EXTRA ECCLESIAM NULLA SALUS

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

O patriarca Cirilo de Moscou declara: “É pelo número de abortos que se pode julgar o estado moral de uma sociedade”.




O patriarca Cirilo de Moscou visitou no dia de Natal, em data comemorada segundo o calendário antigo, a maternidade de uma clínica de Moscou. “Quando, em uma maternidade, o médico pergunta: ‘Interromperemos a gravidez?’, ele leva a mulher, através desta pergunta, a proceder a um aborto. Estou convencido de que se trata de um crime”, disse o patriarca Cirilo, que se dirigia às pacientes e aos colaboradores da maternidade. “Não é apenas de um crime moral, mas acredito que se trata também de um crime contra o homem, contra a pessoa. Pois o Senhor predestinou a mulher a colocar uma criança no mundo. Esta é, pode-se dizer, sua finalidade principal, sem a qual não poderia existir o gênero humano. E se, pela nossa vontade perversa, intervimos, usurpamos o plano divino para a mulher; se nos esforçarmos para modificar este plano, cometeremos um erro imenso, destruindo a pessoa humana e as relações na sociedade (...). É pelo número de abortos que se pode julgar o estado moral de uma sociedade. Segundo estes indicadores, a Rússia, infelizmente, encontra-se à cabeça dessa situação em meio a outros países”, constatou o patriarca, agradecendo à equipe da maternidade, porque “nesta instituição, não se leva as futuras mamães a interromper a gravidez”. “Se em cada maternidade persuade-se a mamãe de que é necessário fazer com que a criança nasça; que, graças à ciência contemporânea, os médicos farão de tudo para que a criança venha ao mundo e ajudarão a mamãe a cuidar da criança, mesmo no caso de a saúde desta apresentar problemas, então, acredito que o clima moral em nossa sociedade mudará da mesma forma”, continuou o patriarca. Respondendo às perguntas dos jornalistas após sua visita, o patriarca Cirilo declarou que havia “aproximadamente 50 abrigos para mulheres na Federação da Rússia”. As ocupantes destes abrigos são, em parte, jovens mamães que conseguiram recusar-se a proceder ao aborto, mas que, ao fazê-lo, encontraram-se em condições difíceis de existência. Nestes abrigos, as mulheres “podem permanecer por alguns anos. Nestes locais são ajudadas a se inserirem na vida e recebem assistência financeira. Além disso, abriu-se uma série de centros de consultas para mulheres grávidas. Se a futura mãe emite desde cedo o desejo de interromper a gravidez, consultores pertencentes à Igreja começam a trabalhar com ela. Eles ajudam, na maior parte dos casos, a preservar a vida da criança. Colaboramos neste domínio com as instituições do Estado e com as forças sociais, pois consideramos que se trata de uma direção importante de trabalho. Faremos o nosso melhor para desenvolvê-la”, sublinhou o primado da igreja ortodoxa russa.

Tradução: William Bottazzini
Original em: http://www.orthodoxie.com/actualites/le-patriarche-cyrille-de-moscou-declare-cest-au-nombre-des-avortements-que-lon-peut-juger-de-letat-moral-de-la-societe/ 

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

O novo cura d’Ars da Marselha agnóstica multiplica os fiéis em um bairro islâmico



Revolucionou a igreja francesa: pegou uma paróquia do centro de Marselha que ia ser fechada e agora não para de batizar adultos.

Javier Lozano/ReL.

“Trazer tantas almas para Deus quanto seja possível”. O padre Michel Marie Zanotti Sorkine levou a sério esta frase que se tornou o seu principal objetivo como sacerdote.

Assim o faz depois de ter transformado uma igreja que estava para ser encerrada e demolida na paróquia com mais vida de Marselha. Seu mérito é ainda maior pelo fato de o templo estar situado em um bairro com uma enorme presença de muçulmanos em uma cidade onde menos de 1% da população é católica praticante.

Era músico de sucesso
A chave para este sacerdote que anteriormente fora músico de sucesso em diversos cabarés de Paris e Montecarlo é a “presença”; tornar Deus presente no mundo de hoje. As portas de sua igreja estão todos os dias totalmente abertas e ele se veste com batina, porque “todos, cristãos ou não, têm o direito de ver um sacerdote fora da igreja”.

