Este espaço tem como objetivo defender a Igreja e o Papa contra as heresias em voga, bem como compartilhar pensamentos, orações e meditações e, por fim, esclarecer dúvidas referentes ao catecismo, à doutrina ou à história da Igreja.
EXTRA ECCLESIAM NULLA SALUS
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
domingo, 10 de fevereiro de 2013
sábado, 9 de fevereiro de 2013
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
O patriarca Cirilo de Moscou declara: “É pelo número de abortos que se pode julgar o estado moral de uma sociedade”.
O
patriarca Cirilo de Moscou visitou no dia de Natal, em data comemorada segundo
o calendário antigo, a maternidade de uma clínica de Moscou. “Quando, em uma
maternidade, o médico pergunta: ‘Interromperemos a gravidez?’, ele leva a
mulher, através desta pergunta, a proceder a um aborto. Estou convencido de que
se trata de um crime”, disse o patriarca Cirilo, que se dirigia às pacientes e
aos colaboradores da maternidade. “Não é apenas de um crime moral, mas acredito
que se trata também de um crime contra o homem, contra a pessoa. Pois o Senhor
predestinou a mulher a colocar uma criança no mundo. Esta é, pode-se dizer, sua
finalidade principal, sem a qual não poderia existir o gênero humano. E se,
pela nossa vontade perversa, intervimos, usurpamos o plano divino para a
mulher; se nos esforçarmos para modificar este plano, cometeremos um erro
imenso, destruindo a pessoa humana e as relações na sociedade (...). É pelo
número de abortos que se pode julgar o estado moral de uma sociedade. Segundo
estes indicadores, a Rússia, infelizmente, encontra-se à cabeça dessa situação em
meio a outros países”, constatou o patriarca, agradecendo à equipe da
maternidade, porque “nesta instituição, não se leva as futuras mamães a
interromper a gravidez”. “Se em cada maternidade persuade-se a mamãe de que é
necessário fazer com que a criança nasça; que, graças à ciência contemporânea,
os médicos farão de tudo para que a criança venha ao mundo e ajudarão a mamãe a
cuidar da criança, mesmo no caso de a saúde desta apresentar problemas, então,
acredito que o clima moral em nossa sociedade mudará da mesma forma”, continuou
o patriarca. Respondendo às perguntas dos jornalistas após sua visita, o
patriarca Cirilo declarou que havia “aproximadamente 50 abrigos para mulheres
na Federação da Rússia”. As ocupantes destes abrigos são, em parte, jovens
mamães que conseguiram recusar-se a proceder ao aborto, mas que, ao fazê-lo,
encontraram-se em condições difíceis de existência. Nestes abrigos, as mulheres
“podem permanecer por alguns anos. Nestes locais são ajudadas a se inserirem na
vida e recebem assistência financeira. Além disso, abriu-se uma série de centros
de consultas para mulheres grávidas. Se a futura mãe emite desde cedo o desejo
de interromper a gravidez, consultores pertencentes à Igreja começam a
trabalhar com ela. Eles ajudam, na maior parte dos casos, a preservar a vida da
criança. Colaboramos neste domínio com as instituições do Estado e com as
forças sociais, pois consideramos que se trata de uma direção importante de
trabalho. Faremos o nosso melhor para desenvolvê-la”, sublinhou o primado da
igreja ortodoxa russa.
Tradução: William Bottazzini
Original em: http://www.orthodoxie.com/actualites/le-patriarche-cyrille-de-moscou-declare-cest-au-nombre-des-avortements-que-lon-peut-juger-de-letat-moral-de-la-societe/
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
O novo cura d’Ars da Marselha agnóstica multiplica os fiéis em um bairro islâmico
Revolucionou a igreja francesa: pegou
uma paróquia do centro de Marselha que ia ser fechada e agora não para de
batizar adultos.
Javier
Lozano/ReL.
