às vezes de forma dolorosa – a deixar nossa fé castigar os nossos desejos particularistas.
Nos Estados Unidos, as nossas tensões políticas derivam dos nossos problemas culturais. Evidentemente existem exceções, mas em nossos dias nossa cultura antepõe frequentemente direitos a deveres, satisfação individual à comunidade e dúvida à fé. Com efeito, aquilo que nos une é nosso direito de ficar perambulando pelos shoppings e de comprar mais porcaria. É difícil viver uma vida de virtudes quando tudo em torno de nós, na mídia e mesmo nas vidas de colegas e pessoas próximas, a disciplina, a moderação e o sacrifício de si mesmo parecem irrelevantes.
Brad Gregory, o historiador de Notre Dame, tenta mostrar como nós chegamos a este ponto em seu recente livro The Unintended Reformation: How a Religious Revolution Secularized Society (Tradução livre: A Reforma não desejada: como uma revolução religiosa secularizou a sociedade). Suas respostas são surpreendentes e, para alguns leitores, controversas. Porém seu livro também é importante – e a sua capacidade de explicar as coisas é brilhante.
Gregory alega que o relativismo hodierno e o culto do consumidor – algo que ironicamente é chamado de “os bens da vida” – possui raízes que remontam há muitos séculos. O historiador não perde tempo com nostalgias de uma era de ouro que nunca existiu. Contudo ele realmente mostra, com uma clareza instigante, que o no século XVI os reformadores protestantes involuntariamente puseram em marcha certas idéias que acabaram por viabilizar o egocentrismo atual.
Gregory também mostra que se por um lado os reformadores acenderam o pavio, os católicos medievais, por outro, haviam preparado a dinamite. O laicato medieval era, muito frequentemente, profundamente piedoso. E justamente porque era piedoso é que eles se lembravam quando seus líderes não o eram. Leigos piedosos tinham desejo de reforma justamente por causa de sua devoção. O clero da Idade Média tardia também continuamente pregava uma coisa e fazia outra. Avareza, simonia, nepotismo, luxúria, liberdade sexual e cisma na hierarquia criaram uma lacuna intolerável entre o ensinamento cristão e a prática.
Muitos católicos trabalhavam para uma reforma a partir de dentro. Alguns tiveram sucesso. Franciscanos, dominicanos e cistercienses devem suas origens à reforma medieval. Humanistas como Erasmo e Thomas More fizeram parte de uma comunidade internacional de correspondências que estava determinada a renovar a vida cristã a partir de seu interior. Santos como Catarina de Sena e Bernardo de Claraval falaram a verdade para os poderes eclesiásticos.
Mas uma diferença crucial separava estas vozes católicas dos reformadores protestantes: os católicos acreditavam que os ensinamentos da Igreja estavam corretos. A única coisa de que ela precisava era verdadeiramente vivê-los. Os católicos acreditavam que a presença de Cristo na Eucaristia e nos outros sacramentos, nas Escrituras, nos santos e nas doutrinas históricas da Igreja oferecia um estilo de vida cristão autêntico, que abrangia todos os âmbitos da vida, suficiente para santificar a existência humana no caso de esta estar realmente envolta e esmagada pelos seus abusos.
Os protestantes, ensinando a sola scriptura, jogaram fora muitas dessas coisas. Eles acreditavam que o depósito e a estrutura da fé católica estavam equivocados já nos seus princípios; que Cristo não mais habitava na Igreja Católica; e que apenas a Escritura comunicava a vontade de Deus. A sola scriptura mudou tudo na Cristandade ocidental. “A Igreja” tornou-se “as igrejas” e o processo, inadvertidamente, mas de modo irrefreável, abasteceu a soberania individual e o relativismo.
Gregory diz muitíssimas coisas duras sobre os resultados da sola scriptura. Porém, antes de nos felicitarmos por termos evitado aquele erro, nós católicos devememos, primeiramente, refletir longamente sobre o porquê de a vida cristã ter dado oportunidade para uma confusão tão destrutiva. Muitíssimos líderes católicos do clero – especialmente, mas de nenhum modo apenas eles – viviam a fé que professavam com um cinismo visível. A primeira lição de Gregory, pois, é que o modo pelo qual nós vivemos a nossa vida interessa e muito. O fracasso em se praticar a caritas tem consequências para nossa unitas. Era assim naquele tempo e é assim ainda hoje.