De 50 paroquianos por Missa a 700
Seu balanço é impressionante. Quando chegou em 2004 à paróquia de São Vicente de Paulo do centro de Marselha a igreja permanecia fechada durante a semana e a única missa dominical era celebrada na cripta. A esta missa compareciam apenas 50 pessoas.

Como ele próprio conta, a primeira coisa que fez foi abrir o templo todos os dias e celebrar no altar-mor. Agora a igreja permanece aberta quase o dia todo e faltam cadeiras extras para acomodar os fiéis. Mais de 700 todos os domingos, e o número é ainda maior nas grandes festas. Quase 200 adultos foram batizados desde que chegou, 34 nesta última Páscoa. Tornou-se um fenômeno de massas não apenas em Marselha, mas também em toda França, com reportagens da mídia de todo o país, atraída pela quantidade de conversões.

O novo cura d’Ars da Marselha agnóstica
Uma das principais iniciativas do padre Zanotti Sorkine para revitalizar a fé da paróquia e conseguir tal afluência de pessoas de todas as idades e condições é a confissão. Antes da abertura do templo, às 8 da manhã, já há pessoas esperando na porta para poder receber este sacramento ou para pedir conselhos a este sacerdote francês.

Como relatam seus paroquianos, o padre Michel Marie está boa parte do dia no confessionário, muitas vezes até depois das onze da noite. E se não estiver lá, pode ser encontrado vagando por seus corredores ou na sacristia, pois sabe da necessidade de que os sacerdotes estejam sempre visíveis e próximos para sair em socorro de todo aquele que necessitar.

A igreja sempre aberta
Outra característica sua bastante destacada é a de ter o templo permanentemente aberto. Isto gerou críticas por parte de sacerdotes de sua diocese, mas ele afirma que a missão da paróquia é “permitir e facilitar o encontro do homem com Deus” e o padre não pode ser um impedimento.

O templo deve favorecer o nexo com Deus
Em uma entrevista televisiva afirmava resolutamente que “se hoje em dia a igreja não está aberta é porque de certa maneira não temos nada a propor; que tudo que oferecemos acabou. Ao passo que enquanto a igreja está o dia inteiro aberta, as pessoas vêm. Praticamente nunca tivemos problemas com roubos. Há pessoas que rezam e garanto que esta igreja se transforma em um instrumento extraordinário que favorece o encontro entre a alma e Deus”.

Era a última oportunidade para salvar a paróquia
O bispo enviou-o a esta paróquia como última oportunidade para salvá-la e o padre levou bastante a sério a recomendação de abrir as portas. “Há cinco portas sempre abertas e assim todo mundo poder ver a beleza da casa de Deus”. 90.000 carros e milhares de transeuntes e turistas encontram a igreja aberta e com os sacerdotes às vistas. Este é o seu método: a presença de Deus e de seu povo no mundo secularizado.

A importância da liturgia e da limpeza
E aqui chegamos a outro ponto-chave para este sacerdote. Tendo acabado de chegar e com a ajuda de um grupo de leigos, renovou a paróquia, limpou-a e deixou-a resplandecente. Para ele este é outro motivo pelo qual as pessoas optam por voltar à igreja. “Como querer que alguém creia que Cristo vive em um lugar se não estiver tudo impecável? É impossível”.

Por isso, as toalhas do altar e do Sacrário têm um branco imaculado. “O detalhe é que faz a diferença. Com o trabalho bem feito, damo-nos conta do amor que manifestamos aos seres e às coisas”. E assegura de modo taxativo: “Creio que quando se penetra em uma igreja onde não está tudo impecável é impossível crer na Presença gloriosa de Jesus”.

A liturgia torna-se o ponto central de seu ministério e muitas pessoas foram atraídas a esta igreja pela riqueza da Eucarística. “Esta é a beleza que conduz a Deus”, afirma.

As missas estão sempre cheias e nelas há procissões solenes, incenso, cânticos cuidados... Tudo feito detalhadamente. “Tenho um cuidado especial na celebração da Missa para mostrar o significado do sacrifício eucarístico e a realidade da Presença”. “Não se concebe a vida espiritual sem a adoração do Santíssimo Sacramento e sem um ardente amor por Maria”, razão pela qual introduziu a adoração e a récita diária do Rosário dirigida por estudantes e jovens.