“Trazer
tantas almas para Deus quanto seja possível”. O padre Michel Marie Zanotti
Sorkine levou a sério esta frase que se tornou o seu principal objetivo como
sacerdote.
Assim
o faz depois de ter transformado uma
igreja que estava para ser encerrada e demolida na paróquia com mais vida de
Marselha. Seu mérito é ainda maior pelo fato de o templo estar situado em um
bairro com uma enorme presença de muçulmanos em uma cidade onde menos de 1% da população é católica
praticante.
Era músico de sucesso
A
chave para este sacerdote que anteriormente fora músico de sucesso em diversos cabarés de Paris e Montecarlo é a “presença”;
tornar Deus presente no mundo de hoje. As
portas de sua igreja estão todos os dias totalmente abertas e ele se veste
com batina, porque “todos, cristãos ou não, têm o direito de ver um sacerdote
fora da igreja”.
De 50 paroquianos por Missa a 700
Seu
balanço é impressionante. Quando chegou em 2004 à paróquia de São Vicente de
Paulo do centro de Marselha a igreja
permanecia fechada durante a semana e a única missa dominical era celebrada
na cripta. A esta missa compareciam apenas 50 pessoas.
Como
ele próprio conta, a primeira coisa que fez foi abrir o templo todos os dias e
celebrar no altar-mor. Agora a igreja
permanece aberta quase o dia todo e faltam cadeiras extras para acomodar os
fiéis. Mais de 700 todos os domingos, e o número é ainda maior nas grandes
festas. Quase 200 adultos foram
batizados desde que chegou, 34 nesta última Páscoa. Tornou-se um fenômeno
de massas não apenas em Marselha, mas
também em toda França, com reportagens da mídia de todo o país, atraída
pela quantidade de conversões.
O novo cura d’Ars da Marselha agnóstica
Uma
das principais iniciativas do padre Zanotti Sorkine para revitalizar a fé da paróquia e conseguir tal afluência de pessoas
de todas as idades e condições é a
confissão. Antes da abertura do templo, às 8 da manhã, já há pessoas
esperando na porta para poder receber este sacramento ou para pedir conselhos a este sacerdote francês.
Como
relatam seus paroquianos, o padre Michel
Marie está boa parte do dia no confessionário, muitas vezes até depois das
onze da noite. E se não estiver lá, pode ser encontrado vagando por seus
corredores ou na sacristia, pois sabe da necessidade de que os sacerdotes estejam sempre visíveis e
próximos para sair em socorro de todo aquele que necessitar.
A igreja sempre aberta
Outra
característica sua bastante destacada é a de ter o templo permanentemente
aberto. Isto gerou críticas por parte de sacerdotes de sua diocese, mas ele
afirma que a missão da paróquia é “permitir
e facilitar o encontro do homem com Deus” e o padre não pode ser um impedimento.
O templo deve favorecer o nexo com
Deus
Em
uma entrevista televisiva afirmava resolutamente que “se hoje em dia a igreja
não está aberta é porque de certa maneira não temos nada a propor; que tudo que
oferecemos acabou. Ao passo que enquanto a igreja está o dia inteiro aberta, as
pessoas vêm. Praticamente nunca tivemos problemas com roubos. Há pessoas que
rezam e garanto que esta igreja se transforma em um instrumento extraordinário que favorece o encontro entre a alma e
Deus”.
Era a última oportunidade para
salvar a paróquia
O
bispo enviou-o a esta paróquia como última oportunidade para salvá-la e o padre
levou bastante a sério a recomendação de abrir as portas. “Há cinco
portas sempre abertas e assim todo mundo
poder ver a beleza da casa de Deus”. 90.000 carros e milhares de transeuntes
e turistas encontram a igreja aberta e com os sacerdotes às vistas. Este é o
seu método: a presença de Deus e de seu
povo no mundo secularizado.