O Professor Gregory, contudo, não para por aí. Ele está apenas aquecendo.
O enfoque dos reformadores no sola scriptura buscava fechar a lacuna entre a pregação cristã e a prática. Mas tal princípio falhou porque acabou por abrir uma caixa de Pandora de novos problemas. Interpretações rivais da Escritura, na verdade, intensificaram a confusão. Luteranos liam a Escritura de uma maneira; já os calvinistas, de outra. Havia ainda diversos tipos de anglicanos, anabatistas, batistas, puritanos, pietistas, metodistas e quakers que divergiam em incontáveis casos.
Gregory também menciona os filósofos seculares que acabaram dando continuidade a tudo isso. No lugar da sola scriptura, o iluminismo oferecia a sabedoria: a sola ratio. De Descartes, passando por Hobbes, Spinoza, Rousseau, Kant, Hume, Hegel e outros, até Heidegger, Levinas e seus sucessores, deu-se início ao grande ‘fim da linha’ para a religião revelada e suas tradições e a uma busca da verdade que estivesse fundamentada apenas na razão humana.
Mas Gregory mostra que os filósofos não se saíram muito melhor que os reformadores. Ideias rivais proliferavam. A verdade e as respostas para as grandes questões da vida continuaram a ser debatidas. Mais recentemente, Nietzsche, Foucault e os pós-modernistas foram honestos o suficiente para afirmá-lo, e com isso desprezavam tanto o iluminismo quanto o cristianismo. O resultado disso pode ser visto no espírito de ironia e ceticismo difundido hoje.
Conforme Gregory explica, o caos metafísico de nossa cultura contribuiu para a formação de nossa política, economia e ciência. Não há nada na vida cotidiana que tenha ficado intacto.
Politicamente os líderes da Reforma voltaram-se para os governantes temporais para se protegerem do papado, alimentando com isso o crescimento do estado secular moderno. Papas e bispos, que outrora haviam sido um contrapeso para o poder secular, descobriram que na nova ordem eles possuíam muito menos influência sobre os reis. Os primeiros Estados modernos passaram décadas em guerra uns contra os outros, evidentemente devido a diferenças teológicas. Mas na verdade, igrejas e Estados usavam-se mutuamente para os seus fins eminentemente práticos. Os Estados agarraram a chance de expandir o seu poder e o clero buscava proteção e apoio da parte do Estado.
O resultado foi um banho de sangue e a exaustão tanto do ponto de vista militar quanto do ponto de vista metafísico. A vida intelectual e a prática religiosa da Idade Média haviam estado incrivelmente unidas. Em um monastério ou em uma universidade escolástica, a busca pelo saber integrava-se organicamente com a busca pela virtude. Mas as novas universidades do período pós-Reforma cada vez mais passavam do controle eclesiástico para o secular. Colocaram a teologia em uma faculdade separada e de pouco importância, dispensando suas energias para o treinamento de profissionais e cientistas que pudessem servir às ambições do crescimento comercial dos Estados.
Ao ler Gregory, podemos ver que grande parte da história da primeira época da Idade Moderna nada mais é do que a história de como o mercantilismo e o mercado suplantaram a Igreja como forças de ordem da vida comum. As primeiras experiências no campo da tolerância religiosa foram claramente defendidas por razões comerciais. Desgastados com disputas religiosas que pareciam eternas, os burgueses do início da República Holandesa pararam de requerer o título de membro de sua igreja oficial (protestante) e aceitavam de bom grado mercadores e artesãos de todas as crenças. Inglaterra, América e outros Estados seguiram o exemplo. Eles reconheciam a religião como um bem público, mas reduziram-na, com efeito, a uma escolha privada, enquanto que – na prática – reverenciavam o comércio como um objetivo nacional.