Seus sermões são também bastante esperados. Aliás, seus paroquianos têm acesso a eles através da internet. Neles o padre sempre chama à conversão, pela salvação do homem. Em sua opinião, a falta desta mensagem na Igreja de hoje “é talvez uma das principais causas da indiferença religiosa que vivemos no mundo contemporâneo”. Antes de tudo deve-se ter clareza na mensagem evangélica. Por isso adverte-nos contra a frase tão batida que diz “todos vamos para o Céu”. Esta é para ele “outra canção que pode nos enganar”, pois se deve lutar, começando pelo sacerdote, para se chegar ao Paraíso.

O cura de batina
Se existe algo que distingue este alto sacerdote em um bairro de maioria muçulmana, é a sua batina, que sempre veste, e o rosário entre as mãos. Para ele é essencial que o padre possa ser distinguido entre as pessoas. “Todos os homens, começando por aquele que cruza o umbral da igreja, têm o direito de se reunir com um sacerdote. O serviço que oferecemos é tão essencial para a salvação que nossa visão deve tornar-se tangível e eficaz para permitir esta reunião”.

Deste modo, para o padre Michel, o sacerdote o é 24 horas por dia. “O serviço deve ser permanente. Que pensaria você de um marido que, em seu caminho para o escritório pela manhã, tirasse sua aliança?”.

Neste aspecto é muito insistente: “quanto àqueles que dizem que o hábito cria distância, deve-se dizer que não conhecem o coração dos pobres, para os quais, o que se vê diz mais que o que se diz”.

Por último recorda um detalhe importante. A primeira coisa que os regimes comunistas faziam era eliminar o hábito eclesiástico, sabendo da importância da comunicação da fé. “Isto merece a atenção da igreja da França”, afirma.

No entanto, sua missão não é desenvolvida unicamente no interior do templo, pois ele também é um personagem conhecido em todo o bairro, até mesmo pelos muçulmanos. Toma café da manhã nos cafés do bairro; ali fala e se reúne com os fiéis e com as pessoas não praticantes. Chama-o de sua pequena capela. Assim conseguiu que muitos vizinhos sejam agora assíduos da paróquia e transformaram esta igreja de São Vicente de Paulo em uma paróquia totalmente ressuscitada.

Uma vida peculiar: cantor de cabarés
A vida do padre Michel Marie sempre esteve em movimento. Nasceu em 1959 e tem raízes russas, italianas e corsas. Aos 13 anos perdeu sua mãe, o que lhe causou uma “ruptura devastadora” e o fez unir-se ainda mais à Virgem Maria.

Por ter um grande talento musical, compensou a perda de sua mãe com a música. Em 1977, após ser convidado a tocar no café Paris de Montecarlo, mudou para a capital onde começou sua carreira de compositor e músico de cabarés. Todavia a chamada de Deus era mais forte e em 1988 entrou para a ordem dominicana por causa de sua devoção a São Domingos. Esteve com eles por quatro anos, quando, diante do fascínio por São Maximiliano Kolbe, passou para a ordem franciscana, onde também permaneceu por quatro anos.

Foi em 1999 que foi ordenado sacerdote para a diocese de Marselha com quase quarenta anos. Além de músico, agora dedicado a Deus, também é escritor de sucesso, com seis livros publicados, e poeta.

Tradução: William Bottazzini

*Todos os negritos são do texto original.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Nota sobre a gravação das aulas

Gostaria de informar que não abandonei o projeto de gravar um curso completo de história da Igreja, apenas o interrompi por um momento porque precisava cuidar de outras coisas. Retomá-lo-ei assim que possível.

Contando com a oração de todos,

William

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

A vida no “Reino do Tanto-Faz”



Por Arcebispo Charles J. Chaput

A Reforma, mesmo sem querer, desfez a síntese medieval entre a fé e a razão. Atualmente nós, de modo romântico, buscamos uma vida espiritual livre de qualquer autoridade e tradição, ou então, de modo racionalista, buscamos a verdade como se os seres humanos fossem autônomos e auto-suficientes.