A importância da liturgia e da
limpeza
E
aqui chegamos a outro ponto-chave para este sacerdote. Tendo acabado de chegar
e com a ajuda de um grupo de leigos, renovou
a paróquia, limpou-a e deixou-a resplandecente. Para ele este é outro
motivo pelo qual as pessoas optam por voltar à igreja. “Como querer que alguém creia que Cristo vive em um lugar se não estiver
tudo impecável? É impossível”.
Por
isso, as toalhas do altar e do Sacrário têm um branco imaculado. “O detalhe é que
faz a diferença. Com o trabalho bem feito, damo-nos conta do amor que
manifestamos aos seres e às coisas”. E assegura de modo taxativo: “Creio que
quando se penetra em uma igreja onde não está tudo impecável é impossível crer
na Presença gloriosa de Jesus”.
A
liturgia torna-se o ponto central de seu ministério e muitas pessoas foram
atraídas a esta igreja pela riqueza da Eucarística. “Esta é a beleza que conduz a Deus”, afirma.
As
missas estão sempre cheias e nelas há procissões solenes, incenso, cânticos cuidados...
Tudo feito detalhadamente. “Tenho um cuidado especial na celebração da Missa
para mostrar o significado do sacrifício
eucarístico e a realidade da Presença”. “Não se concebe a vida espiritual sem
a adoração do Santíssimo Sacramento e sem um ardente amor por Maria”, razão
pela qual introduziu a adoração e a récita diária do Rosário dirigida por
estudantes e jovens.
Seus sermões são também bastante esperados.
Aliás, seus paroquianos têm acesso a eles através da internet. Neles o padre sempre chama à conversão,
pela salvação do homem. Em sua opinião, a falta desta mensagem na Igreja de
hoje “é talvez uma das principais causas da indiferença religiosa que vivemos
no mundo contemporâneo”. Antes de tudo deve-se ter clareza na mensagem
evangélica. Por isso adverte-nos contra
a frase tão batida que diz “todos vamos para o Céu”. Esta é para ele “outra
canção que pode nos enganar”, pois se deve lutar, começando pelo sacerdote,
para se chegar ao Paraíso.
O cura de batina
Se
existe algo que distingue este alto sacerdote em um bairro de maioria muçulmana,
é a sua batina, que sempre veste, e o rosário entre as mãos. Para ele é
essencial que o padre possa ser
distinguido entre as pessoas. “Todos os homens, começando por aquele que
cruza o umbral da igreja, têm o direito de se reunir com um sacerdote. O serviço que oferecemos é tão essencial
para a salvação que nossa visão deve tornar-se tangível e eficaz para
permitir esta reunião”.
Deste
modo, para o padre Michel, o sacerdote o é 24 horas por dia. “O serviço deve
ser permanente. Que pensaria você de um marido que, em seu caminho para o
escritório pela manhã, tirasse sua aliança?”.
Neste
aspecto é muito insistente: “quanto àqueles que dizem que o hábito cria distância, deve-se dizer que não conhecem o
coração dos pobres, para os quais, o que se vê diz mais que o que se diz”.
Por
último recorda um detalhe importante. A
primeira coisa que os regimes comunistas faziam era eliminar o hábito
eclesiástico, sabendo da importância da comunicação da fé. “Isto merece a
atenção da igreja da França”, afirma.
No
entanto, sua missão não é desenvolvida unicamente no interior do templo, pois ele também é um personagem conhecido em todo o bairro, até mesmo pelos
muçulmanos. Toma café da manhã nos cafés
do bairro; ali fala e se reúne com os fiéis e com as pessoas não praticantes.
Chama-o de sua pequena capela. Assim conseguiu que muitos vizinhos sejam agora
assíduos da paróquia e transformaram esta igreja de São Vicente de Paulo em uma
paróquia totalmente ressuscitada.