A Reforma também teve implicações na ciência e na tecnologia. Com graus variáveis de autoconsciência, eles mudaram o modo pelo qual a cultura ocidental concebia a natureza e todo o mundo material.
Por exemplo: ainda hoje, mesmo que os católicos sejam formados pelos sacramentos, nós continuamos vivendo em um mundo material cheio da presença de Deus. Tanto para o católico medieval quanto para o moderno, o mundo material é um meio para a graça divina. Já o desdém dos reformadores para com as obras e os sacramentos criou, inevitavelmente, uma fé mais voltada para o ego, uma experiência abstrata.
Como detalha Gregório, quando os sacramentos deixam de ser patrimônio público para se tornarem práticas privadas, a mudança cultural torna-se inevitável. Os ocidentais costumavam crer que o mundo fazia parte de um cosmos espiritual, mas após a Reforma, aquela confiança deixou de ser compartilhada. Consequentemente, os mercadores modernos, as universidades e os intelectuais desenvolveram o hábito de ver a matéria como espiritualmente inerte, o que quer dizer que ela está disponível para ser manipulada a fim de que possa servir aos desejos humanos.
Mas a ciência moderna nunca provou e nunca poderá provar empiricamente que a natureza é espiritualmente inerte. Enquanto os secularistas (ou fundamentalistas religiosos) insistirem nisso, eles serão ideólogos, não cientistas. Os católicos sempre acreditaram que Deus age nas causas naturais e através delas. Ele revelou-Se a nós em Seu Filho, Jesus Cristo. Porém Deus também existe de forma absoluta fora da Criação. Ele é completamente Outro. Ele não é meramente uma Fada Celeste maior ou o Super-Ser nos céus. Em outras palavras, o Deus cristão não é o tipo de Deus que pode ser “refutado” por algo que possamos ver sob o microscópio ou através de um experimento. Embora muitos hoje, obrigados para com uma metafísica anti-sacramental, insistam que deva haver um conflito entre a ciência e a religião. Isso é falso. E não precisava ser assim.
De certa forma, o livro de Gregory poderia receber este subtítulo: “a crise de fé no ocidente e a razão”. A reforma – de modo sincero, zeloso e com as melhores intenções – liberou as forças centrífugas que desfizeram a síntese medieval entre a revelação e a filosofia. Desde então, nossa cultura despencou de uma morte intelectual para outra, ou buscando romanticamente uma vida espiritual livre de qualquer autoridade e tradição ou querendo encontrar racionalmente a verdade, como se os seres humanos fossem autônomos e auto-suficientes. A Reforma nos custou o grande casamento ocidental que havia entre a fé e a razão – ou seja, a confiança compartilhada de que a fé é pessoal, mas também comum, e de que a razão não é contrária à fé, mas a aumenta.
Nesta história, os católicos cometeram erros terríveis e que custariam caro. Conforme o que ficou dito, a Reforma aconteceu por uma boa razão. Sempre que o Professor Gregory argumenta, ele o faz com equilíbrio, com respeito por todas as partes e com detalhes históricos apoiados em diferenças sutis. São 145 páginas dedicadas às notas. O relato de Gregory sobre a crise de Galileu é especialmente interessante.  Ele explica como os líderes da Igreja, tendo compreendido corretamente a ameaça da Reforma para a metafísica sacramental, agiram de forma exagerada e julgaram mal a importância de Galileu para a Teologia.
Em nossos próprios dias, sem dúvida, os católicos continuaram a encontrar muitas maneiras de difamar a fé. A Igreja precisou de muito tempo para articular sua própria doutrina em bases teológicas acerca da liberdade religiosa. A crise dos abusos sexuais deu a muitos padres e bispos uma pedra de moinho para que amarrassem em seus pescoços e se lançassem ao fundo do mar [nota do tradutor: conforme disse Jesus em Mt 18:6] por terem machucado inocentes e causado crise de fé em boas pessoas. Também os leigos católicos comuns deixaram-se ser colonizados pela avareza, pela anarquia sexual e pelo materialismo da cultura que os cerca. Em muitas instâncias, se olharmos para o modo pelo qual o católico americano realmente vive, nós também consumimos, relativizamos e trivializamos como todo mundo.