Virá o dia em que os católicos não poderão apoiar nenhum dos principais partidos políticos americanos. Alguns acham mesmo que este dia já chegou. Alasdair MacIntyre, o filósofo de Notre Dame, argumentou-o nestas linhas há alguns anos, explicando o porquê de não se poder votar nem em um democrata nem em um republicano.
Desconheço o que o Prof. Macintyre fará este ano. De minha parte, bem como da parte de meus irmãos no episcopado na Pennsylvania, acredito ser importante votar hoje em cada dia de eleição. Uma consciência católica bem formada pode escolher sabiamente entre os candidatos. Este ano estão em jogo assuntos de grande importância.  
Não obstante, as eleições são tempos difíceis para os católicos sérios. Se nós acreditamos na tradição encíclica – da Rerum Novarum a Evangelium Vitae; da Humanae Vitae a Caritas in Veritate – então não podemos nos sentir confortáveis em nenhum partido político. Os católicos dão prioridade ao direito à vida e à integridade da família como pedras angulares da sociedade. Mas também temos muito que dizer a respeito da economia e da imigração, da dívida desenfreada, do desemprego, da guerra e da paz. Por isso que os bispos norte-americanos notaram recentemente que “no ambiente atual, os católicos podem sentir-se politicamente cassados, com a sensação de que nenhum partido e poucos candidatos compartilham plenamente nosso compromisso exaustivo para com a vida humana e a dignidade”.
Qualquer cristão pode ser tentado a entrar em desespero. Mas a verdade é que sempre as coisas foram como são. Como escrevera o autor da Epístola aos Hebreus, “não temos aqui cidade permanente” (Heb 13:14). Agostinho admirava certas virtudes pagãs, mas foi ele quem escreveu a Cidade de Deus para nos lembrar que em primeiro lugar somos cristãos e depois cidadãos do mundo. Precisamos aprender – às vezes de forma dolorosa – a deixar nossa fé castigar os nossos desejos particularistas.
Nos Estados Unidos, as nossas tensões políticas derivam dos nossos problemas culturais. Evidentemente existem exceções, mas em nossos dias nossa cultura antepõe frequentemente direitos a deveres, satisfação individual à comunidade e dúvida à fé. Com efeito, aquilo que nos une é nosso direito de ficar perambulando pelos shoppings e de comprar mais porcaria. É difícil viver uma vida de virtudes quando tudo em torno de nós, na mídia e mesmo nas vidas de colegas e pessoas próximas, a disciplina, a moderação e o sacrifício de si mesmo parecem irrelevantes.
Brad Gregory, o historiador de Notre Dame, tenta mostrar como nós chegamos a este ponto em seu recente livro The Unintended Reformation: How a Religious Revolution Secularized Society (Tradução livre: A Reforma não desejada: como uma revolução religiosa secularizou a sociedade). Suas respostas são surpreendentes e, para alguns leitores, controversas. Porém seu livro também é importante – e a sua capacidade de explicar as coisas é brilhante.
Gregory alega que o relativismo hodierno e o culto do consumidor – algo que ironicamente é chamado de “os bens da vida” – possui raízes que remontam há muitos séculos. O historiador não perde tempo com nostalgias de uma era de ouro que nunca existiu. Contudo ele realmente mostra, com uma clareza instigante, que o no século XVI os reformadores protestantes involuntariamente puseram em marcha certas idéias que acabaram por viabilizar o egocentrismo atual.
Gregory também mostra que se por um lado os reformadores acenderam o pavio, os católicos medievais, por outro, haviam preparado a dinamite. O laicato medieval era, muito frequentemente, profundamente piedoso. E justamente porque era piedoso é que eles se lembravam quando seus líderes não o eram. Leigos piedosos tinham desejo de reforma justamente por causa de sua devoção. O clero da Idade Média tardia também continuamente pregava uma coisa e fazia outra. Avareza, simonia, nepotismo, luxúria, liberdade sexual e cisma na hierarquia criaram uma lacuna intolerável entre o ensinamento cristão e a prática.
Muitos católicos trabalhavam para uma reforma a partir de dentro. Alguns tiveram sucesso. Franciscanos, dominicanos e cistercienses devem suas origens à reforma medieval. Humanistas como Erasmo e Thomas More fizeram parte de uma comunidade internacional de correspondências que estava determinada a renovar a vida cristã a partir de seu interior. Santos como Catarina de Sena e Bernardo de Claraval falaram a verdade para os poderes eclesiásticos.
Mas uma diferença crucial separava estas vozes católicas dos reformadores protestantes: os católicos acreditavam que os ensinamentos da Igreja estavam corretos. A única coisa de que ela precisava era verdadeiramente vivê-los. Os católicos acreditavam que a presença de Cristo na Eucaristia e nos outros sacramentos, nas Escrituras, nos santos e nas doutrinas históricas da Igreja oferecia um estilo de vida cristão autêntico, que abrangia todos os âmbitos da vida, suficiente para santificar a existência humana no caso de esta estar realmente envolta e esmagada pelos seus abusos.