Uma vida peculiar: cantor de
cabarés
A
vida do padre Michel Marie sempre esteve em movimento. Nasceu em 1959 e tem
raízes russas, italianas e corsas. Aos
13 anos perdeu sua mãe, o que lhe causou uma “ruptura devastadora” e o fez
unir-se ainda mais à Virgem Maria.
Por
ter um grande talento musical, compensou a perda de sua mãe com a música. Em
1977, após ser convidado a tocar no café Paris de Montecarlo, mudou para a
capital onde começou sua carreira de
compositor e músico de cabarés. Todavia a chamada de Deus era mais forte e
em 1988 entrou para a ordem dominicana por causa de sua devoção a São Domingos.
Esteve com eles por quatro anos, quando, diante do fascínio por São Maximiliano
Kolbe, passou para a ordem franciscana, onde também permaneceu por quatro anos.
Foi
em 1999 que foi ordenado sacerdote para a diocese de Marselha com quase
quarenta anos. Além de músico, agora dedicado a Deus, também é escritor de sucesso, com seis livros publicados, e poeta.
Tradução:
William Bottazzini
Texto
original: http://www.religionenlibertad.com/articulo.asp?idarticulo=25434.
*Todos
os negritos são do texto original.
sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
Nota sobre a gravação das aulas
Gostaria de informar que não abandonei o projeto de gravar um curso completo de história da Igreja, apenas o interrompi por um momento porque precisava cuidar de outras coisas. Retomá-lo-ei assim que possível.
Contando com a oração de todos,
William
Contando com a oração de todos,
William
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
A vida no “Reino do Tanto-Faz”
Por Arcebispo Charles J. Chaput
A Reforma, mesmo sem querer, desfez
a síntese medieval entre a fé e a razão. Atualmente nós, de modo romântico,
buscamos uma vida espiritual livre de qualquer autoridade e tradição, ou então,
de modo racionalista, buscamos a verdade como se os seres humanos fossem
autônomos e auto-suficientes.
Virá
o dia em que os católicos não poderão apoiar nenhum dos principais partidos
políticos americanos. Alguns acham mesmo que este dia já chegou. Alasdair
MacIntyre, o filósofo de Notre Dame, argumentou-o nestas linhas há alguns anos,
explicando o porquê de não se poder votar nem em um democrata nem em um
republicano.
Desconheço
o que o Prof. Macintyre fará este ano. De minha parte, bem como da parte de meus
irmãos no episcopado na Pennsylvania, acredito ser importante votar hoje em
cada dia de eleição. Uma consciência católica bem formada pode escolher
sabiamente entre os candidatos. Este ano estão em jogo assuntos de grande importância.
Não
obstante, as eleições são tempos difíceis para os católicos sérios. Se nós
acreditamos na tradição encíclica – da Rerum
Novarum a Evangelium Vitae; da Humanae Vitae a Caritas in Veritate – então não podemos nos sentir confortáveis em
nenhum partido político. Os católicos dão prioridade ao direito à vida e à
integridade da família como pedras angulares da sociedade. Mas também temos
muito que dizer a respeito da economia e da imigração, da dívida desenfreada,
do desemprego, da guerra e da paz. Por isso que os bispos norte-americanos
notaram recentemente que “no ambiente atual, os católicos podem sentir-se
politicamente cassados, com a sensação de que nenhum partido e poucos
candidatos compartilham plenamente nosso compromisso exaustivo para com a vida
humana e a dignidade”.
Qualquer
cristão pode ser tentado a entrar em desespero. Mas a verdade é que sempre as
coisas foram como são. Como escrevera o autor da Epístola aos Hebreus, “não
temos aqui cidade permanente” (Heb 13:14). Agostinho admirava certas virtudes
pagãs, mas foi ele quem escreveu a Cidade
de Deus para nos lembrar que em primeiro lugar somos cristãos e depois
cidadãos do mundo. Precisamos aprender – às vezes de forma dolorosa – a deixar
nossa fé castigar os nossos desejos particularistas.