Cultivar a virtude, buscar uma vida de auto-sacrifício, viver alegremente e na plenitude dos sacramentos não é algo que se possa fazer sozinho. É muito difícil. Precisamos da graça. Precisamos de companheiros. Precisamos ser ensinados e treinados. Por isso Deus nos deu a Igreja. Mesmo composta por seres humanos que frequentemente erram, ela é, não obstante, nossa Mãe e sempre será um dom.

A moderna teoria política ocidental tenta (ou finge tentar) abster-se de ensinar moralidade. Devido ao fato de nossa sociedade separar tão veementemente a verdade da ética, os legisladores modernos tendem a endeusar a privacidade individual e a autonomia. Mas ao fazê-lo, diminuem a importância social vivificadora da fé religiosa. Esta “neutralidade” legal não é tão neutra. Ao alimentar a soberania do indivíduo, nossos líderes públicos abastecem a auto-absorção do consumidor, a confusão moral e finalmente – na medida em que instituições de mediação como a família e as igrejas perdem as forças – o poder do Estado. A Reforma conduziu, em passos graduais, indiretos e de modo completamente involuntário, àquilo que Gregory chama de “Reino do Tanto-Faz”. É um mundo de hiperpluralismo, onde o significado é auto-inventado por milhões, e por isso a sociedade como um todo tem grande fome de significado.
Não é de se surpreender que os católicos achem estes dias de eleições tão desagradáveis. Ser católico em 2012, ou pelo menos no ocidente moderno, é viver no fim de uma longa história. Brad Gregory mostra-nos de modo eloquente um pouco do que isso significa. Nossos fracassos morais e nossas escolhas intelectuais tiveram consequências ao longo dos séculos. E agora nossa cultura está alquebrada.
Mas não precisava – e não precisa – ser daquele jeito. A Igreja ainda está aqui: ela ainda nos chama para o arrependimento, ainda nos convoca para os sacramentos. Neste Ano da Fé ela convida os católicos a uma grande e nova evangelização – não contra os companheiros cristãos de outras tradições, mas em amizade com aqueles nossos irmãos. A nossa ambição deve ser consertar uma cultura de descrença e sanar as políticas desumanas que surgem de tal cultura. E se não pudermos conseguir isso em acordo com nossos companheiros cristãos, então podemos pelo menos buscar viver o Evangelho com mais fé. Já é hora, aliás, há bastante tempo, de fechar a lacuna entre nossas palavras e nossas ações; entre nossa pregação e nossa prática.
O Professor Gregory nos lembrou, com uma graça e claridade fora do comum, que não podemos escapar de nosso passado, mas também não precisamos ser capturados por ele. Só por isso já vale a pena comprar o livro.

Charles J. Chaput, capuchinho franciscano, é arcebispo de Filadélfia.

Tradução William Bottazzini

Original em: http://www.thepublicdiscourse.com/2012/11/6902/



sábado, 13 de outubro de 2012

Escolas infectadas de marxismo


No Brasil, é obrigatória a freqüência dos adolescentes às escolas reconhecidas pelo Estado. Entretanto, nelas está sendo imposta uma educação de tipo socialista.
Cid Alencastro
Os regimes comunistas e assemelhados sempre tiveram empenho em transformar a mentalidade das novas gerações, a fim de que estas assimilem os princípios, doutrinas e práticas marxistas. E o lugar privilegiado para esse fim têm sido as escolas, nas quais professores esquerdistas ministram uma educação de acordo com os interesses do regime. Cuba é disso um exemplo na América Latina.
Tal programa de ação comunista desfigura evidentemente a natureza do ensino, porque a educação deve visar a reta formação do caráter e o desabrochar da personalidade do jovem, com vistas a que ele possa cumprir sua missão específica na sociedade e diante de Deus; e não impingir-lhe idéias deformantes, como as marxistas, que levam o adolescente a transformar-se num robô das planificações socialistas e a ter uma visão falseada e sectária da realidade.