Os protestantes, ensinando a sola scriptura, jogaram fora muitas dessas coisas. Eles acreditavam que o depósito e a estrutura da fé católica estavam equivocados já nos seus princípios; que Cristo não mais habitava na Igreja Católica; e que apenas a Escritura comunicava a vontade de Deus. A sola scriptura mudou tudo na Cristandade ocidental. “A Igreja” tornou-se “as igrejas” e o processo, inadvertidamente, mas de modo irrefreável, abasteceu a soberania individual e o relativismo.
Gregory diz muitíssimas coisas duras sobre os resultados da sola scriptura. Porém, antes de nos felicitarmos por termos evitado aquele erro, nós católicos devememos, primeiramente, refletir longamente sobre o porquê de a vida cristã ter dado oportunidade para uma confusão tão destrutiva. Muitíssimos líderes católicos do clero – especialmente, mas de nenhum modo apenas eles – viviam a fé que professavam com um cinismo visível. A primeira lição de Gregory, pois, é que o modo pelo qual nós vivemos a nossa vida interessa e muito. O fracasso em se praticar a caritas tem consequências para nossa unitas. Era assim naquele tempo e é assim ainda hoje.
O Professor Gregory, contudo, não para por aí. Ele está apenas aquecendo.
O enfoque dos reformadores no sola scriptura buscava fechar a lacuna entre a pregação cristã e a prática. Mas tal princípio falhou porque acabou por abrir uma caixa de Pandora de novos problemas. Interpretações rivais da Escritura, na verdade, intensificaram a confusão. Luteranos liam a Escritura de uma maneira; já os calvinistas, de outra. Havia ainda diversos tipos de anglicanos, anabatistas, batistas, puritanos, pietistas, metodistas e quakers que divergiam em incontáveis casos.
Gregory também menciona os filósofos seculares que acabaram dando continuidade a tudo isso. No lugar da sola scriptura, o iluminismo oferecia a sabedoria: a sola ratio. De Descartes, passando por Hobbes, Spinoza, Rousseau, Kant, Hume, Hegel e outros, até Heidegger, Levinas e seus sucessores, deu-se início ao grande ‘fim da linha’ para a religião revelada e suas tradições e a uma busca da verdade que estivesse fundamentada apenas na razão humana.
Mas Gregory mostra que os filósofos não se saíram muito melhor que os reformadores. Ideias rivais proliferavam. A verdade e as respostas para as grandes questões da vida continuaram a ser debatidas. Mais recentemente, Nietzsche, Foucault e os pós-modernistas foram honestos o suficiente para afirmá-lo, e com isso desprezavam tanto o iluminismo quanto o cristianismo. O resultado disso pode ser visto no espírito de ironia e ceticismo difundido hoje.
Conforme Gregory explica, o caos metafísico de nossa cultura contribuiu para a formação de nossa política, economia e ciência. Não há nada na vida cotidiana que tenha ficado intacto.
Politicamente os líderes da Reforma voltaram-se para os governantes temporais para se protegerem do papado, alimentando com isso o crescimento do estado secular moderno. Papas e bispos, que outrora haviam sido um contrapeso para o poder secular, descobriram que na nova ordem eles possuíam muito menos influência sobre os reis. Os primeiros Estados modernos passaram décadas em guerra uns contra os outros, evidentemente devido a diferenças teológicas. Mas na verdade, igrejas e Estados usavam-se mutuamente para os seus fins eminentemente práticos. Os Estados agarraram a chance de expandir o seu poder e o clero buscava proteção e apoio da parte do Estado.
O resultado foi um banho de sangue e a exaustão tanto do ponto de vista militar quanto do ponto de vista metafísico. A vida intelectual e a prática religiosa da Idade Média haviam estado incrivelmente unidas. Em um monastério ou em uma universidade escolástica, a busca pelo saber integrava-se organicamente com a busca pela virtude. Mas as novas universidades do período pós-Reforma cada vez mais passavam do controle eclesiástico para o secular. Colocaram a teologia em uma faculdade separada e de pouco importância, dispensando suas energias para o treinamento de profissionais e cientistas que pudessem servir às ambições do crescimento comercial dos Estados.
Ao ler Gregory, podemos ver que grande parte da história da primeira época da Idade Moderna nada mais é do que a história de como o mercantilismo e o mercado suplantaram a Igreja como forças de ordem da vida comum. As primeiras experiências no campo da tolerância religiosa foram claramente defendidas por razões comerciais. Desgastados com disputas religiosas que pareciam eternas, os burgueses do início da República Holandesa pararam de requerer o título de membro de sua igreja oficial (protestante) e aceitavam de bom grado mercadores e artesãos de todas as crenças. Inglaterra, América e outros Estados seguiram o exemplo. Eles reconheciam a religião como um bem público, mas reduziram-na, com efeito, a uma escolha privada, enquanto que – na prática – reverenciavam o comércio como um objetivo nacional.