Nos
Estados Unidos, as nossas tensões políticas derivam dos nossos problemas
culturais. Evidentemente existem exceções, mas em nossos dias nossa cultura antepõe
frequentemente direitos a deveres, satisfação individual à comunidade e dúvida
à fé. Com efeito, aquilo que nos une é nosso direito de ficar perambulando
pelos shoppings e de comprar mais porcaria. É difícil viver uma vida de
virtudes quando tudo em torno de nós, na mídia e mesmo nas vidas de colegas e
pessoas próximas, a disciplina, a moderação e o sacrifício de si mesmo parecem
irrelevantes.
Brad
Gregory, o historiador de Notre Dame, tenta mostrar como nós chegamos a este
ponto em seu recente livro The Unintended Reformation: How a Religious Revolution
Secularized Society (Tradução
livre: A Reforma não desejada: como uma revolução religiosa secularizou a
sociedade). Suas respostas são surpreendentes e, para alguns leitores,
controversas. Porém seu livro também é importante – e a sua capacidade de
explicar as coisas é brilhante.
Gregory alega que o relativismo hodierno e o culto
do consumidor – algo que ironicamente é chamado de “os bens da vida” – possui
raízes que remontam há muitos séculos. O historiador não perde tempo com
nostalgias de uma era de ouro que nunca existiu. Contudo ele realmente mostra,
com uma clareza instigante, que o no século XVI os reformadores protestantes
involuntariamente puseram em marcha certas idéias que acabaram por viabilizar o
egocentrismo atual.
Gregory também mostra que se por um lado os
reformadores acenderam o pavio, os católicos medievais, por outro, haviam
preparado a dinamite. O laicato medieval era, muito frequentemente,
profundamente piedoso. E justamente porque era piedoso é que eles se lembravam
quando seus líderes não o eram. Leigos piedosos tinham desejo de reforma
justamente por causa de sua devoção. O clero da Idade Média tardia também
continuamente pregava uma coisa e fazia outra. Avareza, simonia, nepotismo,
luxúria, liberdade sexual e cisma na hierarquia criaram uma lacuna intolerável
entre o ensinamento cristão e a prática.
Muitos católicos trabalhavam para uma reforma a
partir de dentro. Alguns tiveram sucesso. Franciscanos, dominicanos e cistercienses
devem suas origens à reforma medieval. Humanistas como Erasmo e Thomas More fizeram
parte de uma comunidade internacional de correspondências que estava
determinada a renovar a vida cristã a partir de seu interior. Santos como
Catarina de Sena e Bernardo de Claraval falaram a verdade para os poderes
eclesiásticos.
Mas uma diferença crucial separava estas vozes
católicas dos reformadores protestantes: os católicos acreditavam que os
ensinamentos da Igreja estavam corretos. A única coisa de que ela precisava era
verdadeiramente vivê-los. Os católicos acreditavam que a presença de Cristo na
Eucaristia e nos outros sacramentos, nas Escrituras, nos santos e nas doutrinas
históricas da Igreja oferecia um estilo de vida cristão autêntico, que abrangia
todos os âmbitos da vida, suficiente para santificar a existência humana no
caso de esta estar realmente envolta e esmagada pelos seus abusos.
Os
protestantes, ensinando a sola scriptura,
jogaram fora muitas dessas coisas. Eles acreditavam que o depósito e a estrutura
da fé católica estavam equivocados já nos seus princípios; que Cristo não mais
habitava na Igreja Católica; e que apenas a Escritura comunicava a vontade de
Deus. A sola scriptura mudou tudo na
Cristandade ocidental. “A Igreja” tornou-se “as igrejas” e o processo,
inadvertidamente, mas de modo irrefreável, abasteceu a soberania individual e o
relativismo.