Impasse marxista
Quadro do Che Guevara inspira as aulas numa escola em Varadero, Cuba
Mas, de outro lado, os esquerdistas estão diante de um problema quase insolúvel para realizar seus péssimos objetivos: as doutrinas socialistas em geral são profundamente contrárias à natureza humana, constituem uma camisa de força para o homem e a sociedade. Igualitarismo, propriedade comunitária, sociedade sem classes são fenômenos sociais monstruosos. Daí o empenho obsessivo dos regimes de esquerda numa antinatural “educação para o socialismo”.
Numa ordem religiosa, ao renunciar ao casamento e aos bens materiais por amor de Deus, as pessoas desapegam-se também de vantagens da natureza. Pode-se conceber desta forma o voto de pobreza voluntário e a renúncia a exercer algumas de suas qualidades naturais. Aí se forma uma tal ou qual igualdade, mas em vista de um bem superior, de ordem sobrenatural.
Querer impor a todos os homens de uma nação, por lei ou pela força policial, a renúncia a ter propriedade, a constituir família, queimando no altar do igualitarismo a possibilidade de desenvolver suas aptidões, é suma injustiça. Além de negar a cada um o que é seu, impede-se qualquer progresso social ou humano legítimo. É uma fábrica de revoltados e medíocres.
Reportagem elucidativa
Mostra uma reportagem da revista “Veja” (20-8-08) que, no Brasil, muitos professores e seus compêndios, com a justificativa de “incentivar a cidadania”, incutem nos alunos ideologias anacrônicas e preconceitos esquerdistas.
Numa aula de História no Colégio Anchieta, de Porto Alegre, o professor Paulo Fioravanti pergunta: “Quem provoca o desemprego dos trabalhadores?”. Respondem os alunos: “A máquina”. Indaga, mais uma vez, o professor: “Quem são os donos das máquinas?”. E os estudantes: “Os empresários!”. É a deixa para Fioravanti encerrar com a lição de casa: “Então, quem tem pai empresário aqui deve questionar se ele está fazendo isso”.
Há uma tendência prevalente entre os professores brasileiros de esquerdizar a cabeça das crianças. A doutrinação esquerdista é predominante em todo o sistema escolar privado e particular. É algo que os professores levam mais a sério do que o ensino das matérias em classe, conforme revela a pesquisa CNT/Sensus encomendada por “Veja”. Pobres alunos...
O advogado Miguel Nagib fundou há quatro anos, em Brasília, a ONG Escola Sem Partido,com o objetivo de chamar atenção para a ideologização do ensino na sala de aula. Nagib se incomodou com os sintomas do problema na escola particular de sua filha, então com 15 anos, onde o professor de História gostava de comparar Che Guevara a São Francisco de Assis... Foi ao colégio reclamar. Diz Nagib: “As escolas precisam ficar sabendo que muitos pais não concordam com essa visão”.
Estamos no século XXI, o comunismo destruiu a si próprio provocando miséria, assassinatos e injustiças durante o século passado. É embaraçoso que o marxismo-leninismo sobreviva em Cuba, na Coréia do Norte e nas salas de aula de escolas brasileiras, diz “Veja”.
A pesquisa
A pesquisa CNT/Sensus ouviu 3000 pessoas de 24 estados brasileiros entre pais, alunos e professores de escolas públicas e particulares. Os professores, em maior proporção, reconhecem que doutrinam mesmo as crianças, e acham que isso é sua missão principal — algo muito mais vital do que ensinar a interpretar um texto ou ser um bamba em matemática. Para 78% dos professores, o discurso engajado faz sentido.
Muitos professores brasileiros se encantam com personagens como o guerrilheiro argentino Che Guevara, que na pesquisa aparece com 86% de citações positivas, 14% de neutras; e zero, nenhum ponto negativo. Ou idolatram personagens sem contribuição efetiva à civilização ocidental, como o educador Paulo Freire, autor de um método de doutrinação esquerdista disfarçado de alfabetização.