A Reforma também teve implicações na ciência e na tecnologia. Com graus variáveis de autoconsciência, eles mudaram o modo pelo qual a cultura ocidental concebia a natureza e todo o mundo material.
Por exemplo: ainda hoje, mesmo que os católicos sejam formados pelos sacramentos, nós continuamos vivendo em um mundo material cheio da presença de Deus. Tanto para o católico medieval quanto para o moderno, o mundo material é um meio para a graça divina. Já o desdém dos reformadores para com as obras e os sacramentos criou, inevitavelmente, uma fé mais voltada para o ego, uma experiência abstrata.
Como detalha Gregório, quando os sacramentos deixam de ser patrimônio público para se tornarem práticas privadas, a mudança cultural torna-se inevitável. Os ocidentais costumavam crer que o mundo fazia parte de um cosmos espiritual, mas após a Reforma, aquela confiança deixou de ser compartilhada. Consequentemente, os mercadores modernos, as universidades e os intelectuais desenvolveram o hábito de ver a matéria como espiritualmente inerte, o que quer dizer que ela está disponível para ser manipulada a fim de que possa servir aos desejos humanos.
Mas a ciência moderna nunca provou e nunca poderá provar empiricamente que a natureza é espiritualmente inerte. Enquanto os secularistas (ou fundamentalistas religiosos) insistirem nisso, eles serão ideólogos, não cientistas. Os católicos sempre acreditaram que Deus age nas causas naturais e através delas. Ele revelou-Se a nós em Seu Filho, Jesus Cristo. Porém Deus também existe de forma absoluta fora da Criação. Ele é completamente Outro. Ele não é meramente uma Fada Celeste maior ou o Super-Ser nos céus. Em outras palavras, o Deus cristão não é o tipo de Deus que pode ser “refutado” por algo que possamos ver sob o microscópio ou através de um experimento. Embora muitos hoje, obrigados para com uma metafísica anti-sacramental, insistam que deva haver um conflito entre a ciência e a religião. Isso é falso. E não precisava ser assim.
De certa forma, o livro de Gregory poderia receber este subtítulo: “a crise de fé no ocidente e a razão”. A reforma – de modo sincero, zeloso e com as melhores intenções – liberou as forças centrífugas que desfizeram a síntese medieval entre a revelação e a filosofia. Desde então, nossa cultura despencou de uma morte intelectual para outra, ou buscando romanticamente uma vida espiritual livre de qualquer autoridade e tradição ou querendo encontrar racionalmente a verdade, como se os seres humanos fossem autônomos e auto-suficientes. A Reforma nos custou o grande casamento ocidental que havia entre a fé e a razão – ou seja, a confiança compartilhada de que a fé é pessoal, mas também comum, e de que a razão não é contrária à fé, mas a aumenta.
Nesta história, os católicos cometeram erros terríveis e que custariam caro. Conforme o que ficou dito, a Reforma aconteceu por uma boa razão. Sempre que o Professor Gregory argumenta, ele o faz com equilíbrio, com respeito por todas as partes e com detalhes históricos apoiados em diferenças sutis. São 145 páginas dedicadas às notas. O relato de Gregory sobre a crise de Galileu é especialmente interessante.  Ele explica como os líderes da Igreja, tendo compreendido corretamente a ameaça da Reforma para a metafísica sacramental, agiram de forma exagerada e julgaram mal a importância de Galileu para a Teologia.
Em nossos próprios dias, sem dúvida, os católicos continuaram a encontrar muitas maneiras de difamar a fé. A Igreja precisou de muito tempo para articular sua própria doutrina em bases teológicas acerca da liberdade religiosa. A crise dos abusos sexuais deu a muitos padres e bispos uma pedra de moinho para que amarrassem em seus pescoços e se lançassem ao fundo do mar [nota do tradutor: conforme disse Jesus em Mt 18:6] por terem machucado inocentes e causado crise de fé em boas pessoas. Também os leigos católicos comuns deixaram-se ser colonizados pela avareza, pela anarquia sexual e pelo materialismo da cultura que os cerca. Em muitas instâncias, se olharmos para o modo pelo qual o católico americano realmente vive, nós também consumimos, relativizamos e trivializamos como todo mundo.
Cultivar a virtude, buscar uma vida de auto-sacrifício, viver alegremente e na plenitude dos sacramentos não é algo que se possa fazer sozinho. É muito difícil. Precisamos da graça. Precisamos de companheiros. Precisamos ser ensinados e treinados. Por isso Deus nos deu a Igreja. Mesmo composta por seres humanos que frequentemente erram, ela é, não obstante, nossa Mãe e sempre será um dom.