Gregory
diz muitíssimas coisas duras sobre os resultados da sola scriptura. Porém, antes de nos felicitarmos por termos evitado
aquele erro, nós católicos devememos, primeiramente, refletir longamente sobre
o porquê de a vida cristã ter dado oportunidade para uma confusão tão
destrutiva. Muitíssimos líderes católicos do clero – especialmente, mas de
nenhum modo apenas eles – viviam a fé que professavam com um cinismo visível. A
primeira lição de Gregory, pois, é que o modo pelo qual nós vivemos a nossa
vida interessa e muito. O fracasso em se praticar a caritas tem consequências para nossa unitas. Era assim naquele tempo e é assim ainda hoje.
O
Professor Gregory, contudo, não para por aí. Ele está apenas aquecendo.
O
enfoque dos reformadores no sola
scriptura buscava fechar a lacuna entre a pregação cristã e a prática. Mas
tal princípio falhou porque acabou por abrir uma caixa de Pandora de novos
problemas. Interpretações rivais da Escritura, na verdade, intensificaram a
confusão. Luteranos liam a Escritura de uma maneira; já os calvinistas, de
outra. Havia ainda diversos tipos de anglicanos, anabatistas, batistas,
puritanos, pietistas, metodistas e quakers que divergiam em incontáveis casos.
Gregory
também menciona os filósofos seculares que acabaram dando continuidade a tudo
isso. No lugar da sola scriptura, o
iluminismo oferecia a sabedoria: a sola
ratio. De Descartes, passando por Hobbes, Spinoza, Rousseau, Kant, Hume,
Hegel e outros, até Heidegger, Levinas e seus sucessores, deu-se início ao
grande ‘fim da linha’ para a religião revelada e suas tradições e a uma busca
da verdade que estivesse fundamentada apenas na razão humana.
Mas
Gregory mostra que os filósofos não se saíram muito melhor que os reformadores.
Ideias rivais proliferavam. A verdade e as respostas para as grandes questões
da vida continuaram a ser debatidas. Mais recentemente, Nietzsche, Foucault e
os pós-modernistas foram honestos o suficiente para afirmá-lo, e com isso
desprezavam tanto o iluminismo quanto o cristianismo. O resultado disso pode
ser visto no espírito de ironia e ceticismo difundido hoje.
Conforme
Gregory explica, o caos metafísico de nossa cultura contribuiu para a formação
de nossa política, economia e ciência. Não há nada na vida cotidiana que tenha
ficado intacto.
Politicamente
os líderes da Reforma voltaram-se para os governantes temporais para se
protegerem do papado, alimentando com isso o crescimento do estado secular
moderno. Papas e bispos, que outrora haviam sido um contrapeso para o poder
secular, descobriram que na nova ordem eles possuíam muito menos influência
sobre os reis. Os primeiros Estados modernos passaram décadas em guerra uns
contra os outros, evidentemente devido a diferenças teológicas. Mas na verdade,
igrejas e Estados usavam-se mutuamente para os seus fins eminentemente
práticos. Os Estados agarraram a chance de expandir o seu poder e o clero
buscava proteção e apoio da parte do Estado.
O
resultado foi um banho de sangue e a exaustão tanto do ponto de vista militar
quanto do ponto de vista metafísico. A vida intelectual e a prática religiosa
da Idade Média haviam estado incrivelmente unidas. Em um monastério ou em uma
universidade escolástica, a busca pelo saber integrava-se organicamente com a
busca pela virtude. Mas as novas universidades do período pós-Reforma cada vez
mais passavam do controle eclesiástico para o secular. Colocaram a teologia em
uma faculdade separada e de pouco importância, dispensando suas energias para o
treinamento de profissionais e cientistas que pudessem servir às ambições do
crescimento comercial dos Estados.