“Eu e todos os meus colegas professores temos, sim, uma visão de esquerda — e seria impossível isso não aparecer em nossos livros. Faço esforço para mostrar o outro lado”, diz a geógrafa Sonia Castellar, que há 20 anos dá aulas na faculdade de pedagogia da Universidade de São Paulo (USP).“Reconheço o viés esquerdista nos livros e apostilas, fruto da formação marxista dos professores”, diz Miguel Cerezo, responsável pelo conteúdo publicado nas apostilas do COC (antigo “Curso Oswaldo Cruz”).
O sucesso do homeschooling
O Estado arvorar-se em educador único da juventude é imoral, uma vez que, segundo ensina a doutrina católica, a educação das crianças compete à família e à Igreja, e só subsidiariamente ao Estado. Ou seja, na melhor das hipóteses o Estado deve ser um auxiliar da família e da Igreja, quando necessário e requisitado para tal.
A infeliz situação atual do Brasil tem seu precedente na Revolução Francesa, durante a qual o sanguinário Robespierre defendia que “a pátria tem o direito de educar seus filhos; ela não pode confiar essa função ao orgulho das famílias nem aos preconceitos dos particulares” (Hippolite Taine, apud Le Livre Noir de la Révolution Française, Cerf, Paris, 2008 p. 851).
É muito salutar a prática que vem sendo adotada em vários países, de promover ou ao menos permitir a existência da chamada homeschool (algo como escola da família), em que famílias se organizam e criam suas próprias escolas para dar uma educação adequada a seus filhos. Ou então os colocam em estabelecimentos de ensino de pequenas proporções, criados para esse fim por associações nas quais os pais confiam.
De modo geral, os alunos das homeschools têm estado entre os primeiros classificados nos exames vestibulares das universidades. Exemplo característico é, nos Estados Unidos, aSaint Louis de Montfort Academy, patrocinada pela TFP norte-americana.

sábado, 6 de outubro de 2012

O boçal engajado e a máquina de devorar consciências


Abaixo, texto de Sidney Silveira, pessoa que muito admiro e que pode ser considerada como uma das mentes mais brilhantes do catolicismo no Brasil.



Sidney Silveira
A falta continuada de contato com coisas belas e elevadas mutila a alma. Os dois sintomas mais evidentes de que uma pessoa chegou a tal dramático estado são os seguintes: extasiar-se com tolices e ser indiferente ao sublime. Não raro, são sintomas concomitantes num mesmo sujeito — que se superexcita com ninharias, futilidades ou torpezas, enquanto se mostra apático diante de qualquer beleza de ordem superior. Trata-se de alguém capaz de se entediar mortalmente ouvindo uma sinfonia de Bach ou lendo um parágrafo de Vieira, ao passo que sente arrepios de entusiasmo beatífico ao ouvir uma rima bem feita cantada em ritmo sincopado.
Estamos falando de um arquétipo contemporâneo: o boçal engajado. Pessoa de espírito lânguido, em geral ávida consumidora de produtos culturais alternativos cuja esterilidade artística pode ser medida pela tola pretensão de originalidade. Não se trata, propriamente, de um iletrado ou de alguém oriundo das camadas sociais menos favorecidas. Não: o boçal engajado é homem de classe média, habitué de feiras literárias, freqüentador de bienais de livros, encontros artísticos performáticos e exposições. Tem interesse por leitura, sim, mas sem jamais arriscar-se em autores que ou exijam de sua inteligência um maior esforço abstrativo, ou fujam ao limitado universo estético-político em que se embrenhou.
É, no fundo, uma personalidade timorata que precisa apoiar-se na opinião de grupos ou facções, em meio às quais se sente encorajado a manter o dedo em riste para o mundo, sobretudo como crítico da cultura e da política. As suas convicções são, pois, tanto mais altissonantes quanto mais estejam protegidas pela coletividade a que aderiu apaixonadamente. Palavras gastas como “reacionário” e “careta” ainda são recorrentes nos lábios do boçal engajado — em geral um sujeito simpático a ideologias socialistas e que defende todos os tópicos da agenda globalista contemporânea: aborto, casamento homossexual, ecumenismo, marcha das vadias, aquecimento global, etc. E ai de quem esboçar objeções ao que ele jura de pés juntos serem convicções suas!