A moderna teoria política ocidental tenta (ou finge tentar) abster-se de ensinar moralidade. Devido ao fato de nossa sociedade separar tão veementemente a verdade da ética, os legisladores modernos tendem a endeusar a privacidade individual e a autonomia. Mas ao fazê-lo, diminuem a importância social vivificadora da fé religiosa. Esta “neutralidade” legal não é tão neutra. Ao alimentar a soberania do indivíduo, nossos líderes públicos abastecem a auto-absorção do consumidor, a confusão moral e finalmente – na medida em que instituições de mediação como a família e as igrejas perdem as forças – o poder do Estado. A Reforma conduziu, em passos graduais, indiretos e de modo completamente involuntário, àquilo que Gregory chama de “Reino do Tanto-Faz”. É um mundo de hiperpluralismo, onde o significado é auto-inventado por milhões, e por isso a sociedade como um todo tem grande fome de significado.
Não é de se surpreender que os católicos achem estes dias de eleições tão desagradáveis. Ser católico em 2012, ou pelo menos no ocidente moderno, é viver no fim de uma longa história. Brad Gregory mostra-nos de modo eloquente um pouco do que isso significa. Nossos fracassos morais e nossas escolhas intelectuais tiveram consequências ao longo dos séculos. E agora nossa cultura está alquebrada.
Mas não precisava – e não precisa – ser daquele jeito. A Igreja ainda está aqui: ela ainda nos chama para o arrependimento, ainda nos convoca para os sacramentos. Neste Ano da Fé ela convida os católicos a uma grande e nova evangelização – não contra os companheiros cristãos de outras tradições, mas em amizade com aqueles nossos irmãos. A nossa ambição deve ser consertar uma cultura de descrença e sanar as políticas desumanas que surgem de tal cultura. E se não pudermos conseguir isso em acordo com nossos companheiros cristãos, então podemos pelo menos buscar viver o Evangelho com mais fé. Já é hora, aliás, há bastante tempo, de fechar a lacuna entre nossas palavras e nossas ações; entre nossa pregação e nossa prática.
O Professor Gregory nos lembrou, com uma graça e claridade fora do comum, que não podemos escapar de nosso passado, mas também não precisamos ser capturados por ele. Só por isso já vale a pena comprar o livro.

Charles J. Chaput, capuchinho franciscano, é arcebispo de Filadélfia.

Tradução William Bottazzini

Original em: http://www.thepublicdiscourse.com/2012/11/6902/