Ao
ler Gregory, podemos ver que grande parte da história da primeira época da
Idade Moderna nada mais é do que a história de como o mercantilismo e o mercado
suplantaram a Igreja como forças de ordem da vida comum. As primeiras
experiências no campo da tolerância religiosa foram claramente defendidas por
razões comerciais. Desgastados com disputas religiosas que pareciam eternas, os
burgueses do início da República Holandesa pararam de requerer o título de
membro de sua igreja oficial (protestante) e aceitavam de bom grado mercadores
e artesãos de todas as crenças. Inglaterra, América e outros Estados seguiram o
exemplo. Eles reconheciam a religião como um bem público, mas reduziram-na, com
efeito, a uma escolha privada, enquanto que – na prática – reverenciavam o
comércio como um objetivo nacional.
A
Reforma também teve implicações na ciência e na tecnologia. Com graus variáveis
de autoconsciência, eles mudaram o modo pelo qual a cultura ocidental concebia
a natureza e todo o mundo material.
Por
exemplo: ainda hoje, mesmo que os católicos sejam formados pelos sacramentos,
nós continuamos vivendo em um mundo material cheio da presença de Deus. Tanto
para o católico medieval quanto para o moderno, o mundo material é um meio para
a graça divina. Já o desdém dos reformadores para com as obras e os sacramentos
criou, inevitavelmente, uma fé mais voltada para o ego, uma experiência
abstrata.
Como
detalha Gregório, quando os sacramentos deixam de ser patrimônio público para
se tornarem práticas privadas, a mudança cultural torna-se inevitável. Os
ocidentais costumavam crer que o mundo fazia parte de um cosmos espiritual, mas
após a Reforma, aquela confiança deixou de ser compartilhada. Consequentemente,
os mercadores modernos, as universidades e os intelectuais desenvolveram o
hábito de ver a matéria como espiritualmente inerte, o que quer dizer que ela
está disponível para ser manipulada a fim de que possa servir aos desejos
humanos.
Mas
a ciência moderna nunca provou e nunca poderá provar empiricamente que a
natureza é espiritualmente inerte. Enquanto os secularistas (ou
fundamentalistas religiosos) insistirem nisso, eles serão ideólogos, não cientistas.
Os católicos sempre acreditaram que Deus age nas causas naturais e através
delas. Ele revelou-Se a nós em Seu Filho, Jesus Cristo. Porém Deus também
existe de forma absoluta fora da Criação. Ele é completamente Outro. Ele não é
meramente uma Fada Celeste maior ou o Super-Ser nos céus. Em outras palavras, o
Deus cristão não é o tipo de Deus que pode ser “refutado” por algo que possamos
ver sob o microscópio ou através de um experimento. Embora muitos hoje,
obrigados para com uma metafísica anti-sacramental, insistam que deva haver um
conflito entre a ciência e a religião. Isso é falso. E não precisava ser assim.
De
certa forma, o livro de Gregory poderia receber este subtítulo: “a crise de fé
no ocidente e a razão”. A reforma – de modo sincero, zeloso e com as melhores
intenções – liberou as forças centrífugas que desfizeram a síntese medieval entre
a revelação e a filosofia. Desde então, nossa cultura despencou de uma morte
intelectual para outra, ou buscando romanticamente uma vida espiritual livre de
qualquer autoridade e tradição ou querendo encontrar racionalmente a verdade,
como se os seres humanos fossem autônomos e auto-suficientes. A Reforma nos
custou o grande casamento ocidental que havia entre a fé e a razão – ou seja, a
confiança compartilhada de que a fé é pessoal, mas também comum, e de que a
razão não é contrária à fé, mas a aumenta.
Nesta
história, os católicos cometeram erros terríveis e que custariam caro. Conforme
o que ficou dito, a Reforma aconteceu por uma boa razão. Sempre que o Professor
Gregory argumenta, ele o faz com equilíbrio, com respeito por todas as partes e
com detalhes históricos apoiados em diferenças sutis. São 145 páginas dedicadas
às notas. O relato de Gregory sobre a crise de Galileu é especialmente
interessante. Ele explica como os
líderes da Igreja, tendo compreendido corretamente a ameaça da Reforma para a
metafísica sacramental, agiram de forma exagerada e julgaram mal a importância
de Galileu para a Teologia.