Em verdade, o boçal engajado nem de longe imagina ser o produto acabado da sociedade orwelliana em que nos coube viver. É, pois, um autômato a repetir slogans, palavras de ordem e conceitos produzidos pela engenharia social que se apossou da sua consciência, não obstante dando-lhe a febril ilusão de liberdade, capacidade decisória e autonomia espiritual. Neste contexto, malgrado a sua patente curiosidade — medida pela busca constante por se informar até a embriaguez acerca de coisas “interessantes”—, a imersão do boçal engajado em baladas culturais é o fiel retrato de uma candente incapacidade reflexiva, pois o padrão mental em que sucumbe está enquadrado nas bitolas pré-moldadas por certa indústria do entretenimento, voltada a públicos com pretensões vanguardistas e libertárias.
Mentalidade adubada no espírito libertino procedente dos iconoclastismos revolucionários da década de 60, ele considera verdadeiramente geniais autores como Marcuse, Lacan, Deleuze, Sartre, Paulo Freire e diversos outros conformadores das últimas gerações. Mas se porventura o inquirimos com o intuito de aquilatar o seu nível de conhecimento a respeito da obra destas ilustres figuras, constatamos não passar de leituras esparsas de pensamentos ou conceitos isolados, geralmente feitas de segunda ou terceira mão, ou seja: em livros de comentadores que repetem os “dogmas” dos seus ídolos como mantras irredutíveis a qualquer análise um pouco mais criteriosa.
Se o boçal engajado ouve, por exemplo, um lacaniano dizer que o único e verdadeiro amor de uma mãe pelo seu filho acontece quando ela morre no parto, acha isto de uma criatividade sem tamanho. Ou então se vê um sartreano proclamar que a liberdade do homem é construir o seu próprio ser, e que o “Em-si” muitas vezes decai num processo de nadificação em direção ao “Para-si”, cai fulminado de amor místico diante do Ininteligível. Tais frases são edulcoradas numa espécie de psicodélica beberagem, e depois saboreadas, sorvidas, degustadas pelo boçal engajado como um olímpico manjar. A idéia que ele faz da filosofia é, como se pode deduzir, a de doidões fumando ópio e exercitando a inebriante debilidade das suas próprias inteligências.
A irreligião do boçal engajado é um bloco de conceitos auto-referentes, contemporaneamente pinçados dos livros de um Richard Dawkins ou de um Michel Onfray, autores da moda cuja leitura, de sua parte, é tão ou mais superficial do que a que teve a oportunidade de experimentar dos gurus acima mencionados. Portanto, quando ateu, o boçal engajado é o materialista que usa o espírito para perpetrar toda sorte de negações, a ponto de ter o próprio bom senso esmagado pela massa assimétrica de idéias avulsas que, repetidas à exaustão, formam uma imagem inexpugnável em sua mente: a de que a religião é algo irracional. Imaginemos, pois, o que acontece se algum desavisado lhe mostra que uma parcela grandíssima das maiores criações humanas — na filosofia, na música, na arquitetura, na pintura, na escultura, no direito, na poesia, na ciência, etc. — provém do mais profundo espírito religioso...
O fragor de sua inépcia mental tem como invólucro um insano otimismo, sobretudo com relação à reforma política das sociedades a partir das idéias que defende — as quais, de antemão, elevou à condição de verdades universais intocáveis. Assim, com a psique emparedada em tal universo, não é tão raro o boçal engajado subir de degrau na escala da esquizofrenia e se transformar num boçal engajante, ou seja: alguém com discurso violento a arregimentar prosélitos e incautos, não raro apelando ao expediente da detração dos adversários, aos quais são aplicadas as etiquetas que ele julgar apropriadas, conforme as situações se foram apresentando.
Quando apóia campanhas de desarmamento, o boçal engajado se sente um Mahatma Gandhi redivivo a pregar a não-violência, enquanto consome e propagandeia todo tipo de filme, música ou literatura em que a violência beira o infernal, alimentando as potências superiores de sua alma — inteligência e vontade — com imagens prenhes das mais macabras e hediondas possibilidades humanas, que, expostas “artisticamente”, acabam por se difundir nas sociedades. Acontece que, como entronizou a liberdade de expressão como ditame fundamental de sua febril existência, o boçal engajado quebra lanças quando, por exemplo, alguma autoridade sensata proíbe a exibição de películas como A Serbian Film, na qual a mais inocente cena é a do estupro de um bebê que acaba de sair da barriga de sua mãe.
Em síntese, a mente deste opiniático personagem é uma selva impossível de debastar, porque foi alimentada com todo tipo de filosofias da insanidade e de estéticas surreais — em que o “belo” é uma espécie “antitranscendental” do ser, pois tem pouco ou nada a ver com a realidade das coisas e do espírito. Daí o fato de o boçal engajado não conseguir perceber, por exemplo, que uma sociedade em que nada é censurável está fadada à autodestruição; não será sequer uma “sociedade”, na acepção da palavra, mas o vale-tudo hobbesiano que acaba por deflagrar a luta de todos contra todos. Com a advertência de que, em Hobbes, este é absurdamente o estado “natural” do homem, mas na verdade tipifica o estágio em que a natureza humana se desfez quase por completo, sobrando-lhe apenas a casca de suas reais potências.
O boçal engajado é pan, metro, supra, homo, meta, pluri, hiper-sexual. Noutra palavras: a sua capacidade de protagonizar façanhas eróticas jamais vistas desde a criação do mundo é simetricamente proporcional à sua incapacidade de ordenar a mente. E isto não é uma metáfora, pois a neurociência tem mostrado o quanto a devoção à pornografia e a um erotismo exagerado causam uma pavloviana super-memória — canalizada apenas para dar vazão ao sexo transformado em vício. Resultado: a estimulação mental quase sem descanso ao sexo causa graves deficiências no córtex frontal, área do cérebro ativada quando o homem engendra raciocínios lógicos ou cognições mais complexas, toma decisões importantes, organiza seu discurso, etc.[1] Daí as freqüentes depressões, insatisfações existenciais, dificuldades de concentração, ansiedade e falta de motivação em uma pessoa com o perfil do boçal engajado, que metaforicamente ejacula o cérebro nosamsara pornográfico em que jaz.
Haveria muitas outras características a destacar a respeito deste arquetípico homem do nosso tempo, como por exemplo a sua maior propensão a ser manipulado pelas técnicas de propaganda política — tão usuais desde que o mundo se transformou uma sociedade de massas. Mas encerremos este texto apenas observando  que o boçal engajado é, fundamentalmente, a subespécie de um boçal muito mais refinado, e por isso superiormente deletério: o boçal liberal. Este último é a indômita e caótica mescla de várias idéias revolucionárias norteadoras dos séculos XX e XXI.
Entre outras coisas,  o boçal engajado é irreligioso, como acima apontamos, mas o boçal liberal é o corruptor dos princípios da religião e da civilização, com a  promessa de que, se o homem contemporâneo comer dos  frutos por ele oferecidos, será livre, autônomo, poderoso. O seu primeiro princípio é retirar Deus das sociedades, na forma da lei, defendendo que os planos material e espiritual são realidades separadas por um abismo infinito. Ora, se o homem pode governar-se autonomamente, por que também não o podem as sociedades?
Assim pensa este o sujeito que, consciente ou inconscientemente, opera a máquina de devorar consciências concebida pelo espírito maligno que — segundo dizem — reside entre o tempo e a eternidade.
E hoje atende pelo nome de 666.
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1-  Recomenda-se, para entender este mecanismo, a leitura do site Your Braind on Porn, onde há uma excelente bibliografia indicada. Nesta mesma linha, sobre o processo de estupidificação a partir das deformações da sexualidade humana, um grande amigo recomenda o livro Sexual Sabotage, de Judith Reisman.