Em
nossos próprios dias, sem dúvida, os católicos continuaram a encontrar muitas
maneiras de difamar a fé. A Igreja precisou de muito tempo para articular sua
própria doutrina em bases teológicas acerca da liberdade religiosa. A crise dos
abusos sexuais deu a muitos padres e bispos uma pedra de moinho para que
amarrassem em seus pescoços e se lançassem ao fundo do mar [nota do tradutor:
conforme disse Jesus em Mt 18:6] por terem machucado inocentes e causado crise
de fé em boas pessoas. Também os leigos católicos comuns deixaram-se ser
colonizados pela avareza, pela anarquia sexual e pelo materialismo da cultura
que os cerca. Em muitas instâncias, se olharmos para o modo pelo qual o
católico americano realmente vive, nós também consumimos, relativizamos e
trivializamos como todo mundo.
Cultivar
a virtude, buscar uma vida de auto-sacrifício, viver alegremente e na plenitude
dos sacramentos não é algo que se possa fazer sozinho. É muito difícil. Precisamos
da graça. Precisamos de companheiros. Precisamos ser ensinados e treinados. Por
isso Deus nos deu a Igreja. Mesmo composta por seres humanos que frequentemente
erram, ela é, não obstante, nossa Mãe e sempre será um dom.
A
moderna teoria política ocidental tenta (ou finge tentar) abster-se de ensinar
moralidade. Devido ao fato de nossa sociedade separar tão veementemente a
verdade da ética, os legisladores modernos tendem a endeusar a privacidade
individual e a autonomia. Mas ao fazê-lo, diminuem a importância social
vivificadora da fé religiosa. Esta “neutralidade” legal não é tão neutra. Ao
alimentar a soberania do indivíduo, nossos líderes públicos abastecem a auto-absorção
do consumidor, a confusão moral e finalmente – na medida em que instituições de
mediação como a família e as igrejas perdem as forças – o poder do Estado. A
Reforma conduziu, em passos graduais, indiretos e de modo completamente involuntário,
àquilo que Gregory chama de “Reino do Tanto-Faz”. É um mundo de
hiperpluralismo, onde o significado é auto-inventado por milhões, e por isso a
sociedade como um todo tem grande fome de significado.
Não
é de se surpreender que os católicos achem estes dias de eleições tão
desagradáveis. Ser católico em 2012, ou pelo menos no ocidente moderno, é viver
no fim de uma longa história. Brad Gregory mostra-nos de modo eloquente um
pouco do que isso significa. Nossos fracassos morais e nossas escolhas
intelectuais tiveram consequências ao longo dos séculos. E agora nossa cultura
está alquebrada.
Mas
não precisava – e não precisa – ser daquele jeito. A Igreja ainda está aqui:
ela ainda nos chama para o arrependimento, ainda nos convoca para os sacramentos.
Neste Ano da Fé ela convida os católicos a uma grande e nova evangelização –
não contra os companheiros cristãos de outras tradições, mas em amizade com
aqueles nossos irmãos. A nossa ambição deve ser consertar uma cultura de
descrença e sanar as políticas desumanas que surgem de tal cultura. E se não
pudermos conseguir isso em acordo com nossos companheiros cristãos, então
podemos pelo menos buscar viver o Evangelho com mais fé. Já é hora, aliás, há
bastante tempo, de fechar a lacuna entre nossas palavras e nossas ações; entre
nossa pregação e nossa prática.
O
Professor Gregory nos lembrou, com uma graça e claridade fora do comum, que não
podemos escapar de nosso passado, mas também não precisamos ser capturados por
ele. Só por isso já vale a pena comprar o livro.
Charles J. Chaput, capuchinho
franciscano, é arcebispo de Filadélfia.
Tradução
William Bottazzini
Original
em: http://www.thepublicdiscourse.com/2012/11/6902/